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    Cultura

    Almas Mortas: de Gógol a Flávio Bolsonaro

    Romance russo do século XIX serve de ponto de partida para discutir apagamento, responsabilidade pública e o tratamento das vítimas em tragédias coletivas

    POR: Táki Cordás

    5 min de leitura

    Senador Flávio Bolsonaro  na CPI da Pandemia, comissão que investigou ações e omissões do governo Bolsonaro na gestão da crise sanitária. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado.
    Senador Flávio Bolsonaro na CPI da Pandemia, comissão que investigou ações e omissões do governo Bolsonaro na gestão da crise sanitária. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado.

    Nikolai Gógol foi um dos grandes escritores da literatura russa do século XIX, e também um dos mais estranhos, mais cômicos e mais perturbadores. Nascido em 1809, ele escreveu contos, peças e romances que parecem, à primeira vista, engraçados, quase caricaturais.

    Mas, por trás do riso, há sempre uma deformação moral do mundo. Em Gógol, o absurdo não é apenas fantasia: é uma forma de revelar a verdade. Basta lembrar de O Capote (1842), conto em que um funcionário insignificante se agarra a uma peça de roupa como se ela fosse sua última possibilidade de dignidade; ou de O Inspetor Geral (1836), peça em que uma cidade inteira, tomada pela corrupção e pelo medo, confunde um homem qualquer com uma autoridade enviada pelo governo. Gógol é mestre em mostrar sociedades doentes por meio do ridículo. Ele faz rir — mas o riso, nele, quase sempre deixa um gosto amargo.

    É nesse universo que aparece Almas Mortas (1842), uma de suas obras mais importantes. O enredo é aparentemente absurdo: Tchítchikov, um homem ambicioso e calculista, percorre a Rússia comprando de proprietários rurais os nomes de servos que já morreram, mas que ainda aparecem vivos nos registros oficiais. Como o Estado fazia seus controles de tempos em tempos, esses mortos continuavam existindo nos papéis — e, por isso, ainda podiam ter valor econômico.

    A ideia é grotesca: mortos transformados em patrimônio, cadáveres administrativos, vidas extintas que continuam circulando como números e oportunidade de lucro. Gógol percebe que uma sociedade corrompida não precisa apenas explorar os vivos. Ela pode continuar explorando os mortos — desde que isso apareça com aparência de legalidade, registro, cálculo, contabilidade.
    Em Almas Mortas, Gógol mostra mortos que ainda valem dinheiro porque continuam existindo nos documentos. É grotesco, é absurdo, é cômico — mas também é uma denúncia moral. Hoje, talvez a operação seja outra: não manter os mortos nos papéis, mas tirá-los da memória.

    Apagar o nome, reduzir a história a número, transformar a morte em ruído estatístico. Fazer com que ninguém pergunte demais. Porque, quando os mortos são lembrados, eles incomodam. Eles pedem explicação. Eles atravessam os discursos oficiais. Eles interrompem a contabilidade.

    Em tempos de grandes tragédias coletivas, como a pandemia de Covid-19, há mortos que se tornam politicamente inconvenientes. Não porque já não existam, mas justamente porque existiram. Porque tiveram nome, casa, família, voz, medo, espera, hospital, despedida ou ausência de despedida. Cada vida lembrada impede que a tragédia seja convertida apenas em gráfico, relatório, justificativa ou esquecimento conveniente.

    E é aí que a imagem de Gógol se torna assustadoramente atual. Em seu romance, os mortos ainda rendiam porque permaneciam nos registros. No nosso tempo, com os Bolsonaros, os mortos precisam desaparecer dos registros simbólicos para que certos poderes continuem funcionando sem perturbação.

    Não se lucra com a presença burocrática dos mortos como em Gógol; lucra-se com o apagamento deles. Bolsonaros, do mais culpado ao mais bisonho (igualmente culpado), exploram os mortos justamente calando-os. A direita bolsonarista cala seus nomes, suas histórias, suas circunstâncias.

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    Calam as perguntas que eles deixariam: quem sabia? quem negou? quem se omitiu? quem preferiu proteger interesses, negócios, alianças ou imagens públicas? quem transformou a morte dos outros em custo operacional?

    Essa é a nova forma das almas mortas: pessoas que morreram duas vezes: uma pela doença, pela negligência, pela tragédia; e outra quando sua memória foi apagada para que o dinheiro continuasse circulando. Gógol nos ensinou que o grotesco não está apenas no absurdo literário, está também na normalidade administrativa e burocrática com que uma sociedade aceita o inaceitável pelo lucro.

    O horror, muitas vezes, não grita. Ele assina papéis, organiza planilhas, corrige discursos, suaviza estatísticas, troca palavras, adia responsabilidades, critica o orçamento para a saúde e a educação.

    Por isso, lembrar os mortos não é apenas um gesto sentimental. É um gesto político, ético e civilizatório. Nomear os mortos é impedir que eles sejam convertidos em resíduo. É devolver à história aquilo que a conveniência tenta apagar. Há mortos que assustam menos pelo que foram do que pelo que ainda poderiam revelar.

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    Táki Athanássios Cordás é coordenador da Equipe Multiprofissional de Assistência do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP. Coordenador do Programa de Transtornos Alimentares (AMBULIM) do IPQ-HCFMUSP. Prof. dos Programas de Pós-Graduação do Departamento de Psiquiatria da USP, do Programa de Neurociências e Comportamento do Instituto de Psicologia da USP e do Programa de Fisiopatologia Experimental da FMUSP. Pós-Graduação (lato sensu) em Filosofia (PUC-RS).

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.

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