Doutrina de Truman já está se revelando uma importante virada na política americana, cujo característico mais vital é o de que todas as questões fundamentais de direção, nos negócios nacionais e internacionais, foram postas diante de uma camada mais ampla do nosso povo, em termos mais claros e mais ativos do que nunca.

A questão de “para onde vai a América” ou “para onde está sendo levada a América” se apresenta com maior insistência. Os debates no Congresso e na imprensa são apenas um pálido reflexo dos receios e das dúvidas, da necessidade, sentida por todas as classes, de respostas a perguntas fundamentais .

Os debates não terminaram com os votos do Congresso. O conflito sobre a política exterior americana é tão profundo, e liga tão profundamente a política interior à exterior, que não pode ser solucionado pela rápida aprovação de leis pelo Congresso. O dia 31 de março veio e foi, mas o “colapso”, de que o presidente e a imprensa tanto falaram, não se produziu na Grécia, nem na Turquia. Há, entretanto, um prazo real para o povo americano; as questões levantadas pela Doutrina de Truman se estenderão até 1948. O nosso povo terá oportunidade, dentro dos próximos 18 meses, de tomar decisões que nos podem salvar — e a grande parte do mundo — do desastre.

Imperialismo Deslavado

A doutrina de deslavado imperialismo projetada pelo presidente Truman a 12 de março é um desenvolvimento lógico da sistemática traição do Partido-Democrático à sua plataforma eleitoral de 1944; vem do programa de “energia” dos grandes monopolistas, expresso na cooperação bi-partidária do senador Vandenberg e do ex-Secretário de Estado James Byrnes, — mas é mais do que isso, também.

A Doutrina de Truman é uma tentativa de fazer um novo e grande avanço para o imperialismo americano. Na esperança de assustar os Estados mais fracos, levando-os à completa denendência dos Estados Unidos, os monopolistas americanos procuram, na forma de uma coalizão anti-soviética, fazer novas e grandes penetrações nos impérios britânico e francês; ao mesmo tempo, os monopolistas americanos procuram tomar posições de onde possam exercer pressão sobre a União Soviética, com a possibilidade de um ataque eventual. No processo, os monopolistas americanos desejam entrincheirar-se nos ricos depósitos de petróleo do Oriente Próximo e, por meio do controle desse petróleo, conquistar posição predominante sobre os seus próprios aliados, dele dependentes.

A Doutrina de Truman pretende impedir a estabilização da nova Europa, como se reflete na vitória do governo polonês a 19 de janeiro e a inauguração da nova República francesa, governada por uma coalizão tripartite. O estímulo ao fascismo na Grécia é um sinal para conspirações fascistas e anti-democráticas em toda a Europa, especialmente na Europa ocidental. O levantamento de uma posição estratégica no sudeste da Europa é um indício do apoio americano a todos os grupos semelhantes aos monarquistas gregos que surjam em outros países. E o aprofundamento do domínio imperialista americano na Grécia é um indício de que outros povos devem se preparar para pagar, se permitirem, que um governo de tipo grego se desenvolva nos seus países.

A Doutrina de Truman tinha por fim cancelar a forte posição da União Soviética, depois da última reunião da Assembléia Geral em Nova York e do êxito na redação dos tratados de paz com os países balcânicos, com a Finlândia e com a Itália. Pretendia assustar a União Soviética, às vésperas das negociações decisivas sobre o futuro da Alemanha. A declaração de Truman foi um sinal de que todos os esforços seriam dirigidos no sentido de prejudicar a reconstrução da URSS e de que todos os esforços seriam feitos para tirar vantagem da difícil situação da União Soviética no após-guerra.

Os objetivos nacionais se enquadravam com os objetivos no exterior. Esperava-se que a Doutrina fortalecesse o próprio presidente, dentro das fileiras da grande burguesia e servisse à sua candidatura dentro do Partido Democrático. Tinha por fim garantir a iniciativa partidária no estímulo à reacionária política exterior bi-partidária. Criando uma atmosfera de cruzada para a defesa da nação contra o “comunismo”, os monopolistas pensavam prejudicar a luta do movimento trabalhista por melhores salários e na defesa dos seus Sindicatos; os trabalhadores deveriam ser impedidos de dar opiniões sobre negócios estrangeiros e os comunistas e a esquerda em geral deveriam ficar isolados em questões de política exterior, para auxiliar o enfraquecimento dos Sindicatos em torno de questões de menor importância. A Doutrina pretendia criar a atmosfera necessária para a aprovação do grande orçamento militar, ao mesmo tempo que forçava a aprovação de leis anti-sindicais, — e tudo isto como antecipação das lutas populares contra a inflação, que certamente se intensificariam com a esperada crise econômica.

