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    China

    Elias Jabbour: por que debato com figuras da extrema-direita no YouTube?

    Além de dar visibilidade para pautas de esquerda, confrontos de ideias expõem a extrema-direita do ponto de vista intelectual, cultural e comportamental

    POR: Elias Jabbour

    14 min de leitura

    Elias Jabbour durante debate com Pablo Marçal. Foto: Reprodução
    Elias Jabbour durante debate com Pablo Marçal. Foto: Reprodução

    Nesta coluna, comentarei minha participação em debates, especificamente no programa “20 contra um” do canal Spectrum. Muitas pessoas perguntam por que aceito participar desse tipo de evento, sentando-me em uma cadeira rodeado por 20 pessoas que pensam de forma completamente diferente de mim. Iniciamos uma troca de ideias sem regras definidas, o que resulta em grande dificuldade para expor argumentos e dialogar, devido às interrupções constantes.Tenho dificuldades pessoais nesses episódios, pois minha mente é programada para não interromper o outro. Tento ser educado e evitar conflitos, o que acaba sendo prejudicial nesse formato de debate.

    Diferente de mim, Jones Manoel possui um estilo que se impõe sobre os adversários, saindo-se muito melhor nesse aspecto. É importante mencionar minha neurodivergência, que é funcional para certas áreas da minha vida, mas disfuncional para esse tipo de confronto. Meus interlocutores utilizam um formato de debate típico da extrema-direita estadunidense, popularizado no Brasil por figuras como Pablo Marçal, que consiste em saturar o oponente com perguntas sucessivas. Você não consegue responder e aquilo leva a um colapso mental. No meu caso, por exemplo, preciso regular minha mente de tempos em tempos para continuar minhas atividades diárias, isso exige muito. Queria deixar isso claro, pois é por esse motivo que tenho feito um trabalho de conscientização sobre a neurodivergência, já que também enfrentamos esse tipo de dificuldade.

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    Essa é a minha dificuldade em particular. Podem continuar me perguntando por que participo desse tipo de debate. Quando a oportunidade apareceu, aceitei pelo simples motivo de ser uma oportunidade de realizar um trabalho político, ou seja, uma extensão da minha militância através desse confronto. É também um momento de debate de ideias no qual me coloco em condição de expor meus interlocutores, que foi o que aconteceu. Se, por um lado, minhas dificuldades de fala e gagueira me impedem de interromper — pois não consegui modular minha mente para esse formato de debate — por outro, na medida em que eles falam sem parar, acabam dizendo muita besteira. Quem assiste ao debate se depara com pessoas de nível cultural baixíssimo e arrogância imensa, querendo discutir o capitalismo sob a ótica do microempreendedor individual ou do padeiro, quando, na verdade, o capitalismo trata de poder e monopólio. Esse é o argumento principal que tenho levado para esses encontros.

    Utilizei esse mesmo argumento no debate com Renata Barreto e com o deputado Léo Siqueira. Ambos partem de pressupostos semelhantes sobre um capitalismo de pequenas e médias empresas, típico da Revolução Industrial, ignorando o processo prévio de centralização de capital. Isso virou um mito na cabeça deles. Economistas neoclássicos e a Escola Austríaca trabalham com a hipótese de que o monopólio e o oligopólio são “falhas de mercado”, quando, na realidade — como Marx colocava —, a concentração e centralização do capital são leis de tendência do sistema.

    Na verdade, monopólios e oligopólios são uma regra de mercado. Exponho essa tese que, na economia heterodoxa, é um conceito clássico e acabou sendo aceito de uma forma ou de outra, pois a realidade se impõe: o mundo é feito de monopólios e oligopólios. Os Estados nacionais vivem diante da necessidade de manter esses monopólios e, inclusive, vão à guerra por eles. Este é o ponto fundamental: ninguém vai à guerra apenas porque ela dá lucro, os países guerreiam para proteger seus mercados e conquistar outros.

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    Comentei com um dos participantes sobre a questão do padeiro e do açougue. O argumento apresentado era de que alguém começa como padeiro, torna-se gestor e depois dono de uma rede de comércios, associando isso à liberdade econômica. Respondi que ele estava tratando de outro assunto e pedi que não colocasse palavras na minha boca. Não sou contra a lei da oferta e demanda, nem contra a existência de padarias. De fato, na base do capitalismo existem milhares de pequenos empresários, mas as próprias crises do sistema levam a um processo de concentração ou centralização do capital.

    Portanto, a tendência é que o pequeno negócio desapareça. Isso não é uma opinião minha — como se diz, quem tem opinião é jornalista — é algo que a ciência já demonstrou. Nesse tipo de debate, ao deixar os oponentes falarem, acabo expondo-os ao ridículo. Nos comentários do programa, a disparidade de opiniões sobre quem venceu o debate é evidente. Houve também o choque em relação à realidade sobre se o livre comércio leva ao desenvolvimento. Os Estados nacionais já surgem como polos de poder, utilizando a dívida pública como forma de criar demanda e expandir o poder de Estado.

