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    Agricultura

    Soja brasileira: na China e no seu cotidiano

    Qual o impacto no Brasil do novo acordo entre Trump e Xi Jinping, que retomou as compras chinesas da soja produzida nos EUA? Confira análise.

    POR: Evaristo de Miranda

    11 min de leitura

    Colheita de soja no Brasil, maior exportador mundial do grão. O novo acordo entre Estados Unidos e China representa uma trégua na guerra comercial e a retomada das compras do grão norte-americano pelo mercado chinês. Mesmo assim, o Brasil mantém posição de principal fornecedor, com produção recorde e competitividade preservada. Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Sistema CNA/Senar
    Colheita de soja no Brasil, maior exportador mundial do grão. O novo acordo entre Estados Unidos e China representa uma trégua na guerra comercial e a retomada das compras do grão norte-americano pelo mercado chinês. Mesmo assim, o Brasil mantém posição de principal fornecedor, com produção recorde e competitividade preservada. Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Sistema CNA/Senar

    A soja é um exemplo de como a agropecuária brasileira produz alimentos e energia. Com sinergia e sem competição. A produção cresce ano a ano e atende a demanda industrial de alimentos e biodiesel, aqui e no mundo. Qual o impacto no Brasil do novo acordo EUA-China para compras preferenciais de soja? Já é possível visualizar os grandes números da produção brasileira de soja em 2025 e para 2026 e de como ela estará presente em seu cotidiano.

    China, EUA e o peso da soja brasileira

    No mundo, há uma relativa estabilidade entre a oferta e a demanda por soja. A demanda elevada e crescente tem encontrado no setor produtivo resposta e oferta adequada: produção superior a 420 milhões de toneladas. Brasil, EUA e Argentina respondem por 82% da soja mundial. Se fosse um país, o Mato Grosso seria o terceiro produtor mundial após Brasil e EUA.

    Dados da safra 2024/25 mostrando a produção de soja no mundo, no Brasil e nos Estados Unidos, principais produtores globais, julho de 2025. Fonte: Embrapa Soja, CONAB e Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Crédito: Reprodução / Embrapa Soja – Dados Econômicos

    A China consome 133 milhões de toneladas de soja por ano, 1/3 da produção mundial. O Brasil é seu maior fornecedor. No acordo com os EUA, a China comprará até janeiro 12 milhões de toneladas e assumiu meta mínima anual de 25 milhões por três anos. É como uma volta à normalidade, ao padrão pré-guerra comercial. O acordo favoreceu um pouco os EUA e está de bom tamanho para o Brasil, fornecedor de 100 milhões de toneladas anuais à China. Ficou bom para todos, apesar de vaticínios negativos por aqui.

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    Para o Brasil, ficar na dependência de 80% da exportação de soja para um único destino (China) não é bom. O acordo levou à queda nos prêmios à soja, como reflexo da expectativa de redirecionamento parcial das compras chinesas. A competitividade da soja brasileira, graças à modernização e industrialização da produção, segue preservada e atrai novos compradores ao grão nacional. Resultado indireto da disputa entre EUA e China, a soja brasileira começa a chegar, graças à sua competitividade, a outros mercados.

    Nesta safra, segundo a Agroconsult, a área cultivada com soja crescerá algo como um milhão de hectares. O plantio, já realizado em 50%, está sem grandes atrasos ou dificuldades. A safra 2025/2026 estabelecerá mais um recorde, acima de 177 milhões de toneladas: 112 serão exportadas e 65 destinadas ao mercado interno. Não faltará soja para ninguém.

    Semeadura de soja da safra 2025/26 nos 12 principais estados produtores — que representam 96% da área cultivada — registra avanço de 47,1% até 1º de novembro de 2025. Crédito: Conab/Reprodução

    Quem produz a soja brasileira

    Para muitos a soja é sinônimo de latifúndios produtivos. Engano. São mais de 232 mil produtores em 18 estados, dos quais 75,9% são pequenos (menos de 100 ha de área de imóvel) e membros ativos do agronegócio, segundo o Censo Agropecuário. Só no Rio Grande do Sul são mais de 95.000. A maioria dos produtores de soja não são latifundiários, ao contrário do alardeado em narrativas contra o agronegócio. Mais de 90% dos produtores de soja são pequenos e médios. Esse contingente de pequenos e médios produtores tem grande dimensão social, margens de lucro apertadas e uma vida nada doce.

