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    Socialismo

    China de Mao e o caminho da Ação Popular até o PCdoB

    Antes da incorporação ao Partido Comunista do Brasil, dirigentes da organização encontraram em Pequim referências para estratégia, partido e revolução.

    POR: Ricardo Moreno

    10 min de leitura

    Cartaz produzido na China em 1964 retrata Mao Tsé-Tung ao lado de jovens trabalhadores, estudantes e soldados. A peça de Pang Ka foi publicada pela Shanghai People’s Fine Arts Press. Imagem: Thomas Fisher Rare Book Library/UofT (CC BY 2.0)
    Cartaz produzido na China em 1964 retrata Mao Tsé-Tung ao lado de jovens trabalhadores, estudantes e soldados. A peça de Pang Ka foi publicada pela Shanghai People’s Fine Arts Press. Imagem: Thomas Fisher Rare Book Library/UofT (CC BY 2.0)

    PCdoB e China Socialista – AP: Papel da China na formação teórica e na incorporação ao PCdoB (Parte I)

    Na introdução do livro Naquelas manhãs de segunda: a trajetória de Haroldo Lima – histórias da JUC, da AP e do PCdoB, sugeri um olhar mais atento para a geração que veio da Juventude Universitária Católica (JUC) e, principalmente, da Ação Popular (AP). Isso porque, na ocasião da decisão da incorporação ao PCdoB, a Guerrilha do Araguaia se encontrava em pleno desenvolvimento. O partido se via ferozmente perseguido pelos órgãos de repressão da ditadura militar. Ali, a AP significou não apenas o crescimento numérico de militantes para os comunistas, como também foi fundamental para oxigenar as ideias e ampliar a atuação política.

    O que passamos a observar, a partir de então, foi um partido comunista que não somente sobreviveu àquele momento devastador, mas que também se tornou moderno e mais amplo em sua ação (Pinho, 2023). Parece-me correto sugerir que o caminho percorrido por aqueles jovens seja então entendido como parte, também, da história do PCdoB. Se considerarmos essa premissa como verdadeira, seria justa a reivindicação de que a história da AP seja incorporada como parte da história do PCdoB, algo que este historiador passou a defender.

    + Capítulos da História da Ação Popular, por Augusto Buonicore 

    Quando a AP encontra a Revolução Chinesa

    Proponho então, um adendo à série de artigos apresentados pelo camarada Nilton Vasconcelos, publicados no Portal Grabois, acerca da relação entre o PCdoB e a China socialista. Faz-se necessário trazer à tona, também, a relação entre a Ação Popular (AP) e a China socialista, que marcou profundamente aquela organização, tanto política quanto no seu amadurecimento teórico, e cuja evolução acabou culminando na incorporação ao Partido Comunista do Brasil. Sem isso, a compreensão apresentada por Vasconcelos permaneceria incompleta.

    A história da AP foi logo marcada pelo evento da instalação da ditadura fascista militar, ocorrida logo no ano seguinte ao congresso de fundação da organização. À medida que o golpe militar foi se radicalizando, os militantes da Ação Popular foram levados a aprofundar o processo de estudo. No movimento internacional, havia divergência entre os partidos comunistas da China e da Albânia, além da divergência já conhecida entre China e URSS, o que precisava ser entendido. O desenvolvimento da luta armada nessa fase da AP não tinha um corpo político definido estrategicamente e apresentava uma tendência foquista, com forte influência de Regis Debray e da Revolução Cubana.

    Inicialmente, a AP tomou contato com movimentos revolucionários da América Latina, especialmente, com a experiência fracassada de Che Guevara na Bolívia, e o modelo revolucionário cubano passou a influenciar a organização. Além disso, os militantes da AP receberam ajuda financeira de Cuba, graças ao intermédio de Brizola, com quem Aldo Arantes havia se encontrado no Chile. Foram cinco mil dólares advindos dos cubanos visando à articulação de um movimento de apoio à ação armada pretendida por Brizola.

    Ao lado de Hebert de Souza (o Betinho), Aldo decidiu utilizar esse dinheiro para a reorganização da AP. Posteriormente, a direção da AP recebeu 16 mil dólares destinados ao envio de militantes para serem treinados militarmente na ilha.

