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    Socialismo

    Endossimbiose política da esquerda: da luta de classes à gestão da ordem

    A partir de conceito da biologia, artigo analisa como setores progressistas deixaram de atuar como força de ruptura histórica para assumir papel funcional na dinâmica que antes pretendiam superar

    POR: Luciano Rezende Moreira

    8 min de leitura

    Manifestantes protestam contra a política de juros altos diante do Banco Central. Brasília, 20/06/2023. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil.
    Manifestantes protestam contra a política de juros altos diante do Banco Central. Brasília, 20/06/2023. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil.

    A endossimbiose política da esquerda no capitalismo

    (Da luta de classes à gestão da ordem)

    Há uma hipótese incômoda, porém cada vez mais difícil de ser ignorada, segundo a qual a esquerda, em grande parte de suas expressões contemporâneas, deixou de operar como força de ruptura histórica para assumir um papel funcional dentro da própria dinâmica que outrora pretendia superar. Não se trata apenas de um recuo estratégico ou de uma adaptação tática às circunstâncias, mas de uma transformação estrutural de sua natureza política que vem ocorrendo nas últimas décadas.

    Para compreender esse processo, é útil recorrer a uma analogia biológica da teoria da endossimbiose. Em algum momento remoto da história da vida, organismos primitivos englobaram (fagocitaram) bactérias que, em vez de serem digeridas, passaram a viver no interior de suas células. Essas bactérias, ao longo do tempo, perderam sua autonomia e se transformaram em organelas (as mitocôndrias) responsáveis por funções essenciais à sobrevivência da célula hospedeira.

    O que inicialmente poderia ser interpretado como uma captura ou assimilação unilateral revela-se, retrospectivamente, como uma relação de integração funcional. A bactéria deixa de existir como entidade independente e passa a operar como parte constitutiva de um sistema maior, contribuindo para sua estabilidade e eficiência. A trajetória recente da esquerda institucional parece seguir uma lógica parecida.

    A esquerda deixa de formular projetos que transcendam o sistema e passa a otimizar seu funcionamento sob parâmetros considerados socialmente mais justos. Em vez de questionar a lógica da acumulação, busca regulá-la; em vez de desestabilizar as relações de poder, procura administrá-las de maneira menos desigual. O antagonismo cede lugar à homeostase.

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    Historicamente concebida como força antagônica ao capitalismo, portadora de um horizonte de superação radical das relações de produção e das formas de dominação social, a esquerda gradualmente se deslocou para dentro dos marcos do sistema que criticava. Esse deslocamento não se deu apenas no plano discursivo, mas também nos planos organizacional, programático e simbólico.

    Ao ingressar de forma duradoura nas estruturas do Estado e nos mecanismos de gestão da economia capitalista, a esquerda passou a operar sob condições previamente dadas, como limites fiscais, imperativos de crescimento, estabilidade dos mercados e exigências de governabilidade institucional. Nesse contexto, sua ação política tende a assumir a forma de mediação (gestão de conflitos, redistribuição marginal de recursos, mitigação de crises etc.), em detrimento de transformações estruturais. Como na endossimbiose, observa-se um processo de perda de autonomia. Mais do que isso, tal como a mitocôndria, a esquerda passa, em certo sentido, a funcionar como condição de respiração do próprio capitalismo.

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    Nesse deslocamento, a centralidade da luta de classes, tal como formulada por Marx, para quem a história das sociedades é, em última instância, a história dos conflitos entre classes antagônicas, cede espaço a estratégias de conciliação entre interesses estruturalmente inconciliáveis. O antagonismo entre capital e trabalho não desaparece, mas é progressivamente recoberto por práticas políticas que buscam administrá-lo dentro de limites institucionais.

    À luz de Gramsci, esse movimento pode ser lido não como realização plena da hegemonia, mas como sua inflexão, uma vez que, para o autor, a construção hegemônica implicava direção intelectual e moral orientada à transformação das relações sociais, ao passo que o que se observa, em muitos casos, é a redução desse horizonte a uma gestão do consenso. A disputa pela direção da sociedade cede lugar à administração de equilíbrios, e a hegemonia, em vez de instrumento de transformação, converte-se em mecanismo de estabilização.

