Desde o fim da União Soviética, as forças avançadas do mundo com o intuito de instaurar – via um acúmulo progressivo de forças –, um novo ciclo de luta pelo socialismo empreendem um conjunto de lutas políticas e esforços teóricos. Evolutivamente este movimento se robustece, embora num quadro histórico de defensiva estratégica das forças revolucionárias – devido à dimensão histórica da derrota socialista no leste da Europa em 1989 e na URSS em 1991.

Entre as tarefas que, no presente, apresentam-se ao movimento transformador como condições indispensáveis a seu fortalecimento, destaca-se a necessidade de um denso domínio teórico e político do capitalismo contemporâneo.

Tal necessidade se impõe pelo fato de esta nova luta pelo socialismo, aliás, bem distinta da que eclodiu em toda primeira metade do século XX, engendrar-se, objetivamente, da expansão, da crise e dos paradoxos do sistema capitalista atual.

“A burguesia, durante seu domínio de classe, de apenas cem anos, criou forças produtivas mais poderosas e colossais do que as gerações passadas em conjunto”. Dizem Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista, publicado, em 1848. Contudo, em linhas adiante, no mesmo Manifesto, os criadores do socialismo cientifico afirmam: “Há mais de uma década a história da indústria e do comércio não é senão a história da revolta das forças produtivas modernas contra as modernas relações de produção, contra as relações de propriedade que condicionam a existência da burguesia e de seu domínio”.

Sublinhe-se, pois que já se passaram 157 anos que a economia política marxista, corretamente, diagnosticara que depois de representar um avanço da humanidade em todas as dimensões, o capitalismo – a exemplo do que fora o feudalismo – havia se transformado num estorvo ao avanço das forças produtivas e às relações sociais de produção.

Contudo, o capitalismo tem se revelado um “estorvo” mutante e persistente. Já percorreu mais de 300 anos e apesar de uma sistêmica e crônica crise que o acomete e do impacto provocado por revoluções proletárias, segue seu itinerário deixando um rastro de criação, destruição e concentração cada vez maior de riqueza.

Esta edição de Princípios revela traços e feições singulares desse capitalismo contemporâneo. Como se poderá ler, ele atingiu o cume do parasitismo, da financeirização, da concentração de riqueza e de poder. Segundo estatísticas, depósitos bancários, títulos de dívida pública e privada e ações cresceram de US$ 12 trilhões em 1980, o equivalente a 109% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial, para US$ 118 trilhões em 2003, mais de três vezes o PIB mundial.

Um capitalismo “de exuberância irracional” que se expande excluindo e depreciando a força de trabalho. Um capitalismo cujos impérios impõem sua hegemonia pela guerra e por um sofisticado aparato de dominação ideológica. Um capitalismo que exarceba o individualismo, embora crie mecanismos de exclusão que impedem o indivíduo de tornar realidade suas aspirações mais elementares.

Pelo exposto pode-se ver por que se afirma que o capitalismo encontra-se superado historicamente. Embora mutante, é sim um estorvo ao progresso da humanidade.
Contudo, sua própria longevidade indica que sua superação não se dará por morte natural.

Sua superação depende de um fortalecimento ascendente do movimento transformador. E entre os fatores para obtenção desse fortalecimento é imperativo que ele conheça mais e melhor a “hidra” que na aparência se apresenta invencível.

EDIÇÃO 79, JUN/JUL, 2005, PÁGINAS 3