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    EUA

    Maior onda de protestos nos EUA: No Kings 3 marca o começo do fim de Trump

    Mobilização de milhões nas ruas, rejeição à guerra contra o Irã e alta dos combustíveis expõem tensões internas e perda de apoio ao governo

    POR: Eduardo Siqueira

    12 min de leitura

    Manifestante segura cartaz com os dizeres “Pro-America Anti-Trump” durante protesto do movimento No Kings em Springfield, Oregon (EUA), em 28 de março de 2026. Foto: David Geitgey Sierralupe / Flickr (CC BY-SA 4.0)
    Manifestante segura cartaz com os dizeres “Pro-America Anti-Trump” durante protesto do movimento No Kings em Springfield, Oregon (EUA), em 28 de março de 2026. Foto: David Geitgey Sierralupe / Flickr (CC BY-SA 4.0)

    Trocando em Miúdos
    “Sem Reis 3”: O Começo do Fim do Governo Trump 2.0

    A maior manifestação popular contra o governo Trump 2.0 ocorreu no último dia 28 de março. Esta é a terceira grande mobilização nacional em pouco mais de um ano. Desta vez, em cerca de 3.300 atos espalhados pelos EUA, os protestos do No Kings (Sem Reis em tradução livre) reuniram 8 milhões de pessoas, segundo a coordenação nacional do movimento Indivisible.

    + Protestos em massa e repressão militar aprofundam crise do governo Trump

    Além das consensuais bandeiras contra o autoritarismo e pela democracia, contra a perseguição aos imigrantes, contra a negação da ciência e da mudança climática, contra o genocídio de Gaza e o desrespeito à Constituição dos Estados Unidos, as novas palavras de ordem e slogans do No Kings 3 incluíram com mais ênfase o escândalo Epstein e as agressões contra o Irã e à Venezuela. Um cartaz de um manifestante na minha cidade ironizava a tradicional abreviação do partido republicano, GOP (Grand Old Party ou Grande Velho Partido), que deveria agora passar a significar (Great Organizer of Pedophiles, ou Grande Organizador de Pedófilos).

    + Veja registro das manifestações No Kings 3 publicado pelo Indivisible:

    Do ponto de vista geográfico, as marchas, protestos e buzinaços ocorreram em cidades grandes, médias e pequenas, de Norte a Sul e de Leste a Oeste. Em estados tradicionalmente favoráveis aos democratas, como em Minnesota – o protesto de Minneapolis foi o que chamou mais a atenção da mídia – Nova Iorque e Massachusetts, mas também em estados tradicionalmente republicanos, como Carolina do Sul, Mississipi e Flórida. Além disso, passeatas e protestos razoavelmente grandes aconteceram fora dos Estados Unidos da América, como em Roma, Madri, Paris e Londres.

    Se em manifestações anteriores o foco da agenda de lutas se concentrava mais nas questões internas do país, a política externa dos EUA pouco a pouco passou a crescer na preocupação de muitos e a fazer parte da luta contra o governo Trump 2.0 desde 2025. O desgaste do governo Trump tornou-se global e o protesto “Sem Reis” daqui para a frente refletirá a resistência global ao neofascismo com características estadunidenses.

    A relação entre as políticas interna e externa dos EUA ficou mais visível para muitos desde a repercussão do fracassado tarifaço no dia a dia dos consumidores, por meio do aumento dos preços de produtos de consumo diário. Enquanto não tinha ficado claro que existe íntima relação entre os abusos e violações de direitos constitucionais e as agressões contra supostos inimigos dos Estados Unidos, as políticas do governo Trump ainda não eram percebidas como duas faces da mesma moeda, ou seja, os aspectos nacionais e internacionais do neofascismo e imperialismo trumpista.

    +Velho imperialismo dos EUA, novo operador: neofascismo sob Trump
    +
     O imperialismo está nu

    Em abril de 2026, essas duas faces se tornam mais evidentes para boa parte dos que se opõem ao governo Trump, cuja maior tendência continua sendo separar as duas, como interessa aos oligarcas que dominam a sociedade americana. Aliás, não é fácil para um cidadão médio dos EUA, mesmo bem intencionado, entender como as políticas interna e externa interagem se durante décadas a propaganda chovinista de grande potência e as mentiras diariamente veiculadas na mídia resultaram em uma verdadeira lavagem cerebral da sua consciência ao associar o patriotismo com a defesa de guerras e invasões de supostos inimigos escolhidos pela oligarquia.

