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    EUA

    Guerra contra o Irã, tarifaço e crise interna expõem limites do poder de Trump

    Pressão social, perdas econômicas e impasses externos indicam enfraquecimento da liderança americana e mudanças na correlação de forças global

    POR: Miguel Manso

    15 min de leitura

    Donald Trump desembarca de aeronave militar e é recebido por oficiais em base aérea nos Estados Unidos. Foto: Molly Riley/Casa Branca
    Donald Trump desembarca de aeronave militar e é recebido por oficiais em base aérea nos Estados Unidos. Foto: Molly Riley/Casa Branca

    “No King, No War, No Trump”
    MAGA ou MALA: Make America Lose Again?

    A guerra contra o Irã, iniciada em fevereiro de 2026, não trouxe a vitória esperada, nem rápida, imaginada por Washington. Para analistas, o impacto total do conflito para a economia americana — incluindo custos operacionais e de reposição — pode ultrapassar os US$ 200 bilhões e expor o governo Trump a um impasse estratégico.

    O Irã, civilização milenar, preparada para a resistência, demonstrou que seu poder não vem da força militar apenas, ao fechar o Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, mas do controle sobre um ponto de estrangulamento vital da economia global.

    O presidente americano chegou a ameaçar “destruir a civilização” iraniana, mas sua popularidade despencou para menos de 40%, enquanto enfrenta uma guerra sem rota de saída clara.

    + Carmona: Ataques ao Irã refletem nova estratégia global dos EUA

    Para Israel, abastecido por décadas com orçamento bilionário americano, o cenário também se complicou. Com gastos superiores a 3 bilhões de dólares por semana e com sua infraestrutura diariamente atingida por mísseis hipersônicos do Irã, o país já acumula uma dívida de mais de 15 bilhões de dólares, e suas defesas estão exauridas. Suas armas e a propalada superioridade tecnológica foram derrotadas pela tecnologia e competência iraniana.

    Embora 81% dos israelenses apoiem a guerra contra o Irã, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não conseguiu transformar esse respaldo em capital político. Sua coalizão aparece em desvantagem nas pesquisas para as eleições de outubro de 2026, e o premier enfrenta acusações de corrupção e desgaste por falhas de segurança. O conflito, que deveria fortalecer sua posição, pode acabar sendo um dos fatores de sua derrota eleitoral.

    Afastamento da União Europeia

    A relação transatlântica deteriorou-se significativamente para o eixo neofascista EUA e Israel. As tarifas de Trump e suas ameaças à Dinamarca (por causa da Groenlândia) levaram o Parlamento Europeu a recusar a ratificação de acordos comerciais com os EUA.

    A Alemanha, tradicional aliada, demonstrou “unidade rara” ao rejeitar as políticas de Trump. Espanha, França e Itália distanciaram-se e denunciaram a guerra. Esse distanciamento prejudicou a capacidade americana de mobilizar apoio internacional para a guerra no Irã, isolando ainda mais Washington.

    Tarifaço e suas consequências econômicas

    Um ano após o “Dia da Libertação”, o tarifaço de Trump elevou a taxa efetiva média de importação dos EUA de 2,5% para cerca de 10%, o nível mais alto em décadas. As consequências foram severas:

    • Custo para as famílias: cada lar americano perdeu em média US$ 1.000 em 2025, com projeção de US$ 1.300 para 2026.
    • Inflação: as tarifas, combinadas com o choque do petróleo, mantiveram a inflação acima da meta de 2% do Federal Reserve. O CPI (Índice de Preços ao Consumidor) pode chegar a 3,8% no segundo trimestre de 2026.
    • Desaceleração econômica: o PIB americano deve crescer apenas 1% em 2026, com as tarifas reduzindo o crescimento em 0,4 ponto percentual.
    • Receita aquém do prometido: os US$ 340 bilhões arrecadados com tarifas não compensaram os custos da guerra nem o aumento do déficit orçamentário.

    Aumento dos preços do petróleo e inflação global

    O fechamento do Estreito de Ormuz elevou o petróleo Brent de cerca de US$ 70 para mais de US$ 111 por barril. Esse choque energético está “alimentando a inflação” e gerando disrupções em cadeias de suprimentos globais. Países emergentes já enfrentam racionamento de combustível, enquanto o Fed projeta que a inflação só cairá para a meta de 2% após “se dissiparem os efeitos do aumento de tarifas e da alta dos preços do petróleo”.

