PCdoB e China Socialista – AP: Papel da China na formação teórica e na incorporação ao PCdoB (Parte II)
Nos anos finais da década de sessenta, a Ação Popular (AP) aprofundou ainda mais a influência do maoísmo, ao passo que o Partido Comunista do Brasil assumiu a estratégia da guerra popular prolongada. Estas visões aproximaram as duas organizações, que iniciaram processo de diálogo. No entanto, uma guinada na opinião dos comunistas deu-se no início da década de setenta, especialmente com a ascensão de Deng Xiaoping e o início das relações diplomáticas entre China e Estados Unidos. Mas os avanços que levaram à incorporação da AP ao PCdoB já se faziam irreversíveis, e a decisão final acabou sendo antecipada devido aos acontecimentos no Araguaia.
Integração na produção e transformação dos quadros
O processo de integração na produção, que começou em 1967, em São Paulo e na Bahia, só foi ratificado em 1968. A diretriz era ampliar a ligação com as massas com o objetivo de transformar a AP, entendida até então como de caráter pequeno-burguês, em uma organização proletária, consolidando assim a sua transformação ideológica. Com a adesão ao pensamento de Mao Tsé-Tung (Mao Zedong, segundo a transliteração contemporânea do mandarim), a prática passou a ser entendida como uma ampliação das frentes de trabalho do partido no seio do proletariado e do campesinato (Santana, 2008).
Na concepção de Mao Tsé-Tung, os quadros deveriam periodicamente se integrar na produção para evitar a burocratização, acomodação e condições de vida muito diferenciadas das massas. A diretiva visava inserir o militante pequeno-burguês no meio operário e camponês para que vivesse e aprendesse os problemas concretos das classes exploradas e, dessa forma, ir transformando-se ideologicamente. Do ponto de vista maoísta, esta atitude fazia parte da construção do homem novo (Oliveira Junior, 2000).
Vários dirigentes da AP, fossem eles professores, jornalistas, estudantes ou profissionais liberais, foram deslocados para áreas camponesas ou operárias. Vinte e três frentes de trabalho foram criadas, sendo dezesseis no campo e sete operárias, distribuídas em oito áreas geográficas (Pará, Maranhão, Bahia e Sergipe, além de outras áreas do nordeste, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Goiás). Ao todo, foram 120 pessoas envolvidas: 90 se dirigiram ao campo, integrando-se à produção agrícola, e as outras trinta à produção fabril (Lima; Arantes, 1984).
O processo de integração da produção também trouxe inúmeros prejuízos à organização. As dificuldades financeiras passaram a ser enormes, uma vez que a arrecadação dos militantes despencara, ao mesmo passo em que os custos aumentavam significativamente. Tinha-se que manter os “aparelhos”, os militantes profissionalizados, além de despesas com deslocamentos, alimentação, material de propaganda, armas etc. O constante deslocamento de militantes urbanos para o campo e a redução da capacidade de contribuição desses afetaram as finanças (Lima; Arantes, 1984).
Muitos militantes doaram seus bens pessoais para manter a estrutura da AP. Aldo Arantes vendeu a própria casa, já outros venderam terrenos, joias etc. Também passaram a ocorrer dificuldades organizativas, pois os dirigentes nacionais não conseguiam equacionar viagens e reuniões com o cotidiano de fábrica (Dias, 2021).
Ao diferenciar de como o maoísmo foi encarado pelo PCdoB e pela AP, tem-se que a aproximação do Partido Comunista do Brasil com o maoísmo veio de uma identidade histórica comum, ancorada no marxismo-leninismo-stalinismo, ao passo que a prevalência do maoísmo na AP ligou-se essencialmente: primeiro, ao embate entre os adeptos do exemplo cubano de revolução e os defensores da guerra popular prolongada; depois, à afinidade dessa organização com a revolução cultural proletária (Ridenti, 2007).