Estes eram os cálculos e as intenções. Mas a Doutrina também teve o efeito de enfraquecer contra-tendências, no interior e no estrangeiro. Algumas destas tendências já se desenvolveram, até um ponto surpreendente. Apenas começamos a sentir o seu impacto.

Falsos Argumentos

Não é necessário habilidade especial para destruir os argumentos apresentados para a Doutrina. Embora descanse em enormes falsidades, e tenha sido apresentada com uma histeria falaz, os porta-vozes não oficiais da Doutrina foram muito francos nas suas explanações. Os fatos se acumularam rapidamente para contraditar as razoes apresentadas para a nova política — e para esclarecer o seu verdadeiro objetivo. Nada de admirar que o Instituto Gallup tenha registrado 56% do nosso povo a favor do auxílio à Grécia através das Nações Unidas, a 28 de março, e 63% duas semanas mais tarde — quanto mais numerosas eram as explicações, tanto mais profunda a oposição entre as amplas massas.

Por exemplo, a idéia de dar grandes presentes à Grécia e à Turquia (ninguém se dá ao trabalho de insistir em que os 400 milhões de dólares serão pagos), sob a alegação de que esses países têm governos democráticos, não se sustentou por muito tempo.

A simples inclusão do Estado policial turco, juntamente com a Grécia, tornou impossível a argumentação de que vamos socorrer a democracia. Quanto ao caráter do governo grego, quanto mais é explorado, tanto mais os americanos têm sabido de alguns fatos indisputáveis, que somente a esquerda havia denunciado antes. William L. Shirer, no “New York Herald Tribune“, de 20 de abril, descobriu, em discussão com agentes secretos americanos não comunistas, que estiveram na Grécia durante a guerra, que, “quanto ao Parlamento grego, nem o centro nem a esquerda estão nele representados. Há homens eminentes no governo grego que colaboraram com os nazistas e outros que nada fizeram contra eles. O comando do Exército foi recrutado quase exclusivamente entre os realistas, dos quais a maioria considera “comunista” mesmo um republicano conservador. As forças de Quislings, organizadas pelos alemães para combater os gregos não colaboracionistas, foram incorporadas ao novo Exército grego. A força de polícia na Grécia é substancialmente a mesma que serviu à temida ditadura Metaxas e, mais tarde, aos alemães”.

A idéia de que o programa de Truman representa assistência econômica às nações devastadas pela guerra e à beira do colapso também não é mais do que mitologia oficial. A Turquia não pode ser classificada como devastada pela guerra — a Turquia foi uma beneficiária da guerra. Henry Wallace já tinha feito esta declaração; no “New York Times“, de 20 de abril, Raymond Daniell documenta-a com o fato de que a Turquia tem uma balança comercial favorável de 200 milhões de liras, aumentou a sua reserva de ouro de 25 toneladas para mais de 200 toneladas nos anos de guerra. O fato de que a Turquia insiste em manter um Exército de 750.000 homens, que pesa terrivelmente sobre a sua economia, naturalmente não significa que mereça o tipo de auxílio que perpetue esta militarização; uma política de amizade com os seus vizinhos poderia tornar desnecessário esse Exército.

Quanto à Grécia, é coisa sabida que os seus governantes corruptos malbarataram cerca de 500 ou 600 milhões de dólares, destinados à assistência econômica, o que deu a esses mesmos círculos dominantes, luxos fantásticos. O governo grego, como informou Daniell, se recusou a instituir impostos de renda elementares ou controles de importação. As classes superiores da Grécia exportaram 50 milhões de dólares para a sua segura reinversão nos Estados Unidos; e, se é verdade que se deve fazer tudo pela reabilitação econômica da Grécia, certamente os seus atuais governantes não podem ser encarregados desse projeto.