    Intercâmbio político e formação revolucionária

    O primeiro contato da AP com os chineses se deu entre sete e 14 de julho de 1963, durante o Seminário dos Estudantes do Mundo Subdesenvolvido, ocorrido em Salvador, poucos meses após o congresso de fundação da organização. O evento que foi promovido pela Federação Mundial da Juventude e pela União Internacional dos Estudantes e patrocinado pela UNE. Além da China e Brasil, havia delegações do Congo, Colômbia, Costa Rica, entre outras. No entendimento de Haroldo Lima, os chineses presentes no encontro valorizavam os feitos da Revolução Cubana, mas apontavam a ausência de uma base científica marxista forte e fizeram o primeiro convite para que os brasileiros da Ação Popular fossem conhecer a experiência do seu país (Santana, 2008).

    Após o golpe de 1964, funcionários chineses membros de uma missão comercial no Brasil foram detidos e receberam apoio da Frente de Mobilização Popular, da qual fazia parte a Ação Popular. Então, os chineses voltaram a convidar a direção da AP para que esta enviasse uma delegação, a fim de realizar uma visita ao país (Dias, 2021).

    No ano seguinte, Vinicius Caldeira Brant, que se encontrava em Paris, fez o primeiro contato em solo chinês, iniciando relações da organização com o PCCh (Santana, 2008). Foi em 1966 que Aldo Arantes esteve na China e de lá trouxe alguns documentos que tratavam de temas como movimento de massas, luta armada, partido, intelectuais, estudantes etc. Eram, na verdade, notas de palestras que presenciou e estavam organizadas em uma pasta, impressas em papel amarelo, por isso, foram chamadas de Documento Amarelo (Arantes, 2013). Estes textos passaram a nortear os estudos teóricos dos militantes da AP.

    Foi então que os jovens da Ação Popular passaram a estudar mais profundamente o marxismo e a falar abertamente sobre socialismo, ruptura com o reformismo e adesão à via revolucionária. A AP iniciava assim uma transição da concepção católica que ainda herdara do passado de Juventude Universitária Católica (JUC), para o marxismo, entendendo que necessitava de uma leitura mais realista para dar respostas às demandas conjunturais (Nolasco, 2016).

    Posteriormente, dois grupos foram enviados para cursos na China. No primeiro, estavam Renato Rabelo, Ronald Freitas, José Novais e Carlos Walter Aumond. O segundo grupo era composto por Euler Ivo, Maria José Jaime, Gabriel, Paulo Wright, Manuel da Conceição, José Barbosa Monteiro (“Leo”), Jairo (“Djalma”), professor Noronha e mais um trabalhador rural de Pernambuco, além de Jair Ferreira de Sá (Arantes, 2013), que posteriormente viria a se tornar o principal líder da AP, por um tempo, mas foi também o responsável pela sua cisão mais significativa.

    Desde 1965, o Comando Nacional da AP editou um conjunto de textos visando ao aprofundamento e formação teórica dos militantes. Foram duas séries intituladas Textos para Debates e Textos para Militantes. As leituras traziam teorias sobre foco revolucionário, de Che Guevara e Régis Debray, mas havia também materiais sobre a Revolução Chinesa, abarcando noções sobre guerra popular e reforma agrária (Dias, 2021). A construção teórica partia dos princípios do materialismo histórico por meio de obras de Marx, Engels, Lênin, Stalin, Althusser, e incluíam também ensinamentos de Mao Tsé-Tung (Mao Zedong, segundo a transliteração contemporânea do mandarim).

    A preparação dos quadros compreendia também treinamento militar, e os que chegaram a ser enviados para a China eram treinados na Academia Militar de Nanquim. Jair Ferreira de Sá e Manoel da Conceição participaram desse curso (Santana, 2008).

