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    Economia

    Transições do mundo do trabalho: desafios e respostas possíveis

    As mudanças tecnológicas, climáticas, demográficas e institucionais reconfiguram o emprego e exigem articulação entre Estado, proteção social e organização sindical

    POR: Clemente Ganz Lúcio

    12 min de leitura

    Linha de produção automatizada com veículo autônomo (AGV) transportando motores, com trabalhadores na área de produção, em ambiente marcado pela presença crescente da automação. Foto: MakoGomez90 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
    Linha de produção automatizada com veículo autônomo (AGV) transportando motores, com trabalhadores na área de produção, em ambiente marcado pela presença crescente da automação. Foto: MakoGomez90 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

    Mundo do trabalho, políticas públicas e negociação coletiva: desafios e respostas  

    O mundo do trabalho passa por transformações profundas, aceleradas e simultâneas. Não se trata apenas de enfrentar problemas conjunturais do emprego, mas de responder a uma reorganização estrutural que envolve produção, tecnologia, demografia, ecologia, geopolítica e instituições.

    Essas transições podem ampliar precariedades, desigualdades e inseguranças, mas também abrem a possibilidade de construir um novo padrão de desenvolvimento, com mais produtividade, proteção social, qualidade do emprego, justiça distributiva e fortalecimento da organização sindical dos trabalhadores.

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    O ponto central é claro: a resposta aos desafios do trabalho no futuro dependerá da capacidade de combinar regulação pública, proteção social, negociação coletiva e organização sindical com ampla base de representação e alta representatividade.

    Onde essa combinação não ocorrer, a tendência será o aprofundamento da fragmentação do trabalho, da desproteção, da concentração dos ganhos e da fragilização das instituições do Estado Democrático de Direito. Onde ocorrer, será possível transformar a mudança tecnológica e a reestruturação produtiva em trabalho decente, inclusão produtiva, redução das desigualdades, desenvolvimento e fortalecimento da democracia.

    Para debater essas transições e os caminhos possíveis, proponho um roteiro dividido em três partes. Nas duas primeiras — “Transições, desafios e respostas possíveis” e “Desafios estruturantes a serem enfrentados de forma transversal” — são apresentados os principais desafios e indicados caminhos no campo das políticas públicas e da negociação coletiva. Na última parte — “Agenda articulada de respostas” — sistematizo proposições que considero úteis para qualificar o debate sobre a organização das relações de trabalho.

    Parte 1 – Transições, desafios e respostas possíveis

    Transição tecnológica e digital

    A difusão da inteligência artificial, da robotização, da automação, da digitalização, da plataformização e da gestão algorítmica está alterando processos produtivos, organização das empresas e corporações, ocupações, qualificações exigidas, tempos e espaços de trabalho. A tecnologia pode elevar a produtividade e criar capacidades econômicas, mas também pode intensificar o controle, fragmentar vínculos, desorganizar profissões e concentrar renda e poder. A seguir, aponto alguns dos desafios colocados e possíveis respostas para enfrentá-los.

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    Desafios principais:
    • A destruição de postos de trabalho e de profissões.
    • A substituição, transformação e criação desigual de ocupações.
    • A polarização do mercado de trabalho, com alta qualificação e salários de um lado e baixa qualificação e salários de outro.
    • A expansão do trabalho por plataformas e de formas híbridas e atípicas de contratação predominantemente precarizadas.
    • A gestão algorítmica e a opacidade decisória.
    • A intensificação do trabalho e a ampliação dos riscos psicossociais, como estresse, ansiedade, solidão e suicídio, além de doenças ocupacionais.
    • A defasagem entre formação profissional e novas exigências produtivas.
    • A exigência de formação contínua e de educação permanentemente atualizada.
    • O individualismo e a quebra dos laços de solidariedade.
    Respostas no campo da política pública de emprego, trabalho e renda:
    • Construir uma política nacional de transição ocupacional, como parte da política pública de trabalho, emprego e renda, com requalificação permanente (que pode ser objeto de contratação coletiva) e apoio à recolocação, transformando um sistema de intermediação de mão de obra em um sistema de inclusão produtiva.
    • Reestruturar e fortalecer o sistema público de emprego, trabalho e renda para desenvolver um programa de proteção dos empregos, captação integrada das vagas ofertadas e intermediação ativa conectada com formação e orientação profissional.
    • Regular o trabalho em plataformas, a subordinação algorítmica, a transparência de critérios e a responsabilidade das empresas, fortalecendo a capacidade de contratação coletiva.
    • Vincular políticas industriais, tecnológicas e de inovação à geração de empregos de qualidade, incluindo a dimensão do trabalho como constitutiva dessas políticas.
    Respostas no campo das políticas sociais e previdenciárias:
    • Adaptar a proteção social a trajetórias laborais mais descontínuas.
    • Ampliar a cobertura previdenciária, universalizando-a para trabalhadores com vínculos instáveis, intermitentes ou por conta própria.
    • Criar mecanismos de proteção à renda em transições ocupacionais mais frequentes.
    • Reforçar a saúde do trabalhador, com ênfase em adoecimento mental, burnout, intensificação digital, depressão, solidão e cuidados.
    Respostas no campo da negociação coletiva:
    • Dar prioridade à pauta sindical em temas como inovação tecnológica, emprego, renda, saúde e regulação.
    • Negociar regras sobre uso de inteligência artificial, monitoramento digital e algoritmos.
    • Pactuar formação continuada custeada ou cofinanciada pelas empresas.
    • Regular o teletrabalho, o direito à desconexão, metas e controle.
    • Definir critérios para realocação, reconversão profissional e compartilhamento dos ganhos de produtividade.