    Fortalecimento do Dólar?

    O dólar, medido pelo índice DXY, subiu mais de 5% desde o início da guerra, impulsionado pela aversão ao risco e pela expectativa de que o Fed manterá juros elevados por mais tempo. No entanto, o índice permanece abaixo de 100 pontos, refletindo o ceticismo do mercado sobre a sustentabilidade da força americana.

    Reindustrialização nos EUA: promessa não cumprida

    Apesar das promessas de Trump de “milhões de novos empregos na manufatura”, os EUA perderam 120 mil postos de trabalho no setor nos últimos 14 meses. As tarifas encareceram insumos importados e não estimularam a produção doméstica como esperado. A própria Reshoring Initiative reconhece que as tarifas “tornaram mais caro construir nos EUA”. A reindustrialização não se concretizou.

    Cai a participação dos EUA nos mercados globais e produtos agrícolas

    O comércio global foi profundamente remodelado. As importações americanas da China caíram 30%, reduzindo a participação chinesa nas compras dos EUA de mais de 20% para menos de 10%. No setor agrícola, as exportações americanas devem cair para US$ 169 bilhões em 2026, o menor nível em cinco anos, com a fatia dos EUA no mercado global de grãos despencando para 16%.

    + A guerra chegou na agricultura brasileira

    Consequências para a América Latina e o Brasil

    A América Latina foi atingida de forma desigual. As tarifas médias para a região ficaram em 10%. Para o Brasil, as tarifas foram “mais brandas”, mas as exportações para os EUA caíram 21,3% no segundo semestre de 2025. Por outro lado, o Brasil redirecionou suas vendas para a China e outros mercados, mantendo um superávit comercial total de US$ 68,3 bilhões em 2025.

    Impacto nos bancos e fundos americanos

    Os grandes bancos americanos enfrentam um cenário de incerteza. O Fed manteve os juros na faixa de 3,50%-3,75%, sinalizando que “as implicações da guerra para a economia são incertas”. A volatilidade nos mercados e o risco de estagflação pressionam as instituições financeiras, que veem seus portfólios expostos a choques de energia e tarifas.

    Nova correlação de forças na geopolítica

    A guerra do Irã revelou o surgimento de um quarto polo de poder global. O controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz demonstrou que “o poder não deriva apenas da escala econômica e capacidade militar”. A ordem mundial centrada nos EUA, China e Rússia agora precisa acomodar um Irã que, mesmo sem grande força militar ou econômica, pode paralisar a economia global. Além disso, o desacoplamento EUA-China se consolidou definitivamente.

    Perspectiva eleitoral para EUA e Israel

    EUA: Trump enfrenta sua pior crise de popularidade, com apenas 36% de aprovação segundo pesquisa Reuters/Ipsos. Os democratas tiveram desempenho 13% melhor em eleições especiais de 2025, sinalizando uma possível “onda azul” nas midterms de novembro.

    Israel: Netanyahu, apesar do apoio à guerra, aparece atrás nas pesquisas para as eleições de outubro. Sua coalizão pode ser derrotada, encerrando uma era de domínio político do Likud.

    A conjuntura internacional de 2026 é marcada por uma guerra sem fim claro no Oriente Médio, um tarifaço que não entregou os resultados prometidos, uma economia americana estagnada com inflação persistente, e um realinhamento geopolítico que enfraquece a posição dos EUA no mundo. Tanto Trump quanto Netanyahu enfrentam riscos eleitorais significativos, enquanto o Irã emerge como um ator capaz de ditar os rumos da economia global.

    O mundo entrou em uma nova fase cujos desdobramentos ainda estão longe de se esgotar.

    MAGA ou MALA: Make America Lose Again?

    Após os fracassos e traumas no Vietnã e Coreia, nova derrota estratégica e militar assombra a Casa Branca e mobiliza milhões de americanos nas ruas de todas as cidades do país. Do ponto de vista do eleitorado americano que votou por prosperidade econômica, o resultado é MALA (Make America Lose Again, em tradução livre), em contraste irônico com o MAGA (Make America Great Again).

    O americano médio está carregando uma mala pesada, no supermercado e no posto de gasolina. A inflação corrói o salário real. O fazendeiro americano está mais endividado e perdendo mercado e competitividade, porque a China e a UE estão comprando do Brasil e da Argentina. O tarifaço não trouxe a indústria de volta; trouxe retaliação e perda de market share agrícola. O Brasil e a Austrália ocuparam o vácuo deixado pelos EUA na soja e na carne.

