Logo Grabois Logo Grabois

Leia a última edição Logo Grabois

Inscreva-se para receber nossa Newsletter

    Economia

    Guerra como saída do capital financeirizado para suas crises estruturais

    Ataques ordenados por Trump revelam a ofensiva rentista global e recolocam na agenda a convergência dos povos contra a dominação imperial

    POR: Miguel Manso

    14 min de leitura

    Lançamento de foguete por forças dos Estados Unidos em operação militar contra o Irã. Crédito: U.S. Central Command via X
    Lançamento de foguete por forças dos Estados Unidos em operação militar contra o Irã. Crédito: U.S. Central Command via X

    Unir povos e nações em desenvolvimento para derrotar Trump e a “pandemia da financeirização”, seu fascismo e suas guerras imperialistas

    Quando o capital já não pode mais comprar o consentimento, tenta impor a submissão pela força. Mas a força, quando usada contra a vontade da maioria, apenas acelera o colapso.

    Às vésperas de uma provável derrota eleitoral nas eleições legislativas estadunidenses, em novembro de 2026, Donald Trump ordena ataques militares dos EUA a diversas nações que atingem interesses de aliados e elevam o preço do petróleo. A escalada ocorre em meio a um provável e anunciado julgamento seu por traição nacional, por prejudicar a economia americana com políticas tarifárias e agressões a aliados, que agravaram a crise econômica, e por subordinar o interesse nacional americano ao envolvimento em guerras, sem autorização do Congresso nacional, para favorecer Netanyahu e o Estado de Israel, bem como por acelerado enriquecimento ilícito, e por crimes de pedofilia e abuso de menores.

    + Velho imperialismo dos EUA, novo operador: neofascismo sob Trump
    + Ataque EUA-Israel ao Irã integra projeto de reconfiguração do Oriente Médio

    A maioria do povo americano condena os ataques. A maioria do povo americano condena os ataques. Três em cada quatro cidadãos não apoiam as medidas de guerra, e a reação interna e externa à política de Trump cresce aceleradamente.

    Um líder em situação política desesperadora (derrota iminente, julgamentos, rejeição popular) que lança ataques militares contra múltiplas nações expressa a forma clássica pela qual a guerra é utilizada como tentativa de resolver contradições internas.

    A guerra não é uma anomalia ou um acidente histórico no capitalismo; ela é uma forma de resolução violenta das contradições quando os mecanismos econômicos normais (crises, desvalorização, tarifaços, falências, anexações) se mostram insuficientes para restaurar as condições de acumulação.

    A indústria da guerra não é um setor paralelo ou uma anomalia no capitalismo contemporâneo, mas sim a outra face da mesma moeda da financeirização. Ela representa o momento em que o capital fictício, incapaz de se valorizar pela via produtiva (expansão das forças produtivas), transforma-se em máquina de destruição como forma de resolver suas contradições.

    A indústria de guerra como solução para a superacumulação

    A financeirização gera uma massa gigantesca de capital que não encontra aplicação produtiva lucrativa. Esse capital excedente busca valorização na esfera financeira (D-D’), mas tal valorização é, em última instância, parasitária: vive de sugar a mais-valia produzida alhures, sem expandir a base produtiva que a gera, estrangulando e desmontando a base produtiva real.

    Chega-se a um impasse: o parasita cresce, mas o hospedeiro definha. A taxa de lucro cai, a estagnação se aprofunda, o capital fictício se acumula sem lastro.

    A “indústria” de guerra oferece uma “solução” para este impasse por três vias:

    1. Destruição de forças produtivas

    A guerra destrói fábricas, infraestrutura e cidades inteiras. Essa destruição “libera” espaço para um novo ciclo de acumulação, eliminando o excesso de capacidade produtiva que tornava baixas as taxas de lucro.

