“Ninguém espera a #spanishrevolution”. É um dos signos na icônica – e ocupada – praça Puerta del Sol em Madri: Monty Python revistos para a era do Twitter.

“Estava em Paris em maio de 68 e estou muito emocionado. 72 anos”. É um dos signos na icônica – e ocupada – praça Catalunya em Barcelona: as barricadas revistas como protesto pacífico à Gandhi.

Os excitantes ventos norte-africanos da grande revolta/primavera árabe de 2011 cruzaram o Mediterrâneo e atingiram a Ibéria com força. Numa rebelião social sem precedentes, a Geração Y[2] na Espanha protesta forte contra – dentre outras coisas – a terrível crise econômica; o desemprego em massa, que alcança espantosos 45% entre os de menos de 30 anos; e contra o encarquilhado sistema político espanhol que trata o cidadão como mero consumidor.

Esse movimento de cidadãos produz manifestos que recebem cinco adesões por segundo. Pode ser acompanhado pelo Twitter (#spanishrevolution); ao vivo da Puerta del Sol pela Soltv.tv (em http://www.thetechnoant.info/campmap/). Sentem-se as reverberações por toda a Espanha e pelo mundo, de Los Angeles a Sydney. Uma mini-Revolução Francesa começou na Bastilha em Paris. Os italianos planejam suas revoluções de Roma e Milão a Florença e Bari.

Indignados do mundo uni-vos

Eles chamam-se “los indignados” – “os indignados”, “the outraged”. Puerta del Sol é a praça Tahrir, território autossuficiente, com grupos de trabalho, clínica móvel de primeiros socorros, voluntários cuidando do que tenha de ser feito, desde varrer a rua até manter a conexão e um bom sinal de Internet. O Movimento 15 de maio – “M-15” como é conhecido na Espanha – nasceu como manifestação de universitários, que espontaneamente se converteu em manifestação de rua, pacífica, construída para “contaminar” a Espanha via Facebook e Twitter e, assim operar como ponte social crucial entre o Norte da África e a Europa.

No começo, eram só 40 pessoas. Agora são dezenas de milhares em mais de 50 cidades da Espanha – e aumentando. Em pouco tempo, podem ser milhões. O mais importante: tudo foi feito sem apoio de qualquer partido político, sindicato ou jornal-empresa ‘de comunicação’ (na Espanha, já totalmente expostos ao ridículo, pelo poder político). É evento extraordinário, em país que não tem aparecido nas manchetes por ações de resistência ou pelo poder de organizações civis.

Os indignados são pacifistas, apolíticos e altruístas. Não são desempregados, alguma “juventude sem futuro” – o fenômeno é intergeneracional, em transversal que passa atravessa todas as classes. Esse “basta!” contra a Espanha inerte – como se lê num cartaz: “Franceses e gregos lutam. Os espanhóis são campeões de futebol” – implica rejeição profunda aos abismos imensos que separam os políticos e a população, exatamente como no resto da Europa (veem-se bandeiras da Grécia, da Islândia e do Egito, lado a lado).

Os indignados querem que os cidadãos recuperem a voz – como numa democracia participativa de associações de bairro; e reivindicam para os imigranes o direito de votar. Na prática, querem reformar a legislação eleitoral espanhola; querem participar da construção dos orçamentos públicos; querem reforma fiscal e política; querem mais impostos para os mais ricos; querem aumento no salário mínimo; e querem mais controle sobre os movimentos de bancos e do capitalismo financeiro.

No início desse ano, houve protestos massivos de estudantes em Londres, contra o aumento das anuidades nas universidades. O potencial de protesto é gigante em toda a Europa. Na Europa Mediterrânea, a falta de perspectivas é total – da Geração Y aos mais de 30% de diplomados desempregados. Embora o contexto seja muito diferente – no norte da África luta-se contra ditaduras –, a Primavera Árabe mostrou aos jovens europeus que cidadãos mobilizados têm boa chance na luta por justiça social.

A esquerda espanhola tentou cooptar o movimento. O primeiro-ministro Jose Luis Rodrํguez Zapatero – sobrevivendo por enquanto às graves escoriações que sofreu nas eleições do domingo passado, que o M-15 evidentemente boicotou – disse que se devia prestar atenção a eles. A direita, claro, prefere abordagem à moda Hosni Mubarak e ‘exigiu’ que o ministério do Interior interviesse à moda medieval – como fez o ex-presidente do Egito. A imprensa de direita acusa os indignados de serem comunistas, anti-sistema, guerrilheiros urbanos e estarem ligados aos separatistas bascos do ETA. Só faltaram as conexões com a al-Qaeda.