    A doçura está no nome da soja. Seu nome científico, Glycine max, deriva do grego glykos e significa doce. Está presente em palavras açucaradas como glicose, glicogênio e glucose. O naturalista Carl von Linné criou, em 1744, o gênero Glycine para leguminosas cujos tubérculos tinham gosto açucarado, como a Glycine apios (hoje Apios americana), conhecida como amendoim americano ou feijão-batata. Glicínia é também nome de uma liana ou trepadeira, famosa por suas belíssimas cascatas de flores azuis pendentes.

    A safra de soja alimenta o mundo e os brasileiros, move veículos (biodiesel) e é a base de produtos, consumidos e usados no cotidiano, fabricados por indústrias agroalimentares, farmacêuticas, químicas, cosméticas e da construção civil. Em todas essas indústrias, tem soja.

    A soja no seu prato e muito além dele

    O grão de soja, em média, possui 40% de proteínas, 20% de lipídios (óleo), 5% de minerais e 34% de carboidratos (glicose, frutose, sacarose, fibras e oligossacarídeos). Não tem amido, nem glúten. O feijão, outra leguminosa, não possui as isoflavonas, presentes na soja, benéficas à saúde no controle de doenças crônicas (câncer, diabetes mellitus, osteoporose) e cardiovasculares.

    Você consome soja em seu cotidiano. Ela está presente em pastas de dentes, chocolates e achocolatados. Confira a embalagem de dentifrícios e chocolates: contém lecitina de soja. Consumiu chocolate, comeu soja. A lecitina de soja é utilizada em centenas de produtos da indústria agroalimentar como emulsificante, estabilizante, antioxidante, agente contra o salpiqueio e entra na composição das cápsulas de medicamentos.

    Proteínas de soja compõem alimentos infantis (papinhas) e parenterais, são agentes de aeração e textura, e estão na produção de bebidas à base de soja. Nos alimentos vegetarianos e veganos, as proteínas de soja são utilizadas em salsichas, nuggets, kibes, coxinhas, bolinhos e hambúrgueres. A farinha de soja desengordurada serve à produção de barras de cereais, balas, alimentos dietéticos, misturas preparadas, proteína texturizada de soja (“carne” de soja), bebidas à base de soja, massas e ingredientes de padarias.

    O grão de soja natural é vendido em supermercados e casas de produtos naturais e dietéticos. A culinária da soja exige técnicas de preparo. Aqui a presença japonesa e asiática ampliou o consumo direto da soja: cozida, torrada com sal como aperitivo, soja hortaliça ou soja verde (edamame), brotos de soja (moyashi), molho de soja (shoyo), pasta de soja fermentada (missô), queijo de soja (tofu) e soja fermentada (nattô). Dezenas de indústrias de alimentos utilizam derivados de soja em seus produtos. Dentre elas: Agronippo, Caramuru, Ceratti, Good Soy, Josapar, Nutrimental, Perdigão, Sakura, Sadia, Samurai, Superbom, Unilever, Yakult e Yoki. E você, usa shoyo em sua casa?

    As rações animais para bovinos, caprinos, ovinos, suínos, aves, peixes e pets utilizam muita soja. Alimentos, como leite, ovos, carne suína e de frango, dependem de rações à base de soja. Ela chega na sua mesa transformada em leite, manteiga, queijos, iogurtes, ricotas e requeijões. A soja é a principal proteína nas rações de aves e suínos. Você consome soja transformada em ovos, presuntos, salames, mortadelas, linguiças, salsichas, peitos, sobrecoxas, paletas, lombos e torresmos. Via ovos e leite, a soja entra indiretamente em bolachas, macarrão, bolos, broas, pães e sobremesas. Em laticínios, embutidos, carnes, doces e outros alimentos, você come soja.

    A soja está na base da ração das 950 mil toneladas de peixes cultivados por ano no Brasil. O número é superior ao da pesca extrativista, estagnado há anos. A soja brasileira alimenta e sustenta os salmões do Chile e Noruega: um quarto de suas rações é soja. Você escolheu salmão defumado da Noruega ou do Chile no restaurante? Comerá soja. E talvez uma certa dose de antibióticos.

    O óleo de soja é o mais usado nos lares brasileiros em frituras, molhos e saladas e na indústria para produzir maioneses, margarinas e outros produtos, com base em gorduras vegetais. Em todos esses produtos, você consome soja.