    2. Esterilização de capital morto

    O capital investido em armamentos é, do ponto de vista da reprodução ampliada, capital esterilizado: não produz mercadorias para o consumo, não gera mais-valia nem amplia a capacidade produtiva da sociedade. Ainda assim, para o capital, cumpre uma função vital: realiza lucro para o complexo industrial-militar sem aumentar a superacumulação na esfera produtiva civil.

    3. Recomposição da taxa de lucro no pós-guerra

    A destruição cria a necessidade de reconstrução, que, por sua vez, gera um novo ciclo de investimentos produtivos (o “keynesianismo bélico”). Os que sobrevivem e vencem emergem com controle ampliado sobre reservas estratégicas e mercados.

    A guerra como resolução violenta das crises: destruição de forças produtivas e capital fictício

    Como bem aponta a análise marxista, a guerra cumpre funções específicas:

    Destruição massiva de forças produtivas: quando há superacumulação de capital (excesso de capital fictício em relação à possibilidade de realização do valor), a guerra física destrói fábricas, infraestrutura e estoques, na busca por criar “espaço” para um novo ciclo de acumulação e manter a hegemonia ameaçada.

    Aniquilação de capital fictício: títulos públicos, ações e derivativos perdem valor em contextos de guerra generalizada. Essa destruição, contudo, não é uniforme: os detentores de capital fictício “podre” (pequenos investidores, classes médias) são os primeiros a ver seus papéis virarem pó, enquanto o núcleo financeiro, com liquidez e informação privilegiada, compra ativos reais a preços de liquidação durante o conflito.

    Reconfiguração geopolítica da propriedade: a guerra redefine quem controla reservas estratégicas (petróleo, minérios críticos, terras agriculturáveis, água). O acesso a estas reservas, mediado pela violência estatal, torna-se a base para a valorização futura do capital financeiro das potências vencedoras.

    A guerra como “solução final” para perpetuar a financeirização

    Na fase da financeirização exacerbada, a guerra assume um caráter particular. Como o capital fictício cresceu muito além da base produtiva real, uma crise normal (como a de 2008) não consegue desvalorizá-lo suficientemente, como quando os bancos centrais intervieram com emissão monetária e compra de ativos podres, socializando as perdas e mantendo o castelo de cartas de pé.

    Neste contexto, a guerra generalizada aparece como a única forma de:

    • Destruir capital fictício excedente sem passar pelo colapso total do sistema financeiro (já que a destruição bélica é seletiva e geograficamente concentrada).
    • Recompor a taxa de lucro através da reconstrução pós-guerra (o “keynesianismo bélico”).
    • Garantir o controle de reservas estratégicas indispensáveis para a reprodução do capital em um mundo com recursos finitos e crescentes tensões interimperialistas.
    • Enfraquecer a resistência das nações em desenvolvimento, em especial os BRICS e a China.

    + China e a transição global: o sentido estratégico da coletiva de Wang Yi
    + Brasil, BRICS+ e as rotas que irritam Trump
    +
    Guerra tecnológica e a lição da China sobre soberania digital

    Como observa Eleutério Prado, a dominância financeira se desenvolve em um contexto de declínio secular da taxa de lucro e estagnação prolongada. A guerra, neste quadro, é a tentativa desesperada de romper este ciclo de baixo crescimento através da violência aberta.

    “A guerra imperialista é a continuação da política de financeirização por outros meios: onde a concorrência econômica já não basta para redefinir a partilha do mundo, a força bruta decide quem fica com os ativos sólidos e quem herda os papéis podres.”

    A internacionalização do capital e a tentativa de borrar fronteiras

    A globalização financeira e a ofensiva contra o Estado nacional

    A financeirização não é um fenômeno nacional; ela é intrinsecamente global. Desde a expansão do mercado de eurodólares nos anos 1970 e a desregulamentação financeira dos anos 1980, o capital financeiro opera em escala mundial, buscando incessantemente destruir as barreiras nacionais que limitam seu movimento.

