A efeméride do 25 de abril na Itália, a Força Expedicionária Brasileira e a batalha de Fornovo
A efeméride do 25 de abril, na Itália, celebra a festa nacional da libertação do país do jugo nazista alemão e fascista autóctone, com o consequente retorno à ordem democrática e ao Estado de Direito, após 20 anos de ditadura de Benito Mussolini e de uma desastrosa participação na II Guerra Mundial. No período, grandiosos foram os sacrifícios exigidos e o sofrimento causado ao povo italiano, em grande parte iludido pela propaganda fascista e pela repressão dos governos totalitários.
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Para a libertação do país contribuíram decisivamente as tropas aliadas, dentre as quais perfilou a Força Expedicionária Brasileira (FEB), com relevante contribuição, a partir de 1943. Estes acontecimentos históricos foram relatados em meu livro A Campanha da Força Expedicionária Brasileira para a Libertação da Itália, com edições em português, italiano e inglês, recipiente de medalha da Presidência da República, durante o governo Dilma Rousseff.
A FEB, sob o comando do General Mascarenhas de Moraes, contava com uma divisão composta de 25.334 soldados e 68 enfermeiras. A divisão da FEB era uma das 20 divisões aliadas no teatro de guerra italiano e caracterizada por representantes de todas as etnias e regiões brasileiras, bem como pela ausência de discriminação racial. A Força Aérea Brasileira participou do conflito na Itália com o 1º Grupo de Caça (Senta a Pua), comandado pelo major Nero Moura, e um esquadrão de observação. A Marinha de Guerra do Brasil atuou ativamente no Atlântico, em conjunto com a aviação. No interior, os “soldados da borracha”, recrutas dedicados à produção de borracha, mercadoria estratégica, trabalhavam em condições de alta periculosidade ambiental. Diversas divisões das Forças Armadas brasileiras guarneceram o território nacional.
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No dia 25 de abril de 1945, o Comitê Nacional da Alta Itália (CLNAI) proclamou a insurreição em todo o território ainda ocupado pelas forças nazistas e fascistas. A resistência italiana era composta de diversos setores políticos do país, incluindo socialistas, democratas cristãos e até monarquistas, com a preponderância dos quadros das chamadas Brigadas Garibaldi, do glorioso Partido Comunista Italiano, comandadas por Luigi Longo e Pietro Secchia. A guerra continuava e a FEB, depois de um notável avanço de 209 quilômetros, chegava a Alessandria, no Piemonte, rompendo a Linha Gótica e cercando as forças nazistas alemãs e fascistas italianas em retirada da Ligúria.
Segundo registros oficiais brasileiros, a FEB já integrava elementos da resistência em suas operações, ao contrário das forças estadunidenses e britânicas, que os usavam apenas topicamente, temerosas que os armamentos caíssem em mãos de comunistas. Pois bem, a partir do dia 24 de abril de 1945, as unidades mecanizadas de vanguarda da FEB do Primeiro Pelotão de Reconhecimento Mecanizado, comandado pelo Capitão Plinio Pitaluga, brasileiro de origem lígure, reforçadas por 150 heroicos membros da resistência, entraram em confronto com as forças nazistas do General Otto Fetter Pizo e do infame general fascista italiano Mario Caloni, na localidade de Fornovo. Nos dias que se seguiram, outras unidades da FEB juntaram-se à sua vanguarda, apertando o cerco às forças nazifascistas, naquilo que ficou conhecido na história italiana como a Batalha de Sacca de Fornovo.
Como resultado do embate, no dia 29 de abril de 1945, a FEB acolheu a rendição de 20.573 combatentes nazifascistas, incluindo 2 generais e 892 oficiais, 80 canhões e 5 mil viaturas, um número equivalente ao seu próprio contingente. A Batalha de Fornovo se constituiu na única ocasião do teatro de guerra italiano em que uma inteira divisão alemã se rendia a tropas aliadas em combate. Assim, a efeméride celebrada no dia 25 de abril na Itália é um dia caro também ao povo brasileiro por significar a prevalência dos valores democráticos, do combate ao nazifascismo, da cooperação pela vigência da soberania nacional, do Estado de Direito e de solidariedade bilateral.
Viva o 25 de abril! Viva a democracia!
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Durval de Noronha Goyos Junior é advogado (Brasil, Inglaterra e Portugal). Jurista, árbitro internacional e historiador é autor de A FEB na Itália (medalha da presidência da República); História da Imigração Meridional Italiana; e do Dicionário de Napolitano e Italiano. É conselheiro da Fundação Maurício Grabois.
Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.