O governo de Donald Trump acusou o Pix de ser uma prática comercial desleal para justificar uma possível nova tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos. O relatório da investigação realizada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) que sugere o tarifaço cita 20 vezes o sistema de pagamentos instantâneos criado e operado pelo Banco Central do Brasil.
+ Por que Trump está de olho no Pix e nas finanças digitais do Brasil
Para o sociólogo e professor da UFABC, Sérgio Amadeu, a irritação de Donald Trump está relacionada ao fato de o Pix ter barrado a tentativa do grupo Meta — grupo proprietário do Instagram, Facebook e WhatsApp — de dominar os meios de pagamento no Brasil por meio do WhatsApp Pay, ferramenta utilizada por 96% dos brasileiros que possuem celular. “O Trump está nervozinho com o Pix, não é por causa de cartão de crédito, é por causa do WhatsApp”, destacou Amadeu.
“No Brasil, pra gente desenvolver qualquer uma das nossas habilidades, tivemos que transformar essa tentativa de desenvolvimento em uma campanha política. Foi assim com a Petrobras. Para provar que a gente podia extrair petróleo, tivemos que ter uma campanha política. Hoje a campanha não será pelo petróleo, mas contra o tecnofascismo. A campanha é contra as Big Techs, contra a campanha majoritária do centrão e da extrema-direita, que fará tudo para evitar que tenhamos uma política soberana de rompimento com essa tecnodependência e de uma estratégia de país”, analisou o sociólogo.
Ele considera que a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), Lei nº 13.709/2018, baseada no modelo europeu, não é suficiente para garantir uma soberania de dados ao Brasil e defende a adoção de uma política, a exemplo do que foi feito em relação à Petrobras, citando o Pix como um exemplo de estratégia soberana. “É uma aplicação de uma tecnologia em rede que barrou o que era a faca e o queijo na mão do grupo Meta. É uma decisão estratégica múltipla, tecnológica, econômica, de meios de pagamento”, enfatizou.
A fala de Sérgio Amadeu aconteceu durante a mesa de abertura do Seminário Capitalismo no Brasil Contemporâneo, realizado pela Fundação Maurício Grabois na segunda-feira (1) com o tema Transformações no Capitalismo: a questão tecnológica e digital.
A preocupação central apresentada pelo sociólogo é o “extrativismo de dados” realizado pelos Estados Unidos por meio das Big Techs. “Não é por menos que o secretário de Estado, Marco Rubio, diz que é preciso combater a soberania de dados em todo o mundo e mandou um telegrama para toda a diplomacia americana. Eles não podem perder essa extração de dados, isso é a matéria-prima, o insumo fundamental”, apontou.
Inteligência Artificial
Amadeu considera que o Estado brasileiro, as principais universidades públicas e o sistema judiciário entregam seus dados gratuitamente para as Big Techs, permitindo que elas alimentem seus modelos de IA e consolidem seu poder. O sociólogo considera que Inteligência Artificial é um termo exagerado e considera mais correto utilizar a nomenclatura IA “realmente existente”, a partir do entendimento de que ela não é uma inteligência autônoma, mas uma linha de montagem de funções cognitivas automatizadas.
“A IA está produzindo uma enorme concentração de capital e não uma dispersão. Os ganhos são apropriados por poucas corporações, a produtividade social não cresce na mesma velocidade que o investimento e ocorre uma financeirização muito grande das expectativas de futuro”, aponta Amadeu. “Estamos em um momento em que o capitalismo é altamente concentrado. Os dados junto com o algoritmo se tornam capital e nós precisamos, portanto, organizar o pensamento em torno de uma economia dataficada”, defende.
Célio Hirutaka, diretor do Instituto de Economia da Unicamp, aponta que a adoção de tecnologias de IA no Brasil está concentrada em grandes empresas e voltada majoritariamente para áreas administrativas e comerciais, e não para a produção fabril. “Quem tem condição de se apropriar dessas tecnologias no momento atual são as grandes corporações, o que aumenta a distância entre elas e as médias e pequenas empresas, aprofundando a nossa heterogeneidade estrutural”, alerta.
