Esperei um pouco para tratar deste assunto, pois uma análise assim não deve ser feita no calor do momento. Agora, é possível realizar uma abordagem mais profunda sobre o fenômeno da relação entre o Banco Master, de Daniel Vorcaro, e Flávio Bolsonaro. Meu objetivo é desvendar a base material do bolsonarismo até chegarmos a essa ligação específica e ao papel da instituição financeira nesse contexto. Para entender o cenário, precisamos retornar ao golpe de 2016, que representou uma mudança fundamental no bloco de poder do país. Frações do capitalismo brasileiro foram retiradas do comando e, em seu lugar, entraram outros setores, notadamente uma parte do capital financeiro representada por bancos de investimento como o BTG Pactual e o Banco Master. Além disso, retornou ao poder o capital mercantil de importação e exportação, a chamada “burguesia compradora”, cuja maior expressão é Luciano Hang. Esse setor não produz, mas lucra com a precarização do trabalho.
Essa nova configuração de poder gerou a necessidade das reformas trabalhista e da previdência. A reforma da previdência visava atender a interesses do mercado financeiro em abocanhar cerca de um trilhão de reais do mercado público. É nesse contexto de compreensão da base material do fascismo no Brasil que devemos entender a retirada da ex-presidenta Dilma Rousseff e do PT do governo para a entrada de Michel Temer, abrindo caminho para o bolsonarismo.
Existe também um elemento externo central: os Estados Unidos. O financiamento do filme Dark Horse (O Azarão) saiu do Brasil diretamente para lá. Foi nos Estados Unidos que se arquitetou o plano de destruição da nossa base material de construção civil e indústria pesada, operado pela Lava Jato e pelo Departamento de Justiça americano. Essa operação serviu tanto para remover o PT em 2016 quanto para viabilizar a ascensão de Bolsonaro.
+ Flávio Bolsonaro quer entregar terras raras do Brasil aos EUA
+ Hollywood bolsonarista: Dark Horse e o ódio ao cinema brasileiro
+ Medida de Trump contra CV e PCC vai além do combate às facções
Os Estados Unidos funcionam como sede para quase todos os envolvidos na tentativa de golpe de janeiro de 2023, tendo Miami como destino principal. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, opera em solo americano contra os interesses brasileiros, chegando a se colocar como intermediário obrigatório para qualquer diálogo com Donald Trump. Os Estados Unidos são, portanto, centrais na análise do escândalo que envolve o Banco Master e da base material que sustenta o fascismo no Brasil.
Tudo na vida possui uma totalidade entre elementos internos e externos, e a relação dessa instituição com o bolsonarismo é parte desse todo complexo. Há uma aliança de extrema-direita mundial, configurada desde a segunda metade da década passada, que hoje se manifesta em diversos cenários. Vemos isso em Honduras e na Bolívia, onde movimentos ligados a essa “Internacional” de direita tentam desestabilizar governos, além da atuação de ativistas que operam a mando dos interesses americanos.
Essa rede internacional inclui a entidade sionista que ocupa a Palestina histórica e governos de extrema-direita, como o do Paraguai, além da forte atuação de Eduardo e Flávio Bolsonaro no Brasil. Existe uma organização internacional que sistematiza esses interesses globalmente, o que torna o elemento externo fundamental para a nossa análise. Outro ponto relevante é a reforma da previdência realizada por Jair Bolsonaro e operada por Paulo Guedes.
+ Um novo Fórum Social Mundial para um novo tempo
+ Fundação Grabois promove seminário sobre capitalismo e desafios do Brasil
Embora eu não possa provar, há relatos de que ele teria lucrado 1 bilhão de reais nessa história. Os grandes beneficiários dessa reforma são fundos administrados por bancos como o Master, o Bradesco e o Itaú. Trata-se de frações de capitais do sistema financeiro que chegaram ao poder com o golpe de 2016, representadas inicialmente pelo BTG Pactual e, agora, por esse esquema que envolve o Banco Master.
No Rio de Janeiro, 1 bilhão de reais do Fundo de Servidores Públicos foi parar em fundos administrados pelo Banco Master, e o mesmo ocorreu com o BRB em Brasília. Isso faz parte de um esquema de compra de ativos públicos para conferir legitimidade a uma instituição financeira que funciona como um grande esquema de pirâmide. Embora o sistema financeiro em geral guarde semelhanças com esse modelo, o Banco Master foi longe demais.