    A recusa do Parlamento Europeu em ratificar acordos e o distanciamento da Alemanha mostram uma América perdedora no jogo da diplomacia ocidental.

    Perda do controle geopolítico: o Irã, um país com PIB menor que o estado de Nova York, destruiu a força política e militar dos EUA e Israel, fechou Ormuz e os EUA não conseguiram reabrir. A correlação de forças está menos centrada em Washington.

    Laços com aliados se romperam: a “relação especial” com a Europa está mais desgastada do que nunca. A confiança na liderança americana se desfez.

    A política de Trump não está fazendo a América Grande novamente. Está fazendo a América Cara, Isolada e Instável. Para o mundo, a guerra e as tarifas desorganizam as cadeias globais e pressionam a inflação de todos.

    Para os EUA: é Make América Lose Again. O dólar se enfraqueceu como reserva de valor, enfraqueceu sua pujança econômica, pequena valorização, mas por medo (flight to safety). É um dólar de quem está no bunker, não de quem está liderando o progresso.

    Trump prometeu MAGA (Grandeza), entregou MALA (Perdedores) e o resultado final é uma América mais LOSER – Perdedora e mais isolada no cenário global.

    “No King, No War, No Trump”: cresce a revolta nos EUA

    O colapso da popularidade: um presidente encurralado

    A legitimidade de qualquer governo reside na confiança popular, e a de Donald Trump está desabando. Sua taxa de aprovação nacional despencou para apenas 33%, uma queda de 11 pontos percentuais em menos de um ano. O dado mais alarmante para o Palácio Republicano é que 62% dos americanos desaprovam seu governo. Essa é a novidade, a “revolta”: uma maioria silenciosa que se tornou uma maioria ruidosa.

    Grito das ruas: a materialização do “No King, No War, No Trump”

    A insatisfação saiu das pesquisas e tomou as ruas de forma massiva e organizada.

    Em março, o movimento “No Kings” (Sem Reis) realizou sua terceira e maior onda de protestos, reuniu cerca de 8 milhões de pessoas em mais de 3.300 atos pelos 50 estados americanos e em várias cidades do mundo. Os protestos continuam ativos, com mais de 60 atos anti-guerra acontecendo em abril.

    As vozes da oposição nas ruas são diversas. Veteranos de guerra que sentem a Constituição ameaçada, cidadãos comuns cansados da perseguição aos imigrantes e piora da economia, ativistas que denunciam abertamente um “golpe de poder” presidencial.

    Guerra rejeitada: a fagulha da revolta

    A guerra contra o Irã é o centro da tempestade. Apesar dos esforços de propaganda, o conflito é profundamente impopular. Uma pesquisa da Reuters/Ipsos mostrou que apenas 27% dos americanos apoiam os ataques, enquanto a maioria (57%) acredita que a guerra está indo mal para os EUA. Esse cenário cria um ciclo vicioso: a guerra alimenta a revolta, que por sua vez isola ainda mais o governo.

    Fracasso do “tarifaço” e a economia que sangra

    A revolta não é só ideológica, é também econômica. O “tarifaço” de Trump e a guerra elevaram o petróleo e causaram disrupções nas cadeias de suprimentos. O resultado é uma inflação persistente e uma sensação de que a economia está piorando para 48% dos norte-americanos. A promessa de “Make America Great Again” se traduz, para muitos, em um custo de vida mais alto.

    Combate ao autoritarismo percebido

    A mensagem “No Kings” vai além da retórica. Críticos apontam para uma série de ações que configurariam um autoritarismo velado. Desrespeito a ordens judiciais e uso excessivo de ordens executivas para contornar o Congresso. Ameaças de declarar “emergência nacional” para manipular as regras eleitorais, sob o pretexto de combater uma suposta fraude. Um estilo de governo baseado no confronto e na lealdade pessoal, que mina as instituições democráticas.

