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    Cultura

    Documentário sobre médico da Guerrilha do Araguaia estreia na TV Grabois; assista

    Dirigido por Edson Cabral, Doutor Araguaia percorreu cidades brasileiras e Portugal antes de chegar ao YouTube, onde agora apresenta ao público, na íntegra, a trajetória de João Carlos Haas Sobrinho

    POR: Leandro Melito

    9 min de leitura

    Cartaz do documentário "Doutor Araguaia". Imagem: Divulgação / TG Economia Criativa
    Cartaz do documentário "Doutor Araguaia". Imagem: Divulgação / TG Economia Criativa

    O documentário Doutor Araguaia (2024), dirigido por Edson Cabral, já está disponível na íntegra no canal da TV Grabois no YouTube, a partir desta terça-feira (19). Lançado em 2024, o filme percorreu diversas capitais brasileiras e teve exibições em Portugal antes de chegar à plataforma. Produzida de forma independente pela TG Economia Criativa, a obra reconstrói a trajetória do médico gaúcho João Carlos Haas Sobrinho (1941–1972), militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) morto pelo Estado brasileiro em 30 de setembro de 1972, durante a Guerrilha do Araguaia.

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    “O documentário foi concebido sem viés comercial e não pretendemos utilizar distribuidoras de cinema. Nosso foco é expandir o número de espectadores para que conheçam a história de João Carlos, conhecido como Dr. Juca. Queremos destacar sua atuação como o primeiro médico da região do Bico do Papagaio, seu trabalho solidário e seu compromisso em transformar o território da guerrilha em um espaço livre da ditadura militar”, destaca Edson Cabral em entrevista ao Portal Grabois (leia a entrevista completa com o diretor ao final desta publicação).

    Assista ao documentário Doutor Araguaia: a história de João Carlos Haas Sobrinho na íntegra:

    Sinopse

    João Carlos Haas Sobrinho, natural de São Leopoldo (RS), brilhante estudante de Medicina e de sólida formação jesuíta, foi preso em 1964 pela ditadura militar. Após concluir o curso, alinhou-se à filosofia do PCdoB e, com forte espírito de liderança, tornou-se médico pioneiro em Porto Franco (MA), em 1967. Salvou centenas de vidas e tornou-se querido pelos camponeses que viviam sob o regime de exceção. Sua luta era pela democracia e pela justiça social. Em 30 de setembro de 1972, João Carlos foi morto por militares durante a Guerrilha do Araguaia. Seu corpo nunca foi encontrado. A história do dr. Juca é reconstruída por meio dos relatos de pessoas que conviveram com ele e foram marcadas por sua dedicação e humanidade.

    Playlist Memória Comunista

    A disponibilização do documentário na TV Grabois faz parte de uma iniciativa do canal de promover conteúdos audiovisuais dedicados à memória do movimento comunista internacional, disponibilizados na playlist Memória Comunista. Inaugurada com um vídeo do Desfile da Vitória em Moscou no dia 24 de junho de 1945, após o Exército Vermelho da antiga União Soviética ter derrotado os nazistas na Segunda Guerra Mundial, a playlist traz vídeos em homenagem aos comunistas brasileiros João Amazonas e Osvaldo Orlando da Costa, conhecido como Osvaldão, e continuará trazendo documentos audiovisuais históricos quinzenalmente.

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    Parte dos vídeos no canal integram o acervo do Centro de Documentação e Memória (CDM) da Grabois. Além da disponibilização do documentário, que permanecerá em exibição permanente no canal do YouTube, Edson Cabral também informou que irá ceder ao CDM o material bruto das filmagens.

    “No filme, o público verá algumas falas curtas, com poucos minutos, como a de Zézinho do Araguaia, mas as gravações originais superam uma hora de duração. Há também depoimentos belíssimos de comunidades rurais da região do Rio Araguaia, com duração entre 40 minutos e uma hora. Nosso intuito é ceder esse acervo bruto para que a Fundação possa utilizá-lo, solicitando apenas o crédito para a equipe de produção da TG Economia Criativa. O objetivo é tornar João Carlos uma figura conhecida nacionalmente por seu caráter humanitário, expandindo esse reconhecimento para além dos círculos democráticos e progressistas. Minha intenção é realizar a entrega formal em Brasília, durante uma audiência com a ministra Luciana Santos”, conta Edson Cabral.

    Filmagem do documentário “Doutor Araguaia”. Foto: Divulgação

    Leia a entrevista com Edson Cabral

    Portal Grabois: O documentário Doutor Araguaia está sendo disponibilizado no YouTube da TV Grabois. Como foi o processo de produção desse documentário?

    Edson Cabral: Esse projeto surgiu de uma série de circunstâncias. Conheci a Sonia Haas por meio de um amigo, Odilon Camargo, com quem eu já havia trabalhado e que é esposo dela. Em conversas sobre nossas trajetórias de luta em defesa da democracia, encontramos um ponto em comum: a Guerrilha do Araguaia. Como moro no Tocantins, tenho uma longa história de pesquisa e acompanhamento sobre esse tema. Descobri que a Sonia é irmã de João Carlos Haas Sobrinho, conhecido na guerrilha como Dr. Juca. Também soube que alguns amigos e colegas meus foram pacientes dele quando ele morou na cidade de Porto Franco (TO).

