Em defesa da politicidade da educação popular
A educação popular é ação cultural para a liberdade (Freire, 2015), uma práxis político-pedagógica radicalmente comprometida com os oprimidos e engajada com a transformação das injustiças do mundo. Ela é herdeira de uma tradição do pensamento social crítico latino-americano, que constrói paradigmas emancipatórios. O popular qualifica não apenas os sujeitos da educação, mas seu posicionamento ético compromissado com o povo. Ela é política em sua inteireza.
A realização Seminário Nacional de Educação Popular do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) é uma oportunidade para retomarmos o debate sobre a politicidade da educação popular e seu papel estratégico na construção de um projeto nacional de desenvolvimento autenticamente democrático e popular. Em um contexto marcado pela ascensão de regimes autoritários, antidialógicos por natureza, torna-se ainda mais necessário reafirmar a atualidade deste tipo de educação como horizonte ético-político de transformação social.
Mais sobre Paulo Freire:
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Historicizar antes de prospectar
A educação popular é um acumulado histórico (Mejía, 2013) de concepções, práticas e metodologias emancipatórias desde o Sul e desde baixo – síntese autenticamente latino-americana que expressa a insurgência como princípio pedagógico (Moretti, 2014). É tanto corrente pedagógica como movimento que possui pluralidade de temáticas, sujeitos, contextos educativos e campos de ação.
A educação popular possui caráter histórico, contextual e político (Torres Carrillo, 2013). Suas raízes podem ser encontradas em José Martí, para quem “a educação precisa ir aonde vai a vida”, e em Simón Rodríguez: “inventamos ou erramos”, mas é com Paulo Freire e os movimentos de cultura popular na década de 1960 no Brasil que temos a sistematização de uma pedagogia das classes populares.
Carlos Rodrigues Brandão (2001) caracteriza a educação popular como um trabalho político de mediação pedagógica que serve à integração das classes populares em um projeto de mudança aparente ou efetiva da ordem social, seja este um projeto de democracia formal, de democracia participativa ou da sociedade socialista. Trata-se de um projeto de libertação através da educação, que identifica o vínculo entre exclusão educacional e injustiça social como consequência do modo de produção capitalista.
A educação popular é medular à construção de paradigmas emancipatórios que confrontam a hegemonia cognitiva da racionalidade capitalista (Torres Carrillo, 2013). Ela combate com firmeza o fatalismo do discurso neoliberal e a ideia pós-moderna de “morte das ideologias”, pois entende que “só há uma maneira de matar a ideologia: é ideologicamente” (Freire, 2018, p. 59). Por isso, a politicidade da educação popular é marca de seu quefazer (Freire, 2016): coloca-se como ferramenta de organização e mobilização popular para transformação da realidade concreta.
A educação popular diferencia-se da educação bancária – antidialógica, alienadora e prática da dominação – também porque assume a problematização da situação existencial minimizada de homens e mulheres marginalizados no ato gnosiológico. A dialogicidade é a essência da educação como prática da liberdade e ela só ocorre entre sujeitos, jamais entre sujeito e objeto. Isso significa que a educação popular rejeita a posição passiva de “espectador” destinada ao educando na educação bancária, pois entende que o educador não é o dono do conhecimento, nem o educando um receptáculo vazio que irá recebê-lo (Freire, 2016).
A prática educativa popular define-se como uma situação gnosiológica, na qual o educador ocupa-se da promoção de condições pedagógicas que estimulem o diálogo e a criticidade para a doxa se transformar em logos. Cabe enfatizar que a educação como prática da liberdade reconhece e valoriza o saber da experiência, compreendendo que a episteme popular é um conhecimento outro, não um conhecimento inferior ao científico. Entende, portanto, que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, sendo um valor fundamental deste tipo de educação a humildade epistemológica, sem com isso abrir mão da rigorosidade metódica:
Acho que o conceito mais revolucionário, mais radical […] é uma proposta metodológica dialética, é precisamente o esforço de fazer dos processos organizativos um espaço para a construção da capacidade do povo de construir, de produzir teoria, que não significa produzir tudo do zero, que não significa negar a teoria já existente, a teoria acumulada historicamente, mas que significa tentar ligar a produção das nossas teorizações próprias com a teoria já existente para produzir novas teorias, novos elementos teóricos que respondam as necessidades atuais da nossa transformação. […] Teorizar é aprofundar nas determinações não visíveis da nossa vida cotidiana […]. O esforço de conceitualização, de teorização é o que vai nos permitir voltar novamente sobre a superfície da complexidade dos fatos que se dá na nossa sociedade para se ter melhor compreensão deles e então ter melhores elementos para sua transformação (Freire, 2018, p. 109-110).