Motta (2023) mostra que inicialmente o PCdoB assumiu a defesa da Revolução Cultural Chinesa, e, em 1968, começou a intensificar em seus documentos a defesa da estratégia da guerra popular prolongada, que teve como referência para sua legitimação os ensinamentos militares de Mao Tsé-Tung. No final dos anos 1960, o PCdoB se firmou como a organização legítima para adotar a linha política e teórica do Partido Comunista da Chinha (PCCh), o que não ocorreu com as organizações oriundas dele, como o PCR e a Ala Vermelha.
No caso da AP, houve outro significado, já que o PCCh, ao mesmo tempo que via o PCdoB como um partido “irmão”, reconhecia a AP não como um partido comunista, mas sim uma organização anti-imperialista. Contudo, o PCCh procurou facilitar o entendimento entre as duas organizações.
A aproximação entre AP e PCdoB
Em meados de 1969, a AP e o PCdoB deliberaram realizar a primeira reunião conjunta de representantes das duas organizações para discutir a conjuntura política e tratar da questão do partido no Brasil. Ambas as estruturas planejavam suas ações revolucionárias, mas desconheciam os planos uma da outra. A influência chinesa também aproximou a AP do PCdoB. Segundo Haroldo Lima, os chineses fizeram isso de maneira informal, respeitando a independência de cada estrutura. Eles não viam sentido na existência de duas organizações cujas posições eram cada vez mais confluentes (Pinho, 2023).
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No entanto, havia divergências. O PCdoB, a despeito de incorporar as teses de Mao Tsé-Tung, não somente resistia a ser chamado de maoísta, como também iniciava um período de divergência com a formulação dos chineses:
“Um dos primeiros documentos que abriram divergência entre o PCdoB e o PCCh foi o texto Atualidade do Pensamento de Lênin, de autoria de João Amazonas e Maurício Grabois, publicado em A Classe Operária. O texto criticava formulações aprovadas no IX Congresso do PCCh, em 1969, particularmente a tentativa de apresentar o pensamento de Mao Zedong como uma terceira etapa do marxismo, em substituição a Lênin” (Vasconcelos, 2026).
Ao longo dos anos 1970, novos elementos agravaram as divergências do PCdoB com os chineses, especialmente com a ascensão de Deng Xiaoping e a aproximação da China com os Estados Unidos. Em 1973, no documento Acerca da Luta Anti-imperialista, os comunistas do Brasil se opunham à Teoria dos Três Mundos e, mais tarde, em 1977, passaria a se referir abertamente ao revisionismo chinês (Vasconcelos, 2026).
O debate sobre partido e incorporação
Com relação à proposta de partido “novo”, esse foi um dos aspectos mais debatidos no interior da Ação Popular. Os argumentos eram de que o Partido Comunista do Brasil houvera sido criado em 1962, um ano antes da fundação da AP, algo que o PCdoB refutara, reivindicando a sua formação em 1922, e, posteriormente, reorganizado.
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Em 1970, Jair Ferreira de Sá foi novamente destacado para ir à China comunicar a nova situação da AP. Em outubro daquele ano, durante a oitava reunião da Comissão Executiva Provisória, Duarte Pereira afirmou que era insustentável que a AP fosse o polo principal da construção do partido, tese que até então prevalecia dentro da organização, e que a unificação das forças proletárias deveria ocorrer tomando-se por base o Partido Comunista do Brasil.
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A Terceira Reunião Ampliada da Direção Nacional da AP ocorreu em março de 1971, em Águas de São Pedro (SP). Discutiu-se um anteprojeto para o Programa Básico, estatutos da organização e eleição do Comitê Central.
O Programa Básico defendia o materialismo histórico-dialético, o internacionalismo proletário e a violência revolucionária para fazer avançar a luta popular. O caminho para a revolução seria o da guerra popular, mas sem incorporar a ideia do cerco da cidade pelo campo, como se fez na China. Tratava-se na verdade de articular essas duas frentes de luta. Fez-se a defesa de Stalin como continuador da obra de Lênin na construção do socialismo. Criticou-se o revisionismo de Khrushchov e o eurocomunismo como sendo uma doutrina essencialmente burguesa que levara os antigos partidos comunistas ao caminho da social-democracia. Foi aprovada também a mudança do nome para Ação Popular Marxista-Leninista (APML) (Lima; Arantes, 1984).