Para coroar tudo, os Estados Unidos não estão propondo auxílio principalmente econômico. O sub-Secretário de Estado William L. Clayton depôs que pelo menos cinco oitavos dos 250 milhões de dólares serão empregados em equipamentos militares, na duplicação dos efetivos do Exército grego para 200.000 homens e na reconstrução dos tipos de transporte que facilitam a atividade militar.

A noção de que os Estados Unidos estão respondendo, generosamente, ao apelo da Grã-Bretanha, ao assumir essas “responsabilidades” no Mediterrâneo Oriental, é apenas “conversa mole” de Washington.

Embora seja claro que o imperialismo britânico buscou a assistência americana para manter a Grécia numa posição reacionária, o Foreign Office ficou surpreso com a solicitude americana, pois não se conhece nenhum pedido da Grã-Bretanha, nem da Turquia, aliás, para a espécie e a importância do programa americano. A suposta retirada britânica da Grécia, descrita na nossa imprensa em cores tão fortes, não é de modo algum uma retirada, pois parece que as missões fiscais, militares e jurídicas britânicas ficam. A retirada das baionetas britânicas foi relegada, do limite de 31 de março, para “logo que praticável”. O retrato do Tio Sam como Sir Walter Raleigh, a auxiliar elegantemente a realeza britânica a atravessar o charco grego, necessita de muitos retoques. A crise da Grã-Bretanha é uma crise real; a força econômica da Grã-Bretanha não é suficiente, a despeito de toda a boa vontade dos  seus leaders social-democráticos,   para   manter  unido o Império na base antiga, em face dos grandes movimentos de libertação nacional em quase todos os pontos do mundo. Mas não há prova de que os ingleses estejam abrindo mão das suas posições no Mediterrâneo Oriental; no máximo estão usando o pedido de auxílio na Grécia para fazer com que os Estados Unidos paguem certa parte das custas, na esperança de ganhar tempo para competir com o apertado controle americano. Certamente a Grã-Bretanha não está cedendo posições na zona estratégica do seu Império; os argumentos americanos a esse respeito são simplesmente um caso em que o desejo é o pai do pensamento.

Um Ataque à ONU

O característico mais revelador, entretanto, gira em torno da relação entre a Doutrina de Truman e as Nações Unidas. Neste ponto, todas as tentativas de reparar o embaraço oficial perante o nosso povo apenas demonstraram a hostilidade real do imperialismo americano para com os alicerces mesmos das Nações Unidas.

Na primeira fase do debate, argumentou-se que as Nações Unidas não podiam agir absolutamente na Grécia. Depois, descobriu-se que um sub-comitê da Organização Alimentar e Agrícola (FAO) havia feito um estudo das condições gregas desde a primavera passada, e propusera uma assistência no total de 100 milhões de dólares, o que, pelo que se declarava, poderia triplicar a renda nacional da Grécia.

Em seguida, argumentou-se que a ONU não tinha força militar para sustar os combates na Grécia e “restaurar a ordem”. Mas um sub-comitê do Conselho de Segurança foi enviado para investigar os chamados combates de fronteira, por iniciativa dos Estados Unidos. O Departamento de Estado jamais explicou porque esta comissão, que é certamente parcial à influência americana, não podia informar o Conselho sobre se a Grécia estava realmente em perigo — e propor que o Conselho agisse. Quanto ao argumento de que a ONU não poderia agir a tempo, pelo menos oito semanas já passaram desde o discurso de Truman; vários meses se escoaram desde os primeiros relatórios do Embaixador especial na Grécia, Paul Porter. Quem pode dizer que as Nações Unidas não poderiam ter agido mais rapidamente do que o Congresso americano ?

Finalmente, em resposta às insistentes perguntas do público e uma pergunta incisiva do Secretário Geral da ONU, o Departamento de Estado foi forçado a admitir que a ONU tinha sido realmente posta de lado. A emenda Vandenberg e os discursos do senador Warren Austin foram em si mesmos uma confissão.

