Um dos traços mais marcantes da conjuntura latino-americana recente é o retorno explícito e agressivo dos Estados Unidos da América (EUA) na região. A Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump, publicada em 2025, reafirma a Doutrina Monroe declarando que os Estados Unidos restaurarão sua predominância no hemisfério ocidental. Assim, se o “Corolário Roosevelt” do início do século XX autorizava intervenções com o “big stick” (grande porrete), o “Corolário Trump” busca recolonizar o continente como espaço estratégico para acumulação de capital e disputa geopolítica com novas táticas para enfrentar a crise do capitalismo e a competição com potências emergentes, como a China.
Desse modo, a América Latina, vista como “quintal” dos EUA, é convertida em um “laboratório” para testar novas formas de intervenção que expressam a lógica de expansão e dominação do capital financeiro internacional, que busca garantir o acesso a matérias-primas, mercados e áreas de influência geopolítica. Epicentro desta nova ofensiva, o sequestro do presidente Nicolás Maduro, na Venezuela, e o deslocamento militar sem precedentes em Cuba desde a Guerra Fria são marcos dessa configuração.
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As vitórias eleitorais da direita na Argentina, no Chile e em Honduras, bem como a derrota da esquerda na Bolívia encorajaram a equipe de Trump a intensificar suas ações que, em grande medida, são uma reação à ascensão da China como potência global. A agressão contra Caracas e o sequestro de Maduro são a materialização de um projeto político que visa controlar as vastas reservas de petróleo e minerais críticos essenciais para a indústria bélica e tecnológica dos EUA e destruir qualquer alternativa socialista pelo mundo, demonstrando que governos progressistas ou anti-imperialistas serão alvos de uma resposta militar direta.
As eleições de junho de 2026 na Colômbia e no Peru
O caso colombiano também é bem didático dessa nova fase intervencionista, pois o governo Trump interveio abertamente apoiando o candidato de extrema direita, Abelardo de la Espriella, contra o senador de esquerda Iván Cepeda, aliado de Gustavo Petro. A Colômbia é historicamente uma aliada estratégica dos EUA na região, servindo como plataforma militar e política para operações na América do Sul. A ascensão de Petro, o primeiro presidente de esquerda do país, representou uma ruptura nessa aliança com a normalização das relações com a Venezuela e uma postura mais crítica em relação a Washington. Portanto, impedir a continuidade desse projeto personificado em Cepeda foi crucial para os EUA. Além disso, a Colômbia é peça-chave no “círculo de fogo” para isolar o Brasil, enfraquecendo sua posição internacional e sua capacidade de articular uma agenda sul-americana autônoma.
Do mesmo modo, no Peru, as eleições que colocaram em disputa o segundo turno entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez foram também parte de um esforço deliberado de Washington para inclinar o mapa político da América Latina de vez para uma direita alinhada ao governo de Donald Trump. A eleição de Fujimori, herdeira política da ditadura neoliberal que aprofundou a dependência peruana, visa garantir que o país continue sendo um mercado aberto para o capital financeiro, enquanto o projeto da esquerda poderia reavivar políticas de maior autonomia nacional e integração regional.
A interferência dos EUA, portanto, é uma necessidade sistêmica para conter qualquer avanço que possa fragilizar a hegemonia norte-americana no continente, e o caso boliviano, por sua vez, é o mais complexo e revelador das novas contradições do imperialismo. Após a vitória do conservador Rodrigo Paz Pereira em 2025, que pôs fim a quase duas décadas de governos de esquerda do MAS, a Bolívia mergulhou em uma crise profunda, culminando em protestos massivos contra medidas de austeridade e da lei de terras que favorece o agronegócio.
A atuação dos EUA neste cenário é um exemplo clássico da tática imperialista de desestabilização e controle narrativo, pois ao tempo em que fornecem respaldo militar ao governo de Rodrigo Paz, fechando acordo para treinar e equipar as forças armadas no combate ao tráfico, Washington classifica os protestos como uma “tentativa de golpe de Estado financiada pelo crime organizado”, invertendo a narrativa histórica e criminalizando a luta de classes.
Brasil no novo ciclo de pressão dos EUA
No Brasil, a decisão de classificar PCC e CV como terroristas insere o país na arquitetura de sanções do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros, ampliando os instrumentos legais disponíveis para autoridades estadunidenses e oferecendo consequências profundas no impacto econômico e na soberania nacional.
Essa classificação não é um fato isolado, pois se insere em uma política mais ampla do governo Trump, que já designou cartéis mexicanos, da Venezuela e organizações criminosas do Equador e da Colômbia como terroristas. A formação da coalizão “Escudo das Américas” e a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, precedida por acusações de “narcoterrorismo”, demonstram que a classificação serve como pretexto para ações militares e intervenções diretas.
A medida, portanto, não é apenas um ato de política de segurança, mas um movimento geopolítico que visa isolar o Brasil, enfraquecendo a posição internacional do governo Lula, e criar um mecanismo de coerção que pode ser usado para pressionar o país em questões comerciais, financeiras e geopolíticas, como a relação com a China. Isso evidencia que a interferência externa contemporânea não precisa necessariamente aparecer como fraude nas urnas, pois se manifesta por discursos, símbolos, redes sociais, pressão econômica, sanções, tarifas, reuniões seletivas e enquadramentos narrativos.
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Frente ao histórico do “destino manifesto” dos EUA, recentemente Donald Trump declarou em seu perfil na rede social Truth Social que as eleições brasileiras são o “próximo teste” para sua influência na América Latina, revelando uma confissão de que sua estratégia é a de impor sua vontade, e não a de respeitar a democracia alheia. Ao classificar o Brasil como um “obstáculo”, Trump revela a cartilha do imperialismo estadunidense: os países que não se submetem aos seus interesses são desafios a serem vencidos.
O subdesenvolvimento e a vulnerabilidade são formas específicas de inserção internacional, atualizadas e sofisticadas pela globalização financeira e pela disputa interimperialista. A conjuntura revela a polarização de classes onde de um lado está a ofensiva imperialista e suas frações internas e, de outro, a necessidade de resistência e construção de novas alianças anti-imperialistas pela classe trabalhadora e movimentos populares.
A luta de classes na América Latina mais uma vez se revela como o palco central da disputa interimperialista, onde a emancipação popular exige a superação da própria lógica de dominação que os EUA, com seus novos e velhos métodos, insistem em perpetuar.
Mariana Moura é escritora, pesquisadora, mestra em Sociologia Histórica da América Latina (UBA) e em Comunicação (UFPB). É dirigente do PCdoB-AL.