    Agressão contra o Irã e sua repercussão nos Estados Unidos

    A intenção da oligarquia sionista dos EUA, em aliança com os sionistas de Israel, de destruir o Irã como país soberano, dividindo-o em territórios governados por diferentes grupos étnicos, para controlar a produção de petróleo, é antiga. Segundo Michael Hudson, profundo conhecedor da economia política estadunidense, desde os anos 1970, governos dos dois partidos, Democrata e Republicano, apoiaram o exército de Israel com tecnologia e armamentos para usá-lo como tropa de choque contra o Irã. A intenção dos EUA era dominar militarmente o Oriente Médio para abocanhar a renda gerada pela produção de petróleo, isto é, o petrodólar.

    Nos anos 2000, o presidente George Bush II incluiu o Irã no malfadado “Eixo do Mal” ao lado do Iraque e Coreia do Norte. O general Wesley Clark também incluiu o Irã na lista dos 7 países que os EUA deveriam conquistar em 5 anos, começando pelo Iraque, seguido pela Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e terminando com o Irã. Joe Biden afirmou, quando era senador, que “Se Israel não existisse, os Estados Unidos teriam que inventá-lo”, e que o Estado israelense era o melhor investimento do país, afirmação repetida depois, quando presidente.

    + Por dentro do Irã: origens históricas do conflito com os EUA

    Documento publicado em 2009 por pesquisadores afiliados ao Instituto Brookings de Washington, com o título Qual o Caminho para a Pérsia? Opções para uma Nova Estratégia Americana para o Irã, discute com detalhe as opções estratégicas que nortearam os governos dos EUA nas decisões tomadas para derrubar o regime dos Aiatolás, que se consolidou após a revolução iraniana de 1979, após derrotar o regime do Xá Reza Pahlavi, totalmente submisso ao imperialismo dos Estados Unidos.

    Durante o governo Obama, após longas e intensas negociações, foi firmado o Plano de Ação Conjunto Abrangente entre Alemanha, China, Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e Estados Unidos, que diminuiu as tensões entre os Estados Unidos e Irã. Entretanto, o governo Trump 1.0 (2017-2021) renunciou ao acordo e voltou a pressionar, sancionar e ameaçar o Irã militarmente, preparando o terreno para os confrontos militares de 2025 e 2026.

    Se o plano de destruição do Irã existia há tanto tempo, por que só recentemente a agressão militar tornou-se realidade? Embora muitos fatores estejam envolvidos, uma resposta comum para muitos observadores da geopolítica internacional é a combinação da pressão do lobby sionista para derrubar o regime do Irã, tirando proveito da ofensiva de Israel contra os palestinos após o ataque do Hamas em 2023; o uso por Trump da guerra contra o Irã para desviar a atenção do público das denúncias sobre seu envolvimento com a rede pedófila organizada por Epstein; e a derrota do regime de Assad da Síria por terroristas islâmicos da Al Qaeda, que criaram um momento favorável para atacar o Irã.

    Por outro lado, como explicar o fracasso das forças armadas de Israel e Estados Unidos até agora em dobrar a resistência do Irã e seus aliados em uma guerra que já dura mais de um mês? A resposta a esta pergunta exige análise de aspectos geopolíticos, geoeconômicos, ideológicos, estratégia militar, tecnologias empregadas no campo de batalha, entre outros, mas que fogem ao objetivo desta coluna.

    Em resumo, a principal questão da atual conjuntura é a provável derrota do imperialismo americano e a mudança da correlação de forças em favor da aliança Rússia-China-Irã, que são as forças motrizes dos BRICS. A soberania iraniana sobre o Estreito de Ormuz e o comércio de petróleo gerado no Oeste da Ásia reduz significativamente o poder dos Estados Unidos e enfraquece a capacidade dos EUA de combater a China, que é considerada como seu inimigo principal.

    + Veja como resistência do Irã diante dos EUA pode abrir espaço para a China, por Elias Jabbour:

    O desenrolar da guerra está deixando claro que, enquanto a oligarquia e o complexo militar-industrial da inteligência, da mídia, da academia e das ONGs orgânicas do imperialismo – cunhado como MICIMAT (Military Industrial Complex, Intelligence, Media, Academy and Think Tanks) por Ray McGovern, analista da CIA aposentado – fizeram enorme propaganda contra o regime iraniano. O Irã, por sua vez, se preparou por décadas para um enfrentamento de vida ou morte contra o imperialismo dos EUA e as ditaduras monárquicas do Golfo Pérsico, vassalos do capital financeiro sustentado pelo petrodólar. Evidências desta preparação apareceram nos túneis subterrâneos espalhados por todo o país, nos mísseis hipersônicos, nos drones de última geração, na estratégia militar de guerra assimétrica e comando descentralizado, nos acordos de cooperação com a Rússia e a China, além de estruturas políticas resilientes aos assassinatos de líderes e intelectuais ao longo de mais de uma década.