Seria a coisa mais simples, para os Estados Unidos, levar as suas queixas ao Conselho de Segurança; em vez disso, o senador Vandenberg fez à ONU um dos insultos mais cínicos já lançados contra ela. Propôs que os Estados Unidos desistissem da sua atitude unilateral, sob uma dupla condição: primeira que dois terços da Assembléia Geral e a simples maioria do Conselho de Segurança o pedissem e, segunda, que um programa de auxílio à Grécia e à Turquia, idêntico ao proposto pelos Estados Unidos, já se encontrasse em vigor.

Isto é nada menos cio que um projeto para minar inteiramente a ONU. Que significa propor uma simples maioria no Conselho? Significa abandonar o princípio da unanimidade entre as grandes potências — e utilizar a questão grega como pretexto para isso. Tratando uma questão substantiva como uma questão regimental, Vandenberg revela quanto deseja contornar o desagradável fato de que a União Soviética seja membro das Nações Unidas. O senador Harry Bird chegou às conseqüências lógicas desta idéia, quando se saiu com o projeto de “uma decisão com a Rússia”, que a expulsaria de vez da ONU.

A segunda condição de Vandenberg — a de que a ONU deve aceitar a política americana e deve já tê-la posto em vigor antes de que os Estados Unidos desistam — se reduz a um ultimatum, a um Diktat unilateral dos Estados Unidos. As Nações Unidas se tornariam um adjunto do Departamento de Estado. As Nações Unidas são tratadas como uma organização sem política própria, que devemos sustentar; as Nações Unidas se tornam, na proposta de Vandenberg, propriedade dos políticos imperialistas americanos. Esta não é a maneira de apoiar as Nações Unidas — é a maneira de liquidá-las.

Não é Um Instrumento Para a Paz

Um outro aspecto da Doutrina de Truman necessita discussão antes que voltemos a examinar o seu impacto sobre a cena nacional e internacional. É o argumento de que uma posição “firme” contra o comunismo abre caminho para a paz, um argumento que reconhece, distorcendo-o, o desejo universal de paz, o temor popular da guerra e a oposição à guerra.

Cronistas como Walter Lippmann tentaram disfarçar a Doutrina de Truman, admitindo que militariza a Grécia e a Turquia, mas afirmando que isto tem apenas o fim de garantir “uma solução pacífica” da União Soviética. Lendo Lippmann, tem-se a impressão de que a União Soviética está inabalável contra uma acomodação e tem de ser levada a isto Por uma exibição do poderio militar, naval e aéreo americano nos Dardanelos.

O inerente caráter bélico da Doutrina de Truman foi, naturalmente, demonstrado pela hesitação do sub-Secretário Dean Acheson em declarar, redondamente, que a política do departamento de Estado era uma política de paz. O senador Arthur Vandenberg foi mais cândido, quando a chamou “o melhor dos riscos calculados”. A complicada tese de Lippmann, de garantir um “equilíbrio de forças”, é também uma maneira imaginosa de admitir que a guerra, e não a paz, é inerente à política de Truman.

Se se tratasse de verdadeira acomodação entre a Uniã0 Soviética e os Estados Unidos, poder-se-ía, logicamente perguntar porque Lippmann não propõe a volta à série de acomodações de tempo de guerra de Teheran, Yalta e Potsdam. O próprio Lippmann, no seu livro U. S. Foreign Policy, estava preparado (em 1944) para admitir o que considerava legítimos interesses de segurança dos Soviets na Europa oriental.

A Doutrina de Truman visa anular esses mesmos interesses de segurança e eis por que o novo equilíbrio que Lippmann pretende conseguir não é um caminho mais certo para a paz do que os antigos, que o imperialismo americano repudiou. Dominando a Grécia e a Turquia, os Estados Unidos se propõem tomar posições para flanquear a Iugoslávia e a Bulgária e avançar para a Rumânia. Em combinação com a pressão atual sobre a Hungria, é evidente que os Estados Unidos não desejam uma acomodação; desejam fazer uma incursão na Europa oriental, para reduzir os interesses de segurança da União Soviética, anteriormente reconhecidos, e tratar a URSS como um Estado secundário na sua situação de antes de 1939.