    Transição ecológica e climática

    A crise climática, a descarbonização, a reorganização energética e a necessidade de adaptação ambiental caminham no sentido de reestruturar cadeias produtivas, territórios e ocupações. Isso acarretará destruição de empregos em certos segmentos, expansão em outros e reconfiguração regional da atividade econômica. Um quadro que nos coloca os seguintes desafios:

    Principais desafios:
    • O fechamento, transformação ou reconversão de atividades intensivas em carbono.
    • A emergência de novos empregos verdes e novas qualificações.
    • A vulnerabilidade ocupacional em territórios dependentes de setores em transição.
    • Os impactos climáticos sobre saúde e segurança no trabalho.
    • A necessidade de combinar sustentabilidade ambiental, competitividade produtiva e inclusão social.
    • A necessidade de mitigar impactos e enfrentar tragédias ambientais, que se tornarão mais frequentes e intensas, por meio de políticas públicas estruturadas.
    Respostas no campo da política pública de emprego, trabalho e renda:
    • Construir e implementar, em todas as políticas públicas de desenvolvimento produtivo e socioambiental, uma estratégia nacional de transição justa.
    • Mapear e construir respostas para os setores, territórios e ocupações mais expostos.
    • Criar programas de reconversão produtiva e qualificação para empregos verdes.
    • Integrar política industrial, energética, ambiental e de emprego.
    • Apoiar cadeias de valor associadas à transição energética, mobilidade sustentável, economia circular e adaptação climática.
    Respostas no campo das políticas sociais e previdenciárias:
    • Proteger a renda e as trajetórias dos trabalhadores afetados por fechamento ou reconversão de atividades causados pelos impactos das tragédias climáticas.
    • Reforçar a seguridade em territórios vulneráveis a choques climáticos.
    • Adaptar normas previdenciárias e assistenciais a riscos ocupacionais agravados por calor extremo, eventos climáticos e desastres.
    Respostas no campo da negociação coletiva:
    • Negociar planos setoriais e territoriais de transição justa.
    • Pactuar qualificação, mobilidade ocupacional e compensações.
    • Regular saúde e segurança diante de eventos climáticos extremos.
    • Incluir cláusulas de sustentabilidade produtiva com proteção ao emprego e à renda.

    Transição demográfica e dos cuidados

    O envelhecimento populacional, a mudança na estrutura das famílias, a persistência das desigualdades de gênero e raça e a expansão da economia do cuidado alteram a oferta de trabalho, a demanda por serviços e a sustentabilidade dos sistemas de proteção. É preciso repensar esses temas nos seguintes termos:

    Desafios principais:
    • O envelhecimento da força de trabalho.
    • A maior pressão sobre previdência, saúde e cuidados de longa duração.
    • A necessidade de inclusão produtiva de jovens em empregos de qualidade.
    • A desigual distribuição do trabalho de cuidado, especialmente sobre as mulheres.
    • A persistência de desigualdades raciais, territoriais e de gênero no mercado de trabalho.
    • A relação entre produtividade, envelhecimento e inovação tecnológica como agenda de transição estrutural.
    Respostas no campo da política pública de emprego, trabalho e renda:
    • Desenvolver políticas específicas para a juventude, a transição escola-trabalho e o primeiro emprego de qualidade.
    • Criar estratégias para a permanência ativa e protegida dos trabalhadores mais velhos.
    • Expandir a economia do cuidado como setor gerador de emprego qualificado.
    • Implementar políticas de igualdade salarial, diversidade e combate à discriminação.
    • Reorganizar o tempo e a escala de trabalho ao longo da vida.
    Respostas no campo das políticas sociais e previdenciárias:
    • Reorganizar a proteção social para responder ao envelhecimento e à dependência.
    • Ampliar a oferta pública e comunitária de cuidados.
    • Fortalecer a previdência pública e a cobertura contributiva.
    • Reconhecer desigualdades de gênero e raça nas trajetórias contributivas e no acesso à proteção.
    Respostas no campo da negociação coletiva:
    • Negociar políticas de cuidado, licenças, jornadas e a conciliação entre trabalho e vida.
    • Pactuar medidas de igualdade salarial e ascensão profissional.
    • Criar dispositivos de combate ao assédio, à discriminação e à violência no trabalho.
    • Ajustar jornadas, funções e condições para trabalhadores mais velhos.