O debate da incorporação ao PCdoB se desenvolveu durante três anos, período em que vários percalços e divergências internas existiram. Mesmo reconhecendo que o PCdoB era o partido marxista-leninista reorganizado em 1962, ainda havia por parte de Jair Ferreira de Sá e Paulo Wright a posição segundo a qual era necessária a construção de algo inteiramente novo: um partido marxista-leninista-maoísta, revelando ainda uma forte influência da concepção chinesa por parte de alguns dirigentes. No Bureau político reunido após a III Reunião Ampliada, em 1971, Duarte Pereira passou a defender diretamente a unificação da AP com o PCdoB (Lima; Arantes, 1984). Aldo, Renato e Haroldo se manifestaram a favor, e Paulo Wright e Jair Ferreira de Sá se mantiveram contrários.
Como a posição da maioria prevaleceu, a evolução do debate interno dentro da AP evoluiu para aprovação da incorporação ao PCdoB. A superação das teses maoístas foi fundamental para pavimentar o caminho, que foi na verdade antecipado após o conhecimento da existência do enfrentamento armado que os comunistas estavam travando na região do Araguaia.
Tem-se então que a aproximação da Ação Popular com a China jogou um grande papel no processo de amadurecimento daquela organização, que migrou de uma linha pequeno-burguesa, influenciado por ideias oriundas do passado de Juventude Universitária Católica, para uma compreensão do marxismo, leninismo, que em certo momento foi também mediado pelo maoísmo. Além disso, os chineses contribuíram, mesmo que discretamente, para a aproximação entre AP e o PCdoB. Ainda que, no momento mais avançado deste diálogo os comunistas do Brasil tenham iniciado seu afastamento das concepções chinesas, a construção da incorporação foi vista como algo positivo pelo PCCh. O retorno das relações entre o PCdoB e o regime chinês voltou a acontecer anos depois, em outro momento, e alguns ex-integrantes da AP, como Haroldo Lima e Renato Rabelo, viriam a ter papel de destaque nessa nova construção.
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Referências
DIAS, Reginaldo Benedito. História da AP: Estudos sobre as disputas pelos sentidos da história da Ação Popular (AP). São Paulo: Alameda, 2021.
LIMA, Haroldo; ARANTES, Aldo. História da ação Popular – da JUC ao PCdoB. São Paulo: Editora Alfa Ômega, 1984.
MOTTA, Luiz Eduardo. PC do B, China e maoismo – continuidade e ruptura. In: Entropia, Rio de Janeiro (Vol. 7), N°13. Jan/Jun, 2023, p. 252-282.
OLIVEIRA JR, Franklin. Paixão e revolução: capítulos dobre a história da AP. DH-UFPE, Recife. Tese de Doutorado, 2000.
PINHO, José Ricardo Moreno. Naquelas manhãs de segunda. A trajetória de Haroldo Lima – Histórias da JUC, da AP e do PCdoB. São Paulo: Anita Garibaldi, 2023.
RIDENTI, Marcelo. Ação Popular: cristianismo e marxismo. In MORAES, João Quartim de; REIS, Daniel Aarão (Orgs.). História do marxismo no Brasil. São Paulo: Editora Unicamp, 2007. v. 5, p. 227-302.
SANTANA, Cristiane Soares. Maoísmo na Bahia (1967-1970). Dissertação de Mestrado. FFCH – Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado da Bahia, 2008.
VASCONCELOS, Nilton. PCdoB e China socialista: divergências ideológicas no movimento comunista internacional. Portal Grabois, 26 jan. 2026.
José Ricardo Moreno Pinho é doutor em História (UFF), professor na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e membro do CR do PCdoB da Bahia.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião da Fundação Maurício Grabois.