Mas, podemos perguntar a Lippmann, se a União Soviética fosse reduzida desta maneira, o novo equilíbrio significaria alguma coisa? Não intensificaria isto os apetites imperialistas do capital monopolista americano, exatamente como todo passo do imperialismo nazista para a frente não criava novo equilíbrio, mas simplesmente um ponto de partida para nova agressão?

A Doutrina de Truman é semelhante à política de “energia” de Vandenberg e Byrnes, que também prometiam ao nosso povo que, se os Estados Unidos fossem bastante enérgicos, o resultado seria paz, e não guerra. Em verdade, a política Vandenberg-Byrnes levou à descoberta de novas “crises” e à Doutrina de Truman; todas essas políticas são apenas ruas numa só direção, que inevitavelmente significam novas exigências sobre o povo americano. E, à medida que a nova política falha na realização dos seus fins ostensivos, os nossos governantes se voltam para o nosso povo e nos pedem que penetremos, mais profunda e rapidamente, no atoleiro que o imperialismo americano está criando, com a tese de que não se deve recuar.

Desenvolver-se a Oposição Internacional

A Doutrina de Truman, disse Henry Wallace no seu discurso de 31 de março, terá como resultado “unir o mundo contra nós e desunir o povo americano”. Nesta frase rápida, Wallace entreviu a verdade fundamental de que as conseqüências da Doutrina de Truman provavelmente serão exatamente o contrário do que esperam os seus autores.

Já estamos assistindo, no campo internacional, ao desenvolvimento da oposição à política dos Estados Unidos. Na Conferência de Moscou, por exemplo, a Doutrina de Truman não teve o efeito previsto de assustar a União Soviética. A tarefa dos Soviets certamente se tornou mais difícil, mas os leaders soviéticos se mantiveram firmes quanto ao seu programa por uma Alemanha democrática — unidade econômica, centralização política, reparações pagas com a produção e controle das quatro potências sobre o Ruhr. Se os nossos senadores pensaram que a URSS entraria em pânico ao impacto da Doutrina de Truman, enganaram-se.

A reação internacional, naturalmente, se reuniu em torno do Departamento de Estado. Francisco Franco, o odiado assassino do seu povo, considera que os Estados Unidos finalmente estão tomando o caminho que abriu em 1936; Winston Churchill reconhece e admite as suas próprias contribuições à política de Truman, há um ano; o premier Shigeru Yoshida, do Japão, é levado a achar que os vencedores estão tomando o que os vencidos perderam. Toda uma série dos mais desacreditados círculos fascistas e pró-fascistas, rapidamente, e sem vacilações, aplaudiram a nova atitude americana.

Mas, na Grã-Bretanha, na França e em muitos outros países, a Doutrina de Truman tem sido recebida com cautela, frieza e oposição. Veremos reflexos da crescente antipatia à política americana (mesmo entre os que dependem de empréstimos americanos) em lugares como Genebra, onde se reúne a Conferência Preliminar da Organização Internacional de Comércio (ITO), e onde quer que os rudes interesses materiais das nações surjam uns contra os outros.

Na Grã-Bretanha, a recepção semi-oficial a Henry Wallace fala eloqüentemente pelo povo inglês; o Partido Cooperativista, um dos importantes elementos constitutivos do Partido Trabalhista, se declarou, em Convenção recente, contra a Doutrina de Truman e a favor de uma nova política exterior britânica; muitos Sindicatos britânicos fizeram o mesmo. Os crescentes boatos de demissão de Ernest Bevin do Foreign Office refletem a opinião, dominante em Londres, de que o avanço americano “sobre a “garganta do Império Britânico” minará o soerguimento da Grã-Bretanha e, afinal, do Império. A ala “revoltada” dos trabalhistas, como Zilliacus e Crossman, já se declarou em termos vigorosos e precisos. Os Partidos Comunistas do Império Britânico, na sua notável Conferência de fevereiro, declararam, como seus objetivos, “organizar relações inteiramente novas entre os povos da Grã-Bretanha e dos Domínios e os povos coloniais que ainda lutam pela sua liberdade e independência em relação ao imperialismo britânico, de maneira que possamos concentrar os nossos recursos comuns para o melhoramento dos nossos povos, para conseguir o governo democrático nacional para todos os povos do Império e a libertação nacional em face de quaisquer planos de dominação mundial do imperialismo americano ou de qualquer bloco da reação anglo-americana”.