A reflexividade é uma de suas características porque aposta que a reflexão, quando verdadeira, conduz, inevitavelmente, à ação. Daí também o cuidado da educação popular em não dicotomizar a unidade entre conteúdo e forma histórica de ser de homens e mulheres, porque a distorção da vocação histórica e ontológica em “ser mais” do sujeito está condicionada à ordem social vigente. A educação como prática da liberdade precisa que homens e mulheres se reconheçam como sujeitos, não como objetos (Freire, 2016).
A questão é que os problemas não se dão no ar, se dão na História, mudam com a História, de maneira que as respostas que podemos dar a esses problemas não são as mesmas. Em outras palavras: mudando o tempo histórico, ainda quando a problemática pode seguir sendo a mesma, as formas de luta não são necessariamente as mesmas (Freire, 2018, p. 55).
Ao historicizar a realidade, a educação popular destaca seu caráter processual, social e dialético e insere a ação de homens e mulheres no mundo e com o mundo (Freire, 2016). A realidade em que vivemos não é um dado, mas uma construção, e o papel político da educação popular reside justamente aí: na não adaptação e assimilação à ordem social vigente e no desvelamento de seus mecanismos de exclusão.
Assim, alerta Freire (2018, 2016), a conscientização não é apenas consciência crítica, mas capacidade de tomar partido, intervir na realidade para modificá-la. Diante de uma situação-limite de exploração e dominação, o sujeito se move no mundo e com o mundo. Trata-se da dimensão da práxis (ação-reflexão-ação), nuclear à educação popular.
Por meio de temas geradores (como o grande tema da dominação), a prática pedagógica estimula o pensar crítico e questiona a naturalização de fenômenos sociais, relacionando o contexto do educando com o que está sendo apreendido. O objeto cognoscível, portanto, não é a finalidade do ato cognoscente, mas é um mediatizador entre os sujeitos cognoscentes na construção do conhecimento (Freire, 2016).
Em outras palavras, a educação popular problematiza o empobrecimento de homens e mulheres e desvela que a exclusão social, econômica, política e cultural dos oprimidos não é fato apriorístico, mas uma condição conscientemente produzida pela classe dominante no poder. Sublinha que não há determinismos biológicos nem explicações divinas por trás da pobreza, da fome, do analfabetismo, da violência, da criminalidade etc., mas decisões políticas deliberadas operadas por uma classe dominante que possui um projeto de sociedade elitista.
Por entender que o projeto de educação reflete o projeto de sociedade, a educação popular pleiteia hoje a construção de um amanhã eticamente mais humano, justo e democrático, no qual homens e mulheres possam ir ao encontro de sua vocação histórica e ontológica de “ser mais” (Freire, 2016). Assim é que para Freire (2016), a assunção da diretividade afirma a politicidade da educação popular: ela sempre transborda, porque busca algo, um sonho, uma utopia. Cabe aos educadores progressistas a postura ético-democrática de, sabendo que a neutralidade é uma impossibilidade da prática educativa, anunciar outros sonhos possíveis e respeitar a autonomia dos educandos de sonhar diferente.
Mais sobre o tema:
+ A educação e a Comuna de Paris, José Claudinei Lombardi
+ Paradigmas e políticas educacionais: o neoliberalismo, Pedro Elói Rech
Educação popular, autonomia e projeto democrático
A educação popular, como prática social e política, parte da realidade concreta dos sujeitos para problematizar a razão de ser das injustiças que os assolam. O ato educativo precisa ter vínculo com o contexto dos sujeitos, com o entorno onde sua existência se produz – seu trabalho pedagógico é penetrar na compreensão do texto e trazê-lo, em um movimento coletivo educador-educando, para a realidade.
O conteúdo popular e a prática revolucionária da democracia entendida como valor estratégico potencializa as práticas educativas e, sobretudo, cria a abertura e a flexibilidade indispensáveis a um processo revolucionário que vai se forjando nas respostas à realidade concreta e às aspirações e necessidades do povo (Freire, 2018, p. 194).