    A partir daí, começamos a organizar o documentário com uma série de entrevistas. A Sonia tinha muita vontade de realizar esse projeto devido à história do irmão, cujas informações ela buscou durante toda a vida após saber de sua morte na guerrilha. Entrevistei pessoas na Fundação Maurício Grabois, fui a São Paulo gravar com o José Genuíno e a Criméia Almeida e depois gravamos na região de Porto Franco e em São Geraldo, no Pará, local onde ocorreu a guerrilha. Juntamos os materiais e o projeto foi contemplado pela Lei Paulo Gustavo no Estado do Tocantins. Iniciamos o trabalho de montagem e edição, e o documentário ficou pronto no final de 2024, sendo lançado em São Leopoldo (RS), cidade natal de João Carlos.

    Qual foi a trajetória de exibições após o lançamento?

    Após ser finalizado em 2023 e lançado em 2024, realizamos exibições em diversas cidades brasileiras durante 2024 e 2025, incluindo Brasília, São Paulo, Salvador, Goiânia, São Luís e Porto Alegre. Também participamos da Bienal da ONU em 2025 e do festival Avante em Lisboa, Portugal. No ano passado, também apresentamos uma versão curta no Congresso do PCdoB. Nossa intenção agora é abrir o filme ao público pelo canal da TV Grabois no YouTube, visando alcançar o maior número possível de pessoas. Além disso, estamos em diálogo para exibições em emissoras públicas, como a TV Senado e a TV Brasil (EBC).

    Atualmente, o projeto possui três formatos adaptados para diferentes espaços: o longa-metragem para televisão, um curta de 30 minutos e uma apresentação de 15 minutos para seminários e cineclubes. O documentário foi concebido sem viés comercial e não pretendemos utilizar distribuidoras de cinema. Nosso foco é expandir o número de espectadores para que conheçam a história de João Carlos, conhecido como Dr. Juca. Queremos destacar sua atuação como o primeiro médico da região do Bico do Papagaio, seu trabalho solidário e seu compromisso em transformar o território da guerrilha em um espaço livre da ditadura militar.

    Você mencionou o período em que o documentário foi produzido e, de forma geral, temos observado um contexto no cinema brasileiro que aborda justamente o período da ditadura, alcançando projeção internacional na disputa pelo Oscar. Nota-se um renovado aumento de interesse por esse tema.

    Costumo brincar que utilizamos a mesma base de pesquisa de obras como Ainda Estou Aqui: os relatórios da Comissão da Verdade. A partir da disponibilização desses documentos, foi possível traçar a trajetória de João Carlos: ele saiu de São Leopoldo e informou à família que faria uma especialização em São Paulo, mas seguiu para a China, onde recebeu treinamento para guerrilhas de longa duração. Ao retornar ao Brasil, precisou despistar o regime ditatorial que o perseguia.

    O filme apresenta dois olhares, sendo uma história de amor e uma de dor: no documentário, buscamos valorizar o amor e a dedicação de João Carlos à causa e aos seus pacientes. A obra inclui depoimentos de pacientes e de pessoas que conviveram com ele, como estudantes de medicina e universitários de Porto Alegre que participaram da luta contra a ditadura. Em 1964, quando foi preso pelo golpe militar, ele era presidente da Federação Gaúcha de Estudantes Universitários.

    O cinema brasileiro tem aproveitado a disponibilidade dessas histórias para promover uma reflexão sobre o presente, especialmente em um momento em que ainda existem defesas de regimes autoritários e pedidos cínicos de intervenção no Estado. Por isso, o interesse por esse tipo de filme tem crescido. Nosso documentário é uma produção independente que visa tornar essa história pública com o objetivo de ressignificar a trajetória de João Carlos. Pelos relatórios e documentos dos militares, João Carlos era tratado como uma figura subversiva que prejudicaria o projeto de país defendido por eles. Na realidade, ele foi um médico pioneiro e, praticamente, um precursor do Sistema Único de Saúde (SUS) que temos hoje. Gostaria também de destacar o trabalho de Alessandra Estrop na edição do filme. Ela é ligada à UJS [União da Juventude Socialista] e foi fundamental na captação e montagem desse filme.

    Além do documentário, você também vai disponibilizar o material bruto das filmagens para o Centro de Documentação e Memória da Grabois. Conte um pouco sobre esse processo.

    Vou agendar a entrega do material bruto de todas as entrevistas para a Fundação Maurício Grabois. No filme, o público verá algumas falas curtas, com poucos minutos, como a de Zézinho do Araguaia, mas as gravações originais superam uma hora de duração. Há também depoimentos belíssimos de comunidades rurais da região do Rio Araguaia com duração entre 40 minutos e uma hora. Nosso intuito é ceder esse acervo bruto para que a Fundação possa utilizá-lo, solicitando apenas o crédito para a equipe de produção da TG Economia Criativa. O objetivo é tornar João Carlos uma figura conhecida nacionalmente por seu caráter humanitário, expandindo esse reconhecimento para além dos círculos democráticos e progressistas. Minha intenção é realizar a entrega formal em Brasília, durante uma audiência com a ministra Luciana Santos.

    Assista a íntegra do documentário ‘Dr. Araguaia’

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