    Horizonte eleitoral: um partido em pânico

    A revolta popular é um prenúncio do que pode acontecer nas eleições legislativas de novembro de 2026. Os sinais são catastróficos para o Partido Republicano: O entusiasmo dos eleitores democratas é 14 pontos percentuais maior que o dos republicanos, um abismo histórico que pode resultar em uma “onda azul”. A certeza de voto entre os democratas (79%) é muito superior à dos republicanos (65%). A insatisfação atinge até mesmo a base fiel: 41% dos eleitores que votaram em Trump acham que o governo entregou menos do que o prometido.

    O mundo reage: isolamento e oportunismo

    A crise americana tem reflexos globais. O isolamento dos EUA abre espaços que são rapidamente ocupados por outros atores. Para o Brasil, o cenário é ambíguo:

    • Impactos negativos: a guerra e as tarifas pressionam o preço dos combustíveis e fertilizantes, ameaçando a inflação e o crescimento econômico brasileiro (que já está projetado para desacelerar a 1,8% em 2026).
    • Oportunidades: o Brasil pode se beneficiar do enfraquecimento das relações comerciais entre EUA e UE e do redirecionamento de fluxos de comércio, especialmente no setor agrícola.

    + Elias Jabbour: O que o Brasil pode aprender com a guerra no Irã?

    A revolta “No King, No War, No Trump” não é um evento isolado, mas o sintoma de uma democracia sob estresse e de um país que vê suas lideranças, suas guerras e sua economia se afastarem cada vez mais dos interesses do seu povo. A pergunta que fica é se as instituições americanas serão fortes o suficiente para processar essa crise ou se a “revolta” marcará o início de uma nova era política.

    BRICS+ se fortalece

    Reação ao “tarifaço” e a guerra pelo petróleo: o impulso para a coesão e ampliação

    Se a guerra é ameaça, as tarifas e chantagens de Trump unem o BRICS em uma frente comum de oposição.

    Em março de 2026, Trump prometeu uma tarifa extra de 10% a qualquer país que se “alinhasse com políticas anti-americanas do BRICS”.

    A resposta unificada: em sua cúpula no Rio, os líderes do bloco reagiram com uma mensagem clara, classificando as tarifas como “indiscriminadas”, “ilegais” e “arbitrárias”. Alertaram que tais medidas “enfraquecem o comércio global e desaceleram o crescimento econômico mundial”.

    + Brasil, BRICS+ e as rotas que irritam Trump

    Comércio e desdolarização: entre o desejo e a realidade

    A crise americana acelerou a tendência de “desacoplamento” e a busca por alternativas ao dólar, mas com obstáculos significativos.

    • Redirecionamento do comércio: o comércio entre EUA e China continua a diminuir. Em contrapartida, a China aprofunda seus laços comerciais com outras nações do BRICS+ e do Sul Global, tornando-se a maior parceira comercial dessa região.
    • Avanço prático: a desdolarização não é mais apenas retórica. Estima-se que mais de 60% do comércio dentro do BRICS já seja liquidado em moedas locais. Uma iniciativa-chave é a proposta do banco central da Índia (RBI) de interligar as Moedas Digitais de Banco Central (CBDCs) dos países-membros para facilitar pagamentos sem o uso do dólar.

    Relevância geopolítica: o peso de um bloco em expansão

    A crise americana coincide com um momento de notável crescimento institucional do BRICS.

    • Expansão estratégica: o bloco, agora conhecido como BRICS+, cresceu significativamente. Nações como Indonésia tornaram-se membros plenos, e outras 22 demonstraram interesse em aderir, consolidando o grupo como a voz de cerca de 40% da população mundial. A adesão do Irã é vista por Teerã como um movimento que agrega “valor para ambos os lados”.
    • Financiamento autônomo: o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o “Banco do BRICS”, continua a expandir sua atuação, tendo aprovado mais de US$ 30 bilhões em financiamento de projetos, incluindo iniciativas em moeda local, como um empréstimo de US$ 100 milhões em yuan para Xangai.

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    Na sequência, o artigo analisa como ouro, petróleo e terras raras se tornam instrumentos centrais de poder e soberania, em meio à erosão da hegemonia do dólar e à reorganização da economia global.

    Leia a versão integral do texto: NO KING NO WAR NO TRUMP

     


    Miguel Manso é pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Desenvolvimento Nacional e Socialismo da Fundação Maurício Grabois. Engenheiro eletrônico formado pela USP, com especialização em Telecomunicações pela Unicamp e em Inteligência Artificial pela UFV. É diretor de Políticas Públicas da EngD – Engenharia pela Democracia.

    *Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pelo autor não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.