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    Comunicação

    Raimundo morreu! Raimundo vive! Homenagem ao jornalista Raimundo Pereira

    Físico brilhante que escolheu o jornalismo, liderou projetos marcantes como Opinião, Movimento e Retrato do Brasil, deixando legado de coragem editorial e compromisso democrático

    POR: Carlos Azevedo

    4 min de leitura

    Raimundo Rodrigues Pereira, jornalista que integrou a equipe inicial de Veja, dirigiu a edição especial Amazônia de Realidade e fundou os jornais Opinião e Movimento, publicados sob censura durante a ditadura militar. Foto: Memorial da Resistência de São Paulo.
    Raimundo Rodrigues Pereira, jornalista que integrou a equipe inicial de Veja, dirigiu a edição especial Amazônia de Realidade e fundou os jornais Opinião e Movimento, publicados sob censura durante a ditadura militar. Foto: Memorial da Resistência de São Paulo.

    Raimundo Rodrigues Pereira morreu hoje, 2 de maio de 2026, aos 85 anos. Mente absolutamente brilhante entrou duas vezes no ITA de São José dos Campos. Formado em Física pela USP, poderia escolher qualquer carreira e a exerceria com brilho. Foi seduzido pelo jornalismo. Aos 29 anos foi trabalhar na então recente revista Veja, da Editora Abril. O lançamento da revista foi um fracasso. Ameaçada de fechar, foi salva por Raimundo com uma série de reportagens sobre a viagem do homem à Lua, que só ele, um físico completo, poderia explicar ao leitor comum.

    Em 1969, com ousadia, pegou no ar uma frase de um ministro da ditadura militar dizendo que o ditador de plantão não aceitava tortura e usou-a como pretexto para publicar veementes reportagens denunciando os crimes de tortura praticados pelos militares contra opositores políticos.

    + A história de Raimundo Rodrigues Pereira – uma biografia sincera

    Sem espaço na Veja resolveu se demitir. Juntou companheiros em torno de um projeto de jornal independente. Em 1971, voltou à Editora Abril e comandou a colossal edição especial de Realidade Amazônia. Logo depois, aparecia à frente de Opinião, um jornal independente produzido no Rio de Janeiro com financiamento do empresário nacional Fernando Gasparian e uma equipe de jovens jornalistas e artistas gráficos que impactaram a imprensa mesmo enfrentando a censura da ditadura.

    Em 1975, realizou a façanha de criar um jornal autofinanciado, apoiado em cotas de jornalistas e intelectuais, produzido por uma grande equipe de jornalistas engajados na luta contra a ditadura, o Movimento, que já nasceu grande e submetido à censura desde a primeira edição. Esse jornal teve papel destacado na construção da frente pela democratização, defendeu desde o início a exigência de uma anistia ampla, geral e irrestrita. E, mais que isso, lançou a proposta de realização de uma Assembleia Nacional Constituinte que iria se realizar em 1987-1988, base da democratização da nossa sociedade.

    + Jornal Movimento, vanguarda da luta pela democracia

    Raimundo seguiu sempre perseguindo seu projeto de uma imprensa independente. Lançou a Editora Política, que publicou em fascículos de grande repercussão a série Retrato do Brasil, mais tarde reunida em livro. No comando da Oficina de Informações, produziu revistas como Reportagem, Manifesto, Retrato do Brasil. Num livro de denúncia contra o Bank of America conseguiu vitória nos tribunais que lhe rendeu recursos para continuar financiando seus projetos por vários anos.

    Durante anos, suas revistas, tais como Reportagem e depois Retrato do Brasil, circularam mensalmente sempre buscando os fatos relevantes para temas de brilhantes reportagens sobre a economia, a política nacional, temas sociais e culturais, com a colaboração de uma pequena e engajada equipe. Assuntos mais importantes, como o chamado Mensalão, se transformaram em séries e depois foram reunidos em livros.

    Afastou-se após o falecimento de sua companheira, Sizue Imanishi, alguns anos atrás, e foi viver junto às suas filhas, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro.

    Está na seleta lista dos maiores jornalistas brasileiros dos séculos XX e XXI. Agora o grande guerreiro desfrutará do descanso merecido. Viverá para sempre!


    Carlos Azevedo é jornalista, integra o Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois. Atuou em veículos como O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Realidade e foi colaborador do Jornal Movimento. Trabalhou na TV Globo e TV Cultura, dirigiu programas políticos do PCdoB e foi editor-chefe das campanhas presidenciais de Lula em 1989 e 1994. É autor de livros como Cicatriz de Reportagem e Jornal Movimento, uma reportagem.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.

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