    Esta ofensiva assume várias formas:

    Subordinação dos Estados nacionais ao “mercado”: como aponta Fattorelli, “Estados nacionais se curvam ao poder financeiro e às suas exigências, sacrificando os direitos sociais, o patrimônio público e até mesmo a estrutura do próprio Estado”.

    A dívida pública torna-se o principal instrumento dessa subordinação: os Estados são forçados a priorizar o pagamento de juros aos credores financeiros em detrimento de investimentos sociais e produtivos.

    Imposição de políticas de austeridade: credores internacionais (FMI, Banco Mundial, agências de rating) impõem condicionalidades que limitam a autonomia política das nações periféricas. A “confiança do mercado” torna-se um imperativo superior à soberania popular.

    Captura institucional: o sistema financeiro captura as instituições reguladoras, os bancos centrais e os ministérios da Fazenda, que passam a operar em função dos interesses do capital rentista, não do desenvolvimento nacional.

    O paradoxo: Estados fortes para o capital, fracos para os povos

    É crucial entender que a financeirização não busca destruir o Estado nacional, mas sim reconfigurá-lo para que sirva aos interesses do capital globalizado. Como argumenta Fernando Nogueira da Costa:

    Há um condicionamento financeiro de políticas públicas. O custo do serviço da dívida e a necessidade de preservar a solvência pública condicionam escolhas: prioriza-se pagamento de juros e manutenção da confiança do mercado em lugar do investimento social.

    O resultado é um Estado com duas faces:

    Forte e interventor quando se trata de garantir o pagamento da dívida, salvar bancos falidos e reprimir movimentos sociais que ameaçam a “ordem” financeira.

    Fraco e submisso quando se trata de regular o capital financeiro, tributar a riqueza ou implementar políticas desenvolvimentistas.

    A vacina é a resistência: luta pela emancipação das nações expropriadas

    O crescimento da resistência como resposta à expropriação

    A financeirização desenfreada, com sua carga de expropriação, desemprego, precarização e destruição de direitos, não ocorre sem resistência. Pelo contrário, ela gera suas próprias contradições políticas.

    As formas de resistência são múltiplas:

    Movimentos por auditoria da dívida pública: em diversos países (Equador, Grécia, Brasil), surgem movimentos exigindo a auditoria da dívida pública, denunciando sua ilegitimidade e o fato de que grande parte dela é formada por “mecanismos financeiros corruptos” que transferem recursos públicos para o setor privado.

    Nacionalizações e reestatizações: a resposta à privatização de setores estratégicos (energia, água, telecomunicações) tem sido, em alguns contextos, a luta por sua reestatização ou por formas de controle público e social.

    Construção de alternativas financeiras: cooperativas de crédito, bancos comunitários, finanças solidárias e plataformas financeiras cooperativas emergem como tentativas de construir circuitos financeiros não subordinados à lógica parasitária.

    Luta contra tratados de livre comércio predatórios: a resistência a acordos que aprofundam a subordinação das economias periféricas ao capital financeiro internacional.

    Veja debate sobre a crise do neoliberalismo e as tendências atuais da financeirização na TV Grabois:

    A “pandemia da financeirização” e a consciência da expropriação

    O limite objetivo à proliferação parasitária

    A resistência das nações expropriadas não é apenas um fenômeno moral ou político; ela impõe limites objetivos à expansão da financeirização:

    1. Crises de legitimidade: quando o sistema perde legitimidade aos olhos da maioria da população, torna-se mais difícil impor novas rodadas de austeridade sem recorrer à repressão aberta.
    2. Crises de governabilidade: a dívida pública, principal instrumento de dominação financeira, só funciona se os Estados continuarem pagando. Movimentos que ameaçam interromper esse pagamento (default, reestruturação, auditoria) representam um risco sistêmico para o capital financeiro.
    3. Emergência de alternativas: a construção de projetos nacionais-populares que priorizam o desenvolvimento das forças produtivas internas e a distribuição de renda, em vez da subordinação ao capital financeiro internacional.
    4. Blocos regionais contra-hegemônicos: a formação de alianças entre nações periféricas (BRICS, Unasul etc.) que buscam construir instituições financeiras alternativas (Novo Banco de Desenvolvimento, Banco do Sul, sistemas de pagamento em moedas locais) e reduzir a dependência do sistema financeiro centrado no dólar.