Ao assumir esta perspectiva, a educação popular afirma que a democratização da sociedade não se limita à ampliação formal de direitos, mas exige a construção de condições materiais, culturais e políticas para a participação efetiva do povo nos rumos da vida nacional. A educação, portanto, não pode ser concebida apenas como preparação técnica para o mundo do trabalho, mas como formação omnilateral; ao se reconhecerem como sujeitos incompletos, inacabados e inconclusos dotados de agência epistêmica, recusam a lógica meritocrática neoliberal que individualiza o “fracasso” e invisibiliza as determinações históricas de reprodução das desigualdades materiais e cognitivas. E isso exige a conquista da autonomia.
Na acepção freiriana, a autonomia é parte do processo histórico e coletivo da busca por “ser mais”, mediado pela prática social. Ela se dá quando condições são criadas para que os sujeitos desenvolvam capacidade crítica, posicionamento ético e participação ativa em seu entorno para nele intervir. Autonomia significa romper com a domesticação e o silenciamento que impedem homens e mulheres de dizer sua palavra (Freire, 2014).
Neste sentido, a educação popular é uma ferramenta político-pedagógica de anúncio de outros mundos possíveis e denúncia da atual configuração do mundo capitalista, sendo aliada de nossas lutas por um projeto nacional de desenvolvimento comprometido com a soberania, a justiça social e a superação das desigualdades estruturais. Não há soberania nacional sem democratização educacional: a dependência econômica e tecnológica do Sul Global também se sustenta na exclusão educacional e na geopolítica do conhecimento.
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Não há democracia sem o exercício da cidadania ativa, e tampouco há participação popular sem processos educativos que contribuam para o fortalecimento da organização popular, da leitura crítica da realidade e da construção de novos horizontes civilizatórios. O país se faz com sujeitos, não com objetos. E só é sujeito, como nos ensina Freire (2016), quem consegue se libertar da cultura do silêncio e dizer a sua palavra – palavra que é práxis.
Em tempos de avanço do neoliberalismo como paradigma civilizatório, de mercantilização da educação e de enrijecimento do autoritarismo, a educação popular reafirma a educação como direito, exercício de cultura democrática e paradigma emancipatório. Defender a politicidade da educação popular é reconhecer que toda prática educativa expressa um posicionamento diante do mundo e das relações de poder que o estruturam.
Considerações finais para continuar esperançando
A educação popular não é uma concepção e prática político-pedagógica homogênea e estanque. Ela se atualiza permanentemente com o movimento da história e se coloca como ferramenta de luta das classes populares perante as situações-limite desumanizantes. Permanece imprescindível justamente porque indigna-se diante da razão de ser das injustiças do mundo, recusando a adaptação passiva à ordem social desigual e excludente.
Sabendo que “mudar é difícil, mas é possível” (Freire, 2018, p. 57), a radicalidade da educação popular firma-se na aposta da capacidade humana para transformar o mundo. É uma pedagogia da esperança, não como espera vã, mas como verbo de ação coletiva movido por um otimismo crítico comprometido com a construção de um futuro socialmente justo.
Assim, a educação popular, assumidamente política, segue sendo um campo estratégico de teorização, complexificação dos fenômenos, organização política e construção de outros mundos possíveis suleados pela formação de sujeitos críticos e à constituição de sociedades mais democráticas.
Referências
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Educação alternativa na sociedade autoritária. In: PAIVA, Vanilda (org.). Perspectivas e dilemas da educação popular. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1986. p. 171-202.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 49. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.
FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. 15. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2015.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 62. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2016.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do compromisso: América Latina e educação popular. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2018.
MEJÍA, Marco Raúl. La educación popular: una construcción colectiva desde el Sur y desde abajo. In: STRECK, Danilo R.; ESTEBAN, Maria Teresa (org.). Educação popular: lugar de construção social coletiva. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 369-398.
MORETTI, Cheron Zanini. Nosso norte é o sul: colonialidade do conhecimento e a pedagogia da insurgência na América Latina. 2014. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 2014.
TORRES CARRILLO, Alfonso. A educação popular como prática política e pedagógica emancipadora. In: STRECK, Danilo R.; ESTEBAN, Maria Teresa (org.). Educação popular: lugar de construção social coletiva. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 15-32.
Marcelly Machado Cruz é doutoranda e bolsista Capes no Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (Prolam/USP). Mestre em Ciências pelo Prolam/USP. Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).
*Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.