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    A partir da dívida pública, a Inglaterra formou o seu grande monopólio marítimo. O monopólio, por si só, já é um produto de ação estatal direta. Além disso, o processo de desenvolvimento desigual gera uma tendência em que países ricos criam uma riqueza industrial robusta, enquanto existe uma periferia pobre que não se tornará desenvolvida praticando apenas o livre-comércio.

    Isso ocorre devido à lei das vantagens comparativas de David Ricardo, que sugere que um país alcança riqueza ao se especializar na divisão internacional do trabalho naquilo que é mais capaz de fazer. No caso do Brasil, seria aproveitar a abundância de terra, água e sol para se especializar em commodities agrícolas, enquanto a Europa e o Norte Global se especializam em manufaturas. Essa dinâmica leva à deterioração dos termos de troca e à radicalização das relações entre centro e periferia, ao contrário da suposta harmonia internacional onde todos se desenvolveriam.

    Meus interlocutores se apegam a exemplos como Austrália, Nova Zelândia e Chile para afirmar que a abertura comercial gera prosperidade. Contudo, são países de população muito pequena. O caso do Chile é paradigmático: apesar da especialização em commodities (vinho, madeira, ferro), o país sofre com uma concentração de renda absurda e colapsou socialmente. O ponto central é que o Brasil, com 220 milhões de habitantes, não conseguirá gerar renda suficiente para manter essa massa de pessoas sem industrialização, empregos de qualidade e escala de produção. Sem competir internacionalmente, o país será engolido. Acredito que as contradições do capitalismo levarão ao seu colapso e à sua superação pelo socialismo.

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    No debate, não souberam responder a essas questões e desviaram o assunto para o “padeiro” ou para o índice de liberdade econômica. Esse índice, usado pela Escola Austríaca e pelo Instituto Mises, beira o ridículo e não é levado a sério por grandes instituições como o FMI e o Banco Mundial, embora as pessoas o repitam sem critério.Trato de Estados nacionais que possuem relevância no cenário internacional e que alcançaram um altíssimo grau de complexidade econômica. É absurdo quando utilizam os países nórdicos como contra-argumento, pois Suécia e Noruega são altamente industrializados, com um nível de concentração de capital muito grande em setores específicos, como o elétrico.

    A Nokia é um exemplo interessante, assim como o caso da Noruega, que utiliza seu gigantesco fundo soberano de petróleo para desenvolver sua indústria. A Suécia desenvolveu-se significativamente na esteira da divisão internacional do trabalho da época, sendo fornecedora de produtos industriais para a Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial. A Dinamarca, por sua vez, é uma potência com um gigantesco complexo industrial na área da saúde. Todos esses são países altamente industrializados que não o seriam sem a participação do Estado.

    Aqui entra outro ponto do debate que beira o ridículo: acreditar que Steve Jobs surgiu apenas por ser um gênio em uma sociedade de mercado. A sociedade está cheia de pessoas com a mesma capacidade intelectual de Jobs, inovando em startups e oferecendo produtos interessantes. No entanto, o surgimento da Apple como empresa só foi possível graças a programas de financiamento e à geração de demanda provenientes do complexo industrial-militar dos Estados Unidos. A Apple não existiria sem o Estado, pois empresas desse porte só sobrevivem graças à demanda criada por compras governamentais. Os Estados Unidos e a China são os países que mais utilizam compras governamentais, na casa dos trilhões de dólares, para financiar ciência, tecnologia e inovação de ponta. É esse processo que permite que uma pequena empresa de garagem se transforme em uma gigante. Portanto, não existiria capitalismo sem o Estado, pois a moeda, o mercado, as instituições e o exército — necessários para a manutenção desse modo de produção — são criações estatais.

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    As instituições capitalistas são criações estatais. A Revolução Industrial, por exemplo, foi precedida por cem anos de inovações institucionais pós-Revolução Puritana, que criaram as condições para o surgimento do capitalismo industrial e para o financiamento de longo prazo na Inglaterra, como ocorreu com o Banco da Inglaterra. Afirmar a importância do Estado não é uma questão de preferência pessoal, mas uma constatação científica.

    Infelizmente, nos debates, os interlocutores fogem dessas questões fundamentais para repetir que o Estado é apenas um empecilho. É triste notar a falta de qualidade da direita brasileira atual: nas décadas de 1980 e 1990, existia uma direita ilustrada e letrada, como Marco Maciel e Zé Thomaz Nonô, com quem era possível dialogar. Atualmente, o campo descambou para um nível de irracionalidade que ignora a produção científica e demonstra desprezo pela universidade e pelo conhecimento. Renata Barreto, por exemplo, tornou-se um símbolo desses liberais de redes sociais que não possuem produção científica e usam a internet apenas para validar as próprias ideias. Eles detêm a hegemonia digital porque ocuparam esse espaço dez anos antes de nós, contando com o auxílio de vultosos financiamentos de ONGs estrangeiras de extrema-direita. Por isso, deixo meu reconhecimento a nomes como Jones Manoel, Humberto Matos e João Carvalho, que estão nessa batalha pesada desde 2014 para ocupar um território que a esquerda só começou a disputar agora.