    A totalidade da contradição

    A guerra como destruição e reconcentração

    Função: destruir forças produtivas excedentes e capital fictício “podre” para recompor a taxa de lucro e redefinir, pela força, quem controla reservas estratégicas.

    Quem ganha: o complexo industrial-militar e o núcleo financeiro das potências vencedoras, que emergem com controle ampliado sobre ativos reais.

    Quem perde: as nações periféricas transformadas em campos de batalha; a classe trabalhadora mundial, que carrega o peso da destruição e da reconstrução; os detentores de capital fictício dos países derrotados.

    A internacionalização e a resistência

    Ofensiva do capital: globalização financeira, subordinação dos Estados, imposição de austeridade, captura institucional.

    Contraofensiva dos povos: auditoria da dívida, nacionalizações, finanças solidárias, integração regional autônoma, luta ideológica contra a naturalização do rentismo.

    Tendência contraditória: quanto mais a financeirização avança, mais ela gera resistência; quanto mais resistência, mais o capital recorre à violência aberta (guerra) para garantir suas condições de reprodução.

    O duplo movimento da contradição

    A financeirização, portanto, deve ser compreendida como um fenômeno total que envolve:

    Na economia: expropriação da mais-valia produzida na indústria e na agricultura por meio de mecanismos financeiros (juros, dividendos, especulação).

    Na política: subordinação dos Estados nacionais aos imperativos do “mercado” e captura institucional.

    Na geopolítica: guerra interimperialista pela redefinição da partilha do mundo e controle de reservas estratégicas, com destruição massiva de forças produtivas e capital fictício.

    Na sociedade: crescimento da resistência das nações expropriadas, que impõe limites objetivos à expansão parasitária e abre possibilidades para a construção de alternativas.

    + Bombas imperialistas, petróleo e unidade na América Latina: o alerta de Fidel

    O sistema entra em um beco sem saída: não pode sobreviver sem a financeirização (que é sua forma atual de acumulação), mas não pode sustentá-la indefinidamente, porque ela corrói sua própria base produtiva e gera resistências crescentes. A guerra surge como a “solução” violenta para essa contradição, mas também carrega os germes de uma destruição ainda maior.

    A “pandemia da financeirização” não é uma metáfora vazia: como um vírus, o capital rentista invade organismos nacionais, reproduz-se parasitariamente, enfraquece seus hospedeiros e, quando confrontado, provoca reações inflamatórias (guerras) que matam o corpo para salvar o parasita. A diferença é que, no caso do capitalismo, o parasita pode ser expulso pela ação consciente dos povos que se recusam a morrer para alimentar a usura.

    + Crises do capitalismo financeirizado: uma análise Marxista

    O parasitismo e a decomposição do capitalismo atingem seu grau máximo na financeirização. Mas é precisamente esse estágio que, ao tornar insuportável a vida para a maioria, coloca na ordem do dia a necessidade histórica de sua superação.

    A libertação dos Estados nacionais capturados pela financeirização não é apenas uma tarefa entre outras; ela é a tarefa estratégica central do nosso tempo, a condição necessária para que qualquer projeto de desenvolvimento, soberania e justiça social possa florescer.

    Mas isso é possível?

    Será tema para outro artigo.

     


    Miguel Manso é pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Desenvolvimento Nacional e Socialismo da Fundação Maurício Grabois. Engenheiro eletrônico formado pela USP, com especialização em Telecomunicações pela Unicamp e em Inteligência Artificial pela UFV. É diretor de Políticas Públicas da EngD – Engenharia pela Democracia.

    *Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pelo autor não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.