A Reação Britânica

As forças que trabalham dentro da relação anglo-americana são, naturalmente, complexas e contraditórias. O grosso dos tories (conservadores) é atraído para o estúpido anti-comunismo dos Estados Unidos, como era atraído para, e procurou usar o da Alemanha nazista. E vê nos Estados Unidos um ponto de apoio na sua próxima tentativa de derrubar o governo trabalhista. Mas há uma divisão tática muito verdadeira. Alguns tories, representados pelo ex-Secretário das Colônias Leopold Amery, temem o preço que o Império terá da pagar, em troca do auxílio imperialista americano; outros, como Churchill, estão preparados para pagar esse preço e até mesmo aceitam, por enquanto, a situação de sócio menor.

Os social-democratas, como Bevin, Attlee e Morrison, são igualmente fascinados pelas possibilidades anti-comunistas do apoio americano; vêem a perspectiva de manter, com o auxílio americano, uma base para a reação na Europa ocidental e meridional. Na melhor das hipóteses, o seu cálculo é o de que os Estados Unidos ajudarão a reconstruir a destroçada economia britânica e de que a Grã-Bretanha, uma vez reconstruída a sua economia, poderá escapar às conseqüências da dependência das ambições reacionárias americanas.

Na esquerda britânica há a crescente compreensão de que, quanto mais reacionária se tornar a política americana, tanto mais se tornará também anti-britânica. Confiando no imperialismo americano, os efeitos mundiais da política econômica americana e a crise próxima tornarão impossível o soerguimento para a Grã-Bretanha. A esquerda, portanto, procura uma alternativa; os comunistas britânicos indicaram o caminho, instando por um decisivo rompimento em princípio com o imperialismo, simultaneamente, com o estabelecimento de novas relações entre os povos atualmente no Império e uma nova solidariedade com a União Soviética e com as democracias européias. E, quanto mais o povo britânico procure resistir a ser usado por Wall Street em cruzadas anti-comunistas; tanto mais a Grã-Bretanha começará a ser considerada aqui na categoria de nação “cripto-comunista”, indigna de confiança, destinada a ser socorrida pelo São Jorge ianque.

Outras nações — especialmente a França e a Escandinávia — estão reagindo de maneira semelhante. A decisão da Suécia, de instituir estritos controles de importação, em seguida ao tratado comercial sueco-soviético, foi claramente caso de desejo de escapar a um envolvimento muito íntimo com a economia imperialista americana.

A Doutrina de Truman, longe de fazer amigos para o povo americano, deve inevitavelmente produzir atitudes hostis contra nós. O intervencionismo, agora aplaudido por antigos isolacionístas como Charles Lindbergh, parece que terá o efeito de nos isolar.

Alinhamentos Políticos Nacionais

No país, a Doutrina de Truman produziu muitas alterações políticas importantes, cujos resultados completos ainda estão por surgir.

A Doutrina de Truman tem o apoio unido do grosso da representação dos Partidos Democrático e Republicano no Congresso. À exceção de alguns senadores democratas, todos a aceitaram, enquanto, na G.O.P., o mais efetivo apoio lhe veio do senador Arthur Vandenberg. Mas deve-se notar que Thomas E. Dewey, Alf Landon e, finalmente, o senador Robert Taft também vieram em apoio de Truman.

Este âmbito de união mostra que o governo está lançando um programa que exprime o objetivo geral do imperialismo americano. Demonstra à nação e ao mundo que, com respeito aos objetivos do capital monopolista americano, os dois principais partidos dos Estados Unidos são praticamente indistinguíveis. Assim, a Doutrina de Truman confirma a análise feita pelos comunistas americanos há mais de um ano, de que o capitalismo monopolista americano está unido num programa de expansão imperialista.

Por outro lado, vale a pena ter em mente as resistências dentro desta frente única da reação. As divergências não surgem de princípios fundamentais, mas as divergências estão presentes; e, em face do ceticismo popular e da crescente oposição popular, a crise próxima e a campanha eleitoral de 1948, essas divergências certamente desempenharão algum papel.