Caixa do fascismo
Esses pontos são fundamentais para analisar o que chamo de “caixa do fascismo”. As operações de guerra híbrida e o uso de big techs a partir dos Estados Unidos para subverter nossa capacidade de pensar e nos manter prostrados diante do sistema custam muito dinheiro. A operação do Banco Master revela um grande esquema financeiro orientado ao financiamento do fascismo no Brasil. Como exemplo desse movimento, o dinheiro enviado aos Estados Unidos parece ter sido utilizado tanto para a compra de uma mansão de 3,5 milhões de dólares para Eduardo Bolsonaro quanto para o financiamento de um filme de mais de 130 milhões de reais. Este valor é completamente irreal para os padrões do cinema brasileiro, superando em muito produções de renome indicadas ao Oscar.
A ligação de Flávio Bolsonaro para Daniel Vorcaro demonstra uma relação de extrema intimidade. Flávio cobra 60 milhões de reais em parcelas, falando de forma subordinada e utilizando códigos. Até o momento, não está provado que essa quantia tenha sido destinada apenas ao filme. Ninguém solicita valores dessa magnitude por telefone sem uma proximidade absoluta, especialmente considerando o risco de monitoramento pelo COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). Isso reflete como esse grupo lida com grandes operadores financeiros.
Negociações de grandes volumes de dinheiro podem atrair a atenção do COAF quando realizadas formalmente. Em uma relação de negócios convencional, uma cobrança dessa magnitude seria feita em termos técnicos e adequados, e não através de uma conversa telefônica informal. Flávio Bolsonaro não demonstrou qualquer parcimônia em cobrar diretamente os 60 milhões de reais em uma ligação telefônica, o que revela uma relação de muita proximidade entre ele e Daniel Vorcaro.
Não faço aqui um julgamento moral — acredito que as pessoas têm o direito de se relacionar com quem desejarem, e eu mesmo convivo com indivíduos de diversos espectros políticos — mas o que se observa é uma clara intimidade entre dois operadores de um grande negócio. Vorcaro atua como chefe de uma organização criminosa, e Flávio Bolsonaro se reporta a ele de maneira submissa, cobrando o dinheiro sem qualquer parcimônia. Este empreendimento é gerido por uma empresa criada às pressas, que nunca produziu um filme anteriormente. É extremamente suspeito que um filme de 130 milhões de reais, valor que supera produções brasileiras indicadas ao Oscar, seja financiado por meio de uma empresa sem histórico no mercado.
+ Ainda Estou Aqui, filme brasileiro no Oscar, é um chamado sensível por Memória e Verdade
+ O Agente Secreto não é um filme sobre o passado, mas sobre o presente
+ Prisão de Bolsonaro reforça necessidade de frente ampla em 2026, avalia Nádia Campeão
O fato de o executivo dessa empresa ser Eduardo Bolsonaro é um ponto fundamental que deve ser conectado aos demais. Meu objetivo não é simplesmente acusar, mas sim ligar os pontos gerais e específicos para explicar a base material do fascismo no Brasil. Refiro-me àquela fração do capital financeiro que chegou ao centro do poder com o golpe de 2016 e que se tornou o sustentáculo fundamental desse movimento no país. Além disso, descobriu-se um esquema de emendas parlamentares na casa de milhões de reais, orientadas especificamente para financiar a produtora deste filme, o que é, no mínimo, estranho.
O que tudo isso dá a entender? Primeiro, sobre a família Bolsonaro: o pai é um personagem horroroso, uma página triste da nossa história. Dois dos filhos operam claramente como fanáticos ideológicos: Carlos é o mais extremista, enquanto Eduardo Bolsonaro é tido como o mais articulado do grupo, possuindo diversas conexões internacionais. Contudo, eles superestimam sua própria relevância. Donald Trump é um negociante e, embora entenda o papel de Bolsonaro, ele sabe quem é o Lula e qual é a importância real do Brasil.
Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo agem como se fossem representantes de um governo no exílio, mas, conhecendo o perfil de Trump, ele provavelmente os vê apenas como intermediários para prestação de serviços no Brasil. É exatamente assim que os americanos enxergam figuras como eles.
À medida em que as investigações avançam, fica cada vez mais claro que esse dinheiro enviado aos Estados Unidos possui um propósito definido: financiar tanto as ações de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo em solo americano quanto constituir um gigantesco “caixa dois” para as eleições de 2026.O pano de fundo dessa relação é exatamente este. Daniel Vorcaro não é um personagem qualquer nesse esquema: ele frequenta, por exemplo, a mesma igreja que o deputado Nikolas Ferreira.
Extrema-direita no “bolso” de Vorcaro
Para conhecer alguém, basta observar sua agenda telefônica, e toda a cúpula da extrema-direita está entre os contatos de Vorcaro. Um dos principais operadores políticos de Bolsonaro é o senador Ciro Nogueira. Ele atuava como o “testa de ferro” do Banco Master tanto no Legislativo quanto no Executivo, sendo o responsável por operar os interesses da instituição dentro do governo. Há indícios de que ele recebia vultosas quantias para cumprir esse papel, funcionando como uma espécie de “mensalão” pago pela instituição financeira.
As operações do Banco Master foram legalizadas sob a presidência de Roberto Campos Neto no Banco Central, mas acabaram suspensas com a chegada de Gabriel Galípolo. Diante da crise da instituição, houve uma tentativa deliberada de transferir a responsabilidade pelo problema para o governo Lula e para o PT. Além disso, Flávio Bolsonaro negou sistematicamente suas relações com Vorcaro, chegando a desqualificar jornalistas que o questionaram sobre o financiamento do filme de seu pai.
Posteriormente, Flávio justificou sua negativa alegando a existência de “cláusulas de confidencialidade” que o impediriam de revelar o patrocínio de Vorcaro. No entanto, tendo trabalhado no banco do BRICS por um ano e sete meses, compreendo bem como funcionam esses mecanismos. Tais cláusulas aplicam-se a funcionários de órgãos multilaterais ou a contratos muito específicos, mas não fazem sentido no contexto do financiamento de um filme, a menos que o objetivo fosse ocultar deliberadamente o nome do investidor. Embora seja um direito do patrocinador não querer seu nome divulgado, o uso de um artifício jurídico para esse fim, neste caso, é extremamente suspeito. Embora seja um direito do investidor não querer seu nome envolvido, não é necessário um dispositivo jurídico complexo para isso: bastaria apenas não listar o nome entre os apoiadores. O uso desse artifício, portanto, serve apenas para levantar suspeitas sobre a real origem do financiamento do filme.
+ Flávio Bolsonaro e o estigma por associação na construção midiática da política
+ Condenação de Bolsonaro e militares no STF sela fim da blindagem golpista, dizem juristas
Flávio Bolsonaro, o “cara da grana”
Sobre os filhos de Bolsonaro, embora existam figuras claramente desequilibradas entre eles — como o vereador em Blumenau, que demonstra total falta de noção —, considero Flávio Bolsonaro o mais inteligente e articulado politicamente. Como morador do Rio de Janeiro, cidade onde o bolsonarismo se consolidou, sei que Flávio é conhecido como o “cara da grana”, alguém focado exclusivamente em dinheiro. Relatos de pessoas que trabalharam com ele na Assembleia Legislativa reforçam essa percepção.
Há um histórico de denúncias que a Justiça precisa investigar, envolvendo as “rachadinhas”, a loja de chocolates e a compra de mansões com dinheiro vivo. Além disso, Flávio realiza o “serviço sujo” na relação do clã com as milícias do Rio de Janeiro. É de conhecimento público que ele homenageou e manteve em seu gabinete parentes de Adriano da Nóbrega, o falecido chefe do “Escritório do Crime”.
Por esse perfil, Flávio era o nome ideal para estabelecer uma relação de intimidade e realizar operações financeiras com Daniel Vorcaro. Vorcaro não é um ator qualquer: ele frequenta a mesma igreja de Nikolas Ferreira, mantém a cúpula da extrema-direita em sua agenda e tenta exercer influência sobre o sistema político e o Judiciário. Suas doações de campanha para Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro, contrastando com a ausência de qualquer apoio a candidatos de esquerda, revelam de forma clara a qual projeto ele serve. Na política não existem coincidências, e o fato de ele estar por trás do financiamento desse filme diz muito sobre a base material que sustenta esse movimento.