    Incorporação da AP e a influência chinesa

    Na evolução do esforço de elaboração, coube ao Jair Ferreira de Sá, após retornar da China, construir um esquema de seis pontos acerca da possibilidade da revolução brasileira, e o apresentou durante a I Reunião Ampliada da Direção Nacional, ocorrida em julho de 1968 (Lima; Arantes, 1984). O esquema de seis pontos consistia em:

    • Etapa atual do desenvolvimento do marxismo, segundo o qual se vivia uma terceira etapa histórica, uma vez que o imperialismo caminharia para a ruína, e o socialismo avançaria em escala mundial. Isso exigia uma nova etapa do marxismo-leninismo, que seria a do pensamento de Mao Tsé-Tung e do enfrentamento ao revisionismo;
    • A sociedade brasileira possuir um caráter semicolonial e semifeudal;
    • Uma revolução do tipo nacional e democrática, que se colocava na ordem do dia;
    • O caminho da revolução ser o da guerra popular, assim, a AP rompia com a possibilidade do foquismo;
    • O PC do Brasil ter sido fundado em 1922, o partido do proletariado que fora vítima do surto revisionista em 1958. Em 1962, foi criado um novo PC do Brasil, mas este não respondia às questões trazidas pela nova realidade política, portanto, seria necessário reconstruir o partido do proletariado, tendo por centro a AP.
    • Reconhecer o caráter pequeno-burguês a maioria dos militantes da AP. Para enfrentar isso, propunha um processo de integração deles na produção.

    A influência do maoísmo nesta fase de amadurecimento teórico da AP também apontava a estratégia a seguir: Baseada na Revolução Chinesa e adotada em outros processos revolucionários, como no caso da FRELIMO, em Moçambique, a guerra popular prolongada consistia na articulação entre o Exército revolucionário e a mobilização popular em uma estratégia de longo prazo. Essa guerra popular se daria a partir das massas camponesas e cercaria as cidades, contando com o apoio político das massas urbanas. Essa noção foi incorporada pela organização, que já possuía inserção política de massas.

    Marcelo Ridenti (2007) faz uma distinção entre o “maoísmo amplo” e o “maoísmo restrito”. Seriam caracterizados como maoísmo amplo os movimentos fortemente apoiados pelo pensamento de Mao Tsé-Tung e pela experiência da Revolução Chinesa, enquanto o maoísmo restrito estaria representado pelos movimentos alinhados à interpretação de que a história entrara numa fase distinta da época do imperialismo, uma terceira etapa na teoria da revolução proletária, que exigiria um partido de tipo novo, marxista-leninista-maoísta. Nesta fase de seu desenvolvimento, a Ação Popular tendia a se enquadrar como uma organização do maoísmo restrito, segundo a classificação proposta por Ridenti.

    + Leia o especial: O PC do Brasil e a China Socialista

    Referências

    ARANTES, Aldo. Alma em Fogo – Memorias de um militante político. São Paulo: Ed. Anita Garibaldi, 2013.

    DIAS, Reginaldo Benedito. História da AP: Estudos sobre as disputas pelos sentidos da história da Ação Popular (AP). São Paulo: Alameda, 2021.

    LIMA, Haroldo; ARANTES, Aldo. História da Ação Popular – da JUC ao PCdoB. São Paulo: Editora Alfa Ômega, 1984.

    NOLASCO, Vital. Vital Nolasco – Vale a pena lutar: minha vida na Ação Popular (AP) e no Partido Comunista do Brasil (PCdoB). São Paulo: Fundação Mauricio Grabois/Editora Anita Garibaldi, 2016.

    PINHO, José Ricardo Moreno. Naquelas Manhãs de Segunda: a trajetória de Haroldo Lima – histórias da JUC, da AP e do PCdoB. São Paulo: Anita Garibaldi, 2023.

    RIDENTI, Marcelo. Ação Popular: cristianismo e marxismo. In MORAES, João Quartim de; REIS, Daniel Aarão (Orgs.). História do marxismo no Brasil. São Paulo: Editora Unicamp, 2007. v. 5, p. 227-302.

    SANTANA, Cristiane Soares. Maoísmo na Bahia (1967-1970). Dissertação de Mestrado. FFCH – Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado da Bahia, 2008.


    José Ricardo Moreno Pinho é doutor em História (UFF), professor na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e membro do CR do PCdoB da Bahia.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião da Fundação Maurício Grabois.

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