    No transporte coletivo, a soja ajuda você a se locomover de forma sustentável. O óleo de soja produz combustível renovável (biodiesel) para caminhões, ônibus, tratores, utilitários e todos os veículos a diesel. A mistura obrigatória de biodiesel no diesel é de 15% (B15), desde 1º de agosto de 2025, por decisão do Conselho Nacional de Política Energética. Com isso, aumenta a produção de farelo e agrega-se valor à soja pela industrialização do grão. Com maior processamento as exportações de farelo superam 23 milhões de toneladas.

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    A soja está presente em seu banho. O óleo de soja e a produção de biodiesel dão origem a substâncias de base para usos industriais como glicerol (sabões, sabonetes, loções e xampus) e produtos farmacêuticos, como supositórios de glicerina. Os ácidos graxos são empregados pelas indústrias farmacêutica, cosmética e alimentar. Outro exemplo: velas de cera de soja, 100% vegetais, não contêm parafina, oferecem uma queima limpa, não geram resíduos nocivos à saúde e são compatíveis com essências à base de óleos vegetais.

    O óleo de soja epoxidado é aplicado como plastificante em cloreto de polivinila (PVC) para sacos, filmes alimentícios, suprimentos médicos (bolsas de sangue e tubos intravenosos), produtos de folha de vinil, selantes, tintas, revestimentos etc. A proteína isolada de soja serve em adesivos, formadores de espuma e fabricação de fibras. A farinha de soja desengordurada dá origem a outros adesivos empregados pela indústria madeireira de pinhos manufaturados, tábuas de construção, caixas, conglomerados e laminados especiais. A própria lecitina de soja é aproveitada pela indústria como agente antiespumante, dispersante, umidificante, estabilizante e antiderrapante.

    Os pneus de seu carro podem ter soja. Na produção de pneus, o óleo de soja funciona como elemento reativo de processamento da borracha. Compostos de borracha, com óleo de soja, misturam-se mais facilmente com a sílica usada na banda de rodagem. O óleo de soja utilizado pela Goodyear no pneu Wrangler Workhorse AT proporciona melhor desempenho em diferentes temperaturas, maior aderência à pista e melhora o seu desempenho.

    A soja é produzida com tecnologias ambientalmente amigáveis. A fixação biológica de nitrogênio em 40 milhões de hectares (Veja estudo), evita adubos nitrogenados, economiza US$ 25 bilhões e reduz a emissão de 230 milhões de toneladas de CO2 eq.. Por sua contribuição ao desenvolvimento de insumos biológicos, a cientista Mariangela Hungria, da Embrapa Soja, foi a laureada em 2025 com o Prêmio Mundial de Alimentação (World Food Prize), o “Nobel” da agricultura.

    Herbicidas, variedades transgênicas, sistemas de plantio direto na palha (sem aração), controle e manejo integrado de pragas e doenças são essencialmente os mesmos entre pequenos e grandes produtores. A diferença básica é o nível da mecanização e a complexidade na gestão dos cultivos e das fazendas.

    A soja é a maior cultura do país em volume, geração de renda e valor das exportações. Sustenta fábricas de máquinas, implementos, fertilizantes e defensivos. Gera matéria prima às indústrias de biodiesel, automobilística, agroalimentar, farmacêutica, cosmética… Habita seu cotidiano. Goste ou não.

    Notas

    • Análise da Agroconsult – Consultoria em agronegócio avalia o novo acordo entre EUA e China para o comércio de soja. Acesse aqui.
    • Acordo EUA–China para soja acende alerta, mas pode trazer oportunidades – Reportagem de Poliana Santos, em colaboração para a CNN Brasil. Acesse aqui
    • Acordo EUA–China derruba prêmios da soja no Brasil e faz preço subir em Chicago – Matéria de Fernanda Pressinott, publicada no Globo Rural. Acesse aqui
    • Técnicas de preparo da soja – Conteúdo técnico da Embrapa Soja. Acesse aqui.

    Evaristo de Miranda é agrônomo, com mestrado e doutorado em ecologia pela Universidade de Montpellier. Com mais de 1.400 publicações no Brasil e exterior, é autor de 56 livros, como “Tons de Verde – A Sustentabilidade da Agricultura Brasileira” (em português, inglês, árabe e mandarim). Pesquisador da Embrapa de 1980 a 2023, coordenou mais de 40 projetos e dirigiu três centros nacionais de pesquisa. Membro da Academia Nacional de Agricultura, foi eleito Agrônomo do Ano em 2021. Sua produção científica e artigos estão disponíveis no site: evaristodemiranda.com.br.

    Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.