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    Isso não implica necessariamente uma capitulação consciente ou um abandono deliberado de princípios. Pelo contrário, muitas vezes esse movimento é justificado como “análise concreta da situação concreta”, responsabilidade histórica ou necessidade de evitar retrocessos maiores. No entanto, o efeito agregado é uma reconfiguração do papel histórico da esquerda, ou seja, de agente de transformação para componente funcional do sistema.

    É nesse ponto que a noção recorrente de “correlação de forças desfavorável” se impõe como justificativa quase permanente para o adiamento de rupturas mais profundas. Invocada como diagnóstico realista das condições históricas, ela frequentemente opera como limite internalizado da própria ação política. No entanto, cabe perguntar se tal desfavor não constitui precisamente a regra do jogo em sociedades capitalistas, nas quais os mecanismos econômicos, institucionais e ideológicos tendem a estabelecer, de antemão, as fronteiras do possível.

    Se assim for, a estratégia de “acumulação de forças”, concebida como preparação para um momento futuro de transformação, corre o risco de se converter em um horizonte indefinidamente adiado. Mais ainda, ao atuar de forma continuada dentro desses marcos, não estaria a esquerda contribuindo, ainda que involuntariamente, para a reprodução e estabilização do próprio sistema que pretende superar? Nesse caso, a acumulação de forças deixaria de apontar para a ruptura e passaria a operar como mecanismo de prolongamento da ordem vigente.

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    Tal como a mitocôndria, que desempenha um papel vital na respiração celular, a esquerda contemporânea frequentemente contribui para a reprodução do próprio capitalismo, garantindo sua estabilidade social, absorvendo tensões e oferecendo respostas institucionais a demandas que poderiam, em outras circunstâncias, assumir formas mais disruptivas.

    A analogia, evidentemente, não é perfeita. Diferentemente de organismos biológicos, formações políticas são atravessadas por disputas internas, contradições e possibilidades de reconfiguração. A incorporação não é total nem irreversível. Persistem, em diferentes escalas, práticas, movimentos e correntes que resistem a essa lógica de integração.

    Ainda assim, a imagem da endossimbiose permite iluminar um aspecto crucial do presente: a transformação de uma força histórica de ruptura em um elemento de estabilização sistêmica.

    A questão que se impõe, portanto, não é apenas descritiva, mas estratégica: é possível reverter esse processo? Pode a esquerda recuperar sua autonomia sem abrir mão da eficácia política no interior das instituições? Ou a participação prolongada nos marcos do capitalismo implica, inevitavelmente, sua assimilação funcional?

    Se a integração ao sistema redefine o papel da esquerda como instância de mediação, a ruptura com esse movimento não pode ser apenas discursiva. Ela exige a reconstrução de formas de organização que não estejam estruturalmente subordinadas aos limites da ordem vigente. Isso implica retomar a independência de classe não como retórica, mas como critério de prática política, a partir do qual a participação institucional deixa de ser um fim em si mesmo e passa a ser subordinada a uma estratégia de transformação. Nesse quadro, a acumulação de forças só faz sentido se orientada não para a estabilização do sistema, mas para a criação de condições efetivas de ruptura.


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    A história da vida ensina que relações simbióticas podem ser extraordinariamente estáveis e, justamente por isso, difíceis de romper. Quando a integração se consolida, a autonomia deixa de ser uma condição dada e passa a se tornar um problema histórico a ser reconstruído. Nesse sentido, o desafio contemporâneo da esquerda talvez não seja apenas resistir ao sistema, mas reaprender a existir fora dele.

    Luciano Rezende Moreira é professor titular do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Doutor e mestre em Ciências Agrárias é graduado em Agronomia, Geografia, Administração Pública e Letras.

    Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.

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