Uma conseqüência da Doutrina de Truman é que, embora Truman veja uma vantagem partidária em patrociná-la, deve aceitar a mais completa responsabilidade de ser o seu autor. Truman realmente, traçou uma política exterior para os republicanos e os democratas; mas resta saber se o capital monopolista considerará Truman, ou talvez um Vandenberg, o melhor defensor dos seus interesses na próxima campanha eleitoral.

Há, entretanto, um importante setor do capital americano, com muitos porta-vozes no Congresso, que se opôs ou discutiu seriamente a Doutrina de Truman, por outro ângulo. Este setor é representado por Joseph P. Kennedy, ex-Embaixador na Grã-Bretanha; Ernest Weir, da National Steel Co.; o senador Harry Bird, entre os democratas, e o senador Chapman Revercomb, entre os republicanos.

Estes círculos estão entre os mais virulentos imperialistas americanos. As suas divergências com Truman de interesses especiais e diferenciados de grupo dentro do campo imperialista americano. A atitude Kennedy-Weir é tão reacionária quanto a atitude Vandenberg-Dewey-Landon.

Mas, à medida que cresce o custo da expansão — todos os compromissos de política exterior, desde agosto de 1945, já se elevaram a 16 bilhões de dólares, — essas divergências táticas podem tornar-se substanciais. É uma característica da expansão imperialista americana, hoje, que nas suas primeiras fases não possa trazer lucros a muitos setores do comércio, ao mesmo tempo que exige um alto nível de dívida nacional e de impostos. A sementeira do domínio mundial tem de ser fertilizada com enormes despesas, em que o lucro em dinheiro para a burguesia em geral não se fará visível por muito tempo. E a divisão dos lucros se inclina para a desigualdade. O alto custo e a precariedade desta aventura imperialista exclui a probabilidade de novas gorjetas à aristocracia do operariado americano, no estilo da compra da aristocracia do trabalho na Grã-Bretanha durante o século passado, por exemplo. Um grande setor de pequenos e médios comerciantes nada tem a ganhar na Grécia e na Turquia, mas deve sustentar, juntamente com os trabalhadores, a maior parte dos custos. Somente um punhado de firmas monopolistas — na indústria do petróleo e nas indústrias de guerra — pode ver benefícios imediatos da Doutrina de Truman ou é suficientemente poderoso para desviar para outros grupos o seu peso. Isto pode produzir oposição à nova política, a despeito da sua inconsistência e da sua falta de princípio.

Em face disto, o apoio à Doutrina de Truman entre os leaders social-democratas americanos se revela como uma torpe traição do povo americano na paz mundial. As forças de Dubinsky e a direção da Federação Americana do Trabalho (AFL) demonstraram a sua subserviência ao imperialismo americano de acordo com a tradição de todos os social-democratas. Mesmo aqui, entretanto, o sentimento do inevitável insucesso e o impacto geral da desaprovação popular causaram vacilações nos agrupamentos da classe média infiltrados pelos social-democratas. Charles Bolte, leader da A.V.C., informa, em “The Nation“, de 12 de abril, que, ao votar o apoio ao Plano Truman, muitos elementos da A.D.D. o fizeram “segurando o nariz”.

Mas a conseqüência interna mais dramática da Doutrina de Truman foi o seu impacto sobre as forças de Wallace dentro do Partido Democrático e sobre a massa considerável da opinião independente, das classes trabalhadoras e das classes médias, que vêem em Wallace um leader.

Aqui devemos admitir que somente um pequeno setor do movimento operário americano se colocou claramente contra a Doutrina de Truman. Alguns Sindicatos do C.I.O. e as organizações populares da esquerda falaram com clareza. Mas o grosso do movimento operário, embora os seus membros compreendam a maioria cética e relutante sobre que está sendo forçada a Doutrina de Truman, não se declarou nem deu uma direção firme ao resto do país.

Embora o característico principal da situação atual seja a falta de entusiasmo, a dúvida, o ceticismo e a crescente oposição aberta, entre as amplas massas, contra a Doutrina de Truman, o próprio Wallace passou da crítica ao rumo do imperialismo americano para a luta aberta e organizada contra ele. Com os seus discursos antes de visitar a Europa e com a sua corajosa atitude durante a sua estada na Europa, e agora com a sua projetada “excursão de campanha” pelo meio-oeste e pelo extremo-oeste, Wallace não está apenas exprimindo essa profunda dúvida, está também organizando as massas contra o rumo imperialista.