Para o economista, sem uma estratégia nacional capaz de reduzir essas assimetrias e promover a soberania digital, “corremos o risco de aumentar a distância tecnológica em relação aos líderes globais, tornando nosso tecido produtivo ainda mais fragmentado”.
Leia na Revista Princípios:
+ Inteligência artificial e novas tecnologias disruptivas
+ Uma visão crítica sobre o “admirável mundo novo” da inteligência artificial
Com base nesse diagnóstico, ele propõe que as políticas públicas e programas de apoio precisam ser estruturados para que não cheguem somente às empresas tecnologicamente mais avançadas, ampliando dessa forma a heterogeneidade estrutural, mas devem se mostrar “suficientemente flexíveis para fomentar as empresas que se encontram em diferentes estágios de desenvolvimento”.
Neste sentido, Hirutaka considera que o desenho das políticas industriais e de Ciência, Tecnologia e Inovação precisa ser mais amplo e “compreender distintos níveis de adoção tecnológica e porte de empresas, fomentando empresas pequenas e com menor índice de adoção digital para avançar no caminho da digitalização e tornar o processo mais amplificado, de forma a reduzir as desigualdades existentes na estrutura produtiva brasileira”.
Apesar do avanço da IA, o médico e economista Aloisio Sérgio Barroso defende, com base no pensamento de Karl Marx, que o trabalho vivo continua sendo “a única fonte de valor”. “A IA não cria valor por si só: ela automatiza funções cognitivas, mas a riqueza real ainda depende da atividade humana. A IA é o capital altamente organizado, apoiado por logísticas e cadeias de suprimento abrangentes. Portanto, a ideia de que a teoria do valor-trabalho tornou-se obsoleta é, em minha visão, um equívoco teórico que ignora a materialidade do processo de valorização”, ressalta.
+ IA generativa, valor de uso e concorrência em mercados oligopolizados
+ Notas sobre plataformas digitais, economia de dados e inteligência artificial
A análise de Barroso teve como foco a transfiguração do capital financeiro diante dos avanços tecnológicos. Ele identifica o surgimento de um “novo capital financeiro” no período pós-crise de 2008, materializado no poder das grandes gestoras de ativos, como BlackRock, Vanguard e State Street. “Para se ter uma ideia da magnitude desse poder, a BlackRock administrava em 2024 ativos equivalentes a quase quatro vezes o PIB brasileiro”, destacou. Barroso considera que esses fundos não são apenas investidores passivos: financiam e ditam a direção das Big Techs e das grandes corporações industriais, unificando finança e indústria em uma nova configuração global.
+ Representações de inteligência artificial: o tecnocentrismo em questão
+ Desafios do plano nacional de inteligência artificial na perspectiva da teoria do valor-trabalho
Coordenador executivo do Transforma-Unicamp e coordenador do Grupo de Pesquisa Desenvolvimento Nacional e Socialismo da Fundação Maurício Grabois, o economista Iago Montalvão destacou que vivemos um período de concentração e centralização de capital em escala inédita, onde poucas corporações, majoritariamente sediadas nos Estados Unidos, detêm um poder econômico que supera o PIB somado de toda a América Latina. Ele destaca que essas empresas não exercem apenas influência financeira, mas controlam infraestruturas críticas, como o armazenamento em nuvem e a capacidade de processamento de dados.
“A periferia passa a ocupar novamente um espaço de dependência e uma posição subjugada nessa lógica, porque são regiões onde há ampla disponibilidade de insumos básicos e recursos minerais, mas que têm dificuldade de acesso tecnológico”, ressalta. Montalvão descarta a ideia de que vivemos um “tecnofeudalismo” e aponta para uma nova modelagem da lógica de acumulação capitalista, que utiliza a digitalização para aprofundar ciclos de exploração tradicionais.
Assista a íntegra da mesa Transformações no Capitalismo: a questão tecnológica e digital