    O impacto da crise de produção do petróleo e seus derivados na economia dos Estados Unidos, particularmente através da alta dos preços do diesel e gasolina, contribuiu para aumentar a insatisfação popular com o governo Trump 2.0 e sem dúvida para as enormes manifestações No Kings 3.

    Dados recentes mostram que no último mês o preço médio da gasolina aumentou mais de 27%, enquanto o diesel aumentou mais de 37% desde 28 de fevereiro. Enquetes sobre o apoio da população à agressão contra o Irã revelam que cerca de 60% eram contra o início de hostilidades, número que cresce à medida que as mentiras publicadas por Trump nas redes sociais são desmascaradas pelos contra-ataques certeiros do Eixo da Resistência.

    + Especial Guerra no Irã, petróleo e crise energética:
    Choque de preços no mercado global
    Energia cara, futuro incerto

    Guerra, economia e erosão do apoio interno

    O comportamento errático do presidente, que muda de opinião diariamente e os objetivos da agressão a cada semana, tem diminuído gradualmente a confiança do povo sobre uma vitória nesse confronto. Se a agressão imperialista já não era popular desde o início, o sonho trumpiano de vitória em poucos dias virou um pesadelo para o governo e, portanto, aumenta o repúdio ao presidente e seu gabinete.

    É bastante provável que os republicanos percam a atual maioria na Câmara e talvez até no Senado, o que significará, na prática, o fim do governo, porque o Executivo não conseguirá aprovar leis que apoiem a agenda MAGA (Make America Great Again). Prevendo tal desdobramento, Trump e seus aliados no Congresso estão buscando manipular as eleições de novembro com manobras legislativas visando dificultar o voto de mulheres, eliminar o voto pelo correio ou impedir que os estados mantenham as regras eleitorais atuais. As manobras estão sendo combatidas com resultados favoráveis e desfavoráveis em diversas frentes, desde o judiciário até as assembleias legislativas; tudo indica que teremos eleições muito disputadas e se avizinham batalhas de grande envergadura entre setores pró e contra o governo nos próximos meses.

    Conforme sugeri em colunas anteriores, as mudanças profundas na geopolítica mundial interagem dialeticamente com a política interna e a correlação de forças dentro do país. O desespero do governo Trump com o declínio do império faz com que tome decisões irracionais e absurdas na política externa, baseadas na arrogância ideológica da oligarquia dominante, que ainda acha que os EUA são o mais poderoso, o mais rico, o mais livre e o melhor país do planeta.

    O impacto dessas decisões interage com a política interna, onde o estelionato eleitoral de Trump se revela dia a dia porque o governo neofascista não cumpre quase nada do que prometeu ao povo dos EUA: gerar bons empregos, reindustrializar o país, fortalecer o dólar, reduzir a inflação e a dívida externa e promover a paz; em vez, gera desemprego, segue desindustrializando o país, enfraquece o dólar, aumenta a inflação e a já impagável dívida e fomenta guerras. Essa lista fica ainda mais complicada para Trump se incluirmos as cada vez mais profundas denúncias sobre mamatas e corrupção da família e aliados com criptomoedas, negócios com companhias de defesa e uso de informação privilegiada para enormes ganhos em Wall Street.

    O acúmulo de ataques do governo neofascista contra a maioria do povo e a reação cada vez mais intensa de amplos setores da população – inclusive de importantes lideranças que apoiaram Trump e a agenda MAGA, como Tucker Carlson, além de parte de sua base –, somados à queda contínua de sua popularidade, indicam que a terceira onda de protestos do movimento No Kings marca o começo do fim do governo Trump 2.0.

    Em outras palavras, o começo do fim do império com a derrota no Oeste da Ásia está associado, como unha e carne, com o fim do governo Trump no front interno. O fracasso das políticas interna e externa expressa a crise estrutural do neoliberalismo na sua versão neofascista. Uma frente antifascista se desenvolveu, ganhou as ruas e veio para ficar!!!

     


    Eduardo Siqueira é professor na Universidade de Massachusetts, Boston, EUA e pesquisador do Observatório Internacional da FMG.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Grabois.