Eis porque Wallace tem sido atacado com tal ferocidade no Congresso e na imprensa. O ataque a Wallace é um, reconhecimento da popularidade dos pontos de vista a que dá voz, um reconhecimento de que os círculos governantes temem, não somente a crítica, mas, acima de tudo, a organização do povo.

A reação reconhece que, embora Wallace ainda fale dentro dos quadros do Partido Democrático, e repudie quaisquer planos práticos de organizar um terceiro partido, o impacto da sua atividade leva na direção de um terceiro partido. Se o ressentimento expresso por Wallace não causa impressão entre os chefes democratas, e o papel assumido por Tom Clark ao responder a Wallace mostra que este é o caso, então o movimento de paz, o movimento contra o imperialismo, deve tomar uma forma que se eleve acima dos dois grandes partidos políticos. O próprio Wallace reconhece isto, quando salienta que, quando o terceiro partido surgir, surgirá do povo.

Indo ao estrangeiro, em resposta a convites semi-oficiais da Grã-Bretanha e da França, Wallace pôde debater a Doutrina de Truman no verdadeiro nível das relações internacionais; o aplauso que recebeu no exterior mostra quão poderosas forças se estão acumulando na Europa ocidental contra a Doutrina de Truman e quão ansiosamente todo o mundo espera uma alternativa para a política Truman-Vandenberg.

Indo ao estrangeiro, Wallace denunciou a censura virtual a que estava submetido no país; indo ao estrangeiro, indicou, às mesmas nações que devem ser “salvas” do comunismo, a verdadeira essência da Doutrina de Truman; e, com isto, mostrou a milhões de americanos que a verdadeira política de liderança americana se inclina, hoje, numa direção anti-imperialista.

No final das contas, a importância da iniciativa de Wallace dependerá de chegar à sua conclusão lógica — a organização de um terceiro partido de homens do povo. Também dependerá de Wallace combinar o seu ataque à política exterior com uma posição mais clara e mais concreta sobre questões nacionais — a ameaça de crise e de inflação, a legislação anti-sindical e a perseguição aos elementos progressistas e comunistas no governo, nos Sindicatos e nas organizações populares. Conhece-se a atitude geral de Wallace em face destas questões; Wallace tem a grande oportunidade de ligar a sua atitude quanto à política exterior a esses problemas, de maneira nova e dramática.

O nosso povo está hoje mais preparado para notar a ligação entre uma política exterior errada e uma ruinosa política nacional. Está mais preparado para buscar novos caminhos para a sua defesa e o seu progresso.— caminhos que levem para fora dos dois grandes partidos. O nosso povo está hoje à procura de direção, buscando respostas para as suas perguntas, procurando uma alternativa para a política anti-popular que sente que os dois grandes partidos estão seguindo.

A Doutrina de Truman teve como resultado estimular essas atitudes e desejos. Plantou a base para uma ampla união democrática sobre uma plataforma de anti-imperialismo no estrangeiro e de melhoramento progressivo no interior — a plataforma ligada a Roosevelt e hoje simbolizada por Wallace.

A luta por essa plataforma e por um alinhamento de forças capazes de realizá-la já começou. Quanto mais cedo se avolumar, de modo sério, tanto mais provavelmente poderemos alcançar uma decisão favorável sobre o destino da América em 1948.

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“Trata-se de uma pretensa defesa do Continente que exige um Pacto Hemisférico, tratado de defesa mutua, e em nome desta a política comercial de “porta aberta” e a ocupação militar pelas tropas do imperialismo. A pretexto de defesa continental o que se pretende com o plano Truman é submeter por completo nosso povo à exploração do capital financeiro mais reacionário e colocar nossas forças armadas sob o comando e total controle dos generais e oficiais norte-americanos, e conseguir pretextos e formas diplomáticas que justifiquem a ocupação militar de nosso solo por forças armadas do imperialismo e a cessão de bases militares permanentes em todo o Continente.”

Das Teses do IV Congresso do PCB