    O debate com a Renata Barreto foi icônico por representar a primeira vez que uma figura da extrema-direita foi publicamente derrotada em um debate. Desde então, consolidou-se uma trajetória de enfrentamentos na qual Jones Manoel se destaca como o maior debatedor do nosso campo atual: ele é um intelectual de peso que domina técnicas de imposição que eu, pela minha excessiva educação, tenho dificuldade em exercer. Jones, ao lado de Humberto Matos e Gustavo Machado, tem sido fundamental para desmascarar diversos adversários. Neste último debate, ficou evidente a falta de cultura, a agressividade e o ódio dos interlocutores. Minha tendência de deixá-los falar acabou servindo para que eles se expusessem ainda mais.

    Anne Dias, embora seja uma figura com quem mantenho cordialidade, tentou me confundir ao levantar diversos pontos simultâneos. Contudo, ela acabou cometendo um erro histórico. Ela não sabia que o Barão de Mauá quebrou por conta da abertura comercial brasileira. Ao dizer que é contra o empresário, mas a favor do capitalismo e do livre-mercado, ela criou uma contradição que virou meme: é como dizer “sou contra o senhor de escravos, mas a favor da escravidão”. Apontei essa inconsistência na hora e ela ficou na defensiva.

    Além disso, há uma ignorância sobre o fato de que os liberais já foram revolucionários no passado. Um exemplo é John Locke, um grande pensador liberal que, historicamente, ganhava dinheiro com a escravidão. Sobre a China, o relatório da ONU que ela cita é altamente inconclusivo. A própria Michelle Bachelet foi criticada por visitá-la, sob a alegação de que a China estaria encenando para ela. A China possui centros de reeducação que seguem metodologias semelhantes aos da França, mas ninguém critica os franceses. Ela insistiu na tese do trabalho escravo, mas para falar da China é preciso conhecê-la e visitá-la, é uma sociedade com um funcionamento distinto.

    Ao chegar no aeroporto ou nas estações de trem de Xinjiang, vê-se evidências de que não há genocídio cultural, pois as inscrições em caracteres árabes — usados pelos uigures — estão presentes em todo lugar, e a língua uigur é falada livremente nas ruas. Quem levanta a hipótese de trabalho escravo é Adrian Zenz, um indivíduo de extrema-direita que nunca esteve na China. O relatório dele é inconclusivo, baseado em um único artigo publicado em uma revista financiada pela OTAN. Ele menciona números imprecisos, variando de 200 mil a 2 milhões de encarcerados, o que demonstra falta de rigor.

    Os dados que ela trouxe são muito imprecisos e demonstram um desconhecimento absurdo. Afirmar que o algodão de Xinjiang é fruto de trabalho escravo ignora que 98% da colheita é mecanizada, utilizando inclusive máquinas com inteligência artificial que não precisam de motorista. Como alguém se propõe a debater com esse nível de informação? Além disso, ficou evidente no comportamento dela algo que também vi na Renata Barreto: o ódio. Enquanto nós, marxistas e comunistas, temos um ódio de classe pautado em estratégia e tática — podendo até fazer alianças pontuais com setores da burguesia para enfrentar um inimigo principal —, eles possuem um ódio generalizado ao povo e a tudo o que não lhes agrada.

    É interessante observar quando uma participante trans de direita questiona a situação de trans e gays na China e todos se comovem. No entanto, ignoram o que a própria direita brasileira realmente pensa sobre a população LGBT e o tratamento que dispensam a esse grupo no Brasil.Anne levou às últimas consequências a tática clássica da direita estadunidense, também utilizada por Pablo Marçal: saturar o oponente com perguntas sem permitir a resposta. Em um trecho, ela falou por 11 minutos e eu tive apenas dois para tentar responder. Preciso trabalhar minhas dificuldades nesse sentido, mas a vida segue.

    Esses debates são positivos porque nos dão visibilidade e expõem o quão ridícula é a extrema-direita do ponto de vista intelectual, cultural e comportamental. A falta de educação e de cultura deles é chocante e beira o absurdo. Estar lá serviu para aumentar nosso alcance e levar nossa palavra a mais pessoas. Embora o formato se aproxime do entretenimento e eu prefira debates com tempos definidos para não entrar em ‘barcas furadas’, foi uma experiência importante que eu não poderia deixar de comentar.

    Assista a íntegra do programa Meia Noite em Pequim com Elias Jabbour

    Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.

    *Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 29/04/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundaçãa Maurício Grabois.

     

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