Faço uma afirmação peremptória: qualquer pessoa minimamente informada sabe que todo esse montante não se destinava apenas ao financiamento de um filme, mas a alimentar um esquema de “caixa dois” estratosférico para as eleições de 2026. O bolsonarismo não possui qualquer sofisticação: o que vemos são diversos níveis de banditismo operando em conjunto.
Eles construíram uma narrativa “antissistema” muito bem-sucedida, como se Jair e Flávio Bolsonaro não fossem, eles próprios, homens do sistema. A realidade é que nenhum deles jamais trabalhou fora da política, tudo o que alcançaram na vida foi graças ao que agora chamam de sistema. A essa narrativa juntam-se figuras como Sérgio Moro, uma das personalidades mais deprimentes da história do Brasil. Recentemente, ele apareceu ao lado de Flávio Bolsonaro em uma entrevista coletiva — justamente ele, o homem que prendeu Lula sem provas, utilizando os casos do triplex e do sítio em Atibaia, para impedi-lo de concorrer em 2018, quando era o favorito.

Os senadores Sergio Moro e Flávio Bolsonaro Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
Esse esquema envolveu um setor do Judiciário alinhado à extrema-direita para favorecer um bloco de capitais que estava fora do comando em 2016. Eles operaram para que Michel Temer assumisse o governo e abrisse caminho para a reforma trabalhista, o teto de gastos e a destruição da Petrobras, que deixou de ser uma grande petrolífera para se tornar uma mera distribuidora de dividendos para poucos.
A reforma da previdência, operada por Paulo Guedes, permitiu que fundos de pensão passassem a controlar uma fatia gigantesca desse mercado público. Trata-se de um entrelaçamento com o que chamo de “lumpen das classes dominantes brasileiras”: um setor financeiro picareta representado por instituições como o Banco Master e figuras como o dono da Havan. Juntos, construíram uma massa de fanáticos utilizada como manobra na tentativa de golpe de janeiro de 2023 e que agora tenta, por todas as vias, retornar ao governo em 2026.
É fundamental compreender a que servem, no fundo, o Banco Master e o que chamo de “caixa do fascismo”. Eles servem a um projeto que não é de país, mas sim de entrega. Como o próprio Flávio Bolsonaro demonstrou recentemente no Texas, o objetivo é entregar nossas terras raras aos Estados Unidos para aliviar as pressões sobre a indústria americana decorrentes de restrições de exportação.
Nesse cenário, surgem figuras como Romeu Zema, que defende a privatização total, e Tarcísio de Freitas, a quem vejo como um gestor ineficiente que consegue ser pior do que o PSDB foi em São Paulo. A privatização da Sabesp é o maior exemplo desse esquema. O Banco Master é parte essencial da base material que esses grupos operam para tentar retornar ao poder em 2026. Para nossa sorte, contamos com a figura de Lula, um gigante e um animal político de primeira grandeza. Ele agiu de forma estratégica ao acionar a Polícia Federal e o Ministério da Justiça para investigar a “ponta do iceberg” desses esquemas. As investigações, que começaram com a Operação Carbono na Faria Lima, chegaram agora ao esquema de Flávio Bolsonaro.
Esta é a forma mais eficiente de combater o crime: sufocar o fluxo financeiro. Assim como ocorre com facções como o Comando Vermelho, quando se corta o dinheiro, a capacidade operacional da organização cai drasticamente. Ao atingir o cerne do sistema financeiro, a Polícia Federal acaba descobrindo toda a engrenagem por trás do movimento. Jair Bolsonaro encontra-se em uma situação muito delicada. Teremos eleições muito duras, mas o fato é que os candidatos deles estão se inviabilizando e podem derreter com o tempo. Isso é positivo, mas não podemos nos acomodar ou achar que nada mais pode acontecer até lá.
Assista à íntegra do programa Meia Noite em Pequim com Elias Jabbour
Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.
*Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 27/05/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.