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    Transição geopolítica, comercial e produtiva

    A reconfiguração das cadeias globais, os conflitos geopolíticos, o protecionismo, as disputas tecnológicas, a regionalização produtiva, os acordos comerciais e as pressões competitivas redefinem o espaço de políticas industriais e a organização do trabalho. É um contexto que impõe os desafios relacionados a seguir:

    Principais desafios:
    • A vulnerabilidade externa de cadeias estratégicas.
    • O risco de desindustrialização regressiva e reprimarização.
    • A concorrência internacional baseada em baixos custos e desproteção.
    • A necessidade de elevar a produtividade com agregação de valor e inovação.
    • A instabilidade econômica com efeitos sobre emprego, salário e investimento.
    Respostas no campo da política pública de emprego, trabalho e renda:
    • Articular a política de emprego com a política industrial, comercial e tecnológica.
    • Utilizar compras públicas, financiamento e conteúdo local para induzir emprego de qualidade.
    • Fortalecer setores estratégicos com capacidade de gerar trabalho qualificado.
    • Construir instrumentos de antecipação e proteção diante de choques setoriais.
    • Atuar na regulação e no monitoramento dos acordos comerciais.
    Respostas no campo das políticas sociais e previdenciárias:
    • Ampliar a proteção anticíclica em períodos de desaceleração e reestruturação.
    • Garantir renda e cobertura em processos de deslocamento setorial.
    • Utilizar a seguridade como estabilizador social e econômico.
    Respostas no campo da negociação coletiva:
    • Negociar produtividade com distribuição dos ganhos.
    • Pactuar modernização produtiva com proteção do emprego.
    • Fortalecer a negociação setorial para evitar competição predatória baseada no rebaixamento de direitos.
    • Estabelecer mecanismos para mediação rápida de mudanças organizacionais.

    Transição institucional, democrática e regulatória

    O mundo do trabalho atualmente também é afetado pela crise de representação, pelo enfraquecimento das instituições coletivas, pela judicialização excessiva, pela fragmentação sindical, por novas disputas sobre a regulação do trabalho e pelo crescimento da agenda conservadora e da extrema direita. Temos como desafios (e caminhos possíveis):

    Desafios principais:
    • A erosão da capacidade regulatória do Estado em tempo real.
    • A fragilização da representação coletiva em mercados de trabalho fragmentados.
    • A dificuldade de alcançar trabalhadores em novas formas de ocupação.
    • A crescente judicialização em vez de regulação negociada.
    • A necessidade de atualizar instituições sem desmontar a proteção.
    Respostas no campo da política pública de emprego, trabalho e renda:
    • Reconstruir capacidades estatais de inspeção, regulação e mediação.
    • Modernizar o sistema público de emprego e a informação do mercado de trabalho.
    • Fortalecer instâncias tripartites e mecanismos de diálogo social.
    • Atualizar marcos regulatórios para novas realidades produtivas, sem precarizar.
    Respostas no campo das políticas sociais e previdenciárias:
    • Sustentar a universalidade e a solidariedade da proteção social.
    • Impedir que a fragmentação ocupacional se converta em exclusão previdenciária.
    • Integrar melhor assistência, seguro, qualificação e inclusão produtiva.
    Respostas da negociação coletiva:
    • Ampliar a cobertura negocial.
    • Fortalecer sindicatos, especialmente onde o trabalho está mais disperso e precarizado.
    • Inovar em formas de representação de trabalhadores de plataformas, terceirizados e autônomos economicamente dependentes.
    • Recolocar a negociação coletiva como instrumento central de regulação viva das transformações do trabalho.

    Nota da edição – Série (Parte 1 de 3)

    Este artigo integra a série Mundo do trabalho, políticas públicas e negociação coletiva: desafios e respostas, composta por três partes. Na próxima, o autor analisa os desafios estruturais que atravessam essas transformações e condicionam as respostas no campo das políticas públicas e da negociação coletiva.

     


    Clemente Ganz Lúcio é sociólogo, coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, membro do CDESS – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência da República e do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil. Enviado especial para COP-30 sobre Trabalho, coordena o Grupo de Facilitação do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, consultor e ex-diretor técnico do DIEESE (2004/2020).

    *Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pelo autor não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.

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