Os indignados responderam que não são contra o sistema: “o sistema é que é contra nós”. No manifesto original condenam todos os políticos, sem salvar nenhum, e toda a mídia-empresa, como “aliados do capital financeiro”; e todos os que provocaram a crise econômica e agora lucram com ela.

O J’Accuse dos indignados inclui o Fundo Monetário Internacional (FNI), a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a União Europeia, as agências de avaliação de riscos e o Banco Mundial.

A economia espanhola está de fato sob controle do FMI. Seja ou não grande reformador, fato é que o FMI presidido pelo hoje detonado Dominique Strauss-Kahn provocou grave devastação social em toda a Espanha, na Grécia e em Portugal. Além dos 45% de desempregados abaixo dos 30 anos na Espanha, as aposentadorias e salários foram reduzidos em 15%. O FMI comanda o processo pelo qual todas as economias do sul da Europa só avançam, em resumo, na recessão.

É como se o Movimento 15-M tivesse recebido o sopro vital diretamente daquela famosa lição de Rosa Luxemburgo, marxista polonesa – segundo a qual o capitalismo é incompatível, em seus antagonismos, com a verdadeira democracia[3]. Os dados mostram que é exatamente o que está acontecendo, tanto no norte industrializado quanto no sul global.

O novo 1968

Assim sendo, tudo isso vai muito além de revolta de estudantes. É uma revolta que põe a nu uma profunda crise ética que convulsiona sociedades inteiras. E vai além, também da economia: é movimento que questiona seriamente o lugar dos seres humanos num mundo de capitalismo turbinado.

Não surpreende que os baby boomers[4] – os pais da Geração Y – recordem o grande filósofo alemão Herbert Marcuse. Se se vê essa lufada de ar fresco na paisagem social e econômica asfixiante da Espanha e de grandes partes da Europa, é impossível não lembrar de Marcuse numa conferência em Vancouver em 1969, quando falou sobre uma rebelião estudantil mundial.

Naquele dia, Marcuse lembrou que a mesma pergunta – Por que as revoltas estudantis, por toda parte? – fora feita também ao filósofo do existencialismo francês Jean-Paul Sartre. E Sartre disse que a resposta era simples e não exigia raciocínio sofisticado: os jovens rebelam-se porque estão asfixiados. Marcuse sempre repetiu que essa seria a melhor explicação para aquele grito rebelde, que denunciava a crise estrutural do capitalismo.

Marcuse foi analista muito agudo da degradação da cultura como forma de repressão, e da necessidade de haver uma elite crítica capaz de destruir o ópio totalitário da cultura de consumo (los indignados desempenham também esse papel).

Marcuse identificou o 1968 francês e norte-americano como protesto total contra males específicos, mas ao mesmo tempo como protesto contra um sistema total de valores, um sistema total de objetivos. Os jovens não querem continuar a ter de aguentar a cultura da sociedade estabelecida; não refutam só as condições econômicas e as instituições políticas, mas todo um sistema global apodrecido de valores.
Em 1968, eram realistas: pediam o impossível. Hoje, se lê num dos cartazes: “Se vocês não nos deixam sonhar, não os deixamos dormir”.

Bob Dylan faz 70 anos na 3ª-feira, 24/5. In Bob We Trust. Ele jamais dirá, mas, no fundo do coração & mente, sabe de onde vêm los indignados. Em “Absolutely Sweet Marie”, escreveu que “para viver fora da lei é preciso ser honesto”. Los indignados não poderiam ser mais honestos: recusam-se a viver sob leis que os matam, como matam tantos de nós.

Por tudo isso, é muito bom estar metido no centro de Madri, em banzo de Cairo blues[5], outra vez.

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[1] Letra, original (do álbum “Blonde On Blonde”, lançado dia 16/5/1966) e traduzida, e a canção cantada, em http://www.vagalume.com.br/bob-dylan/absolutely-sweet-marie-traducao.html [NTs].

[2] Também chamada “Geração do Milênio” ou “Geração da Internet”: os nascidos depois dos 1980 (para alguns, depois de meados da década dos 1970), até a década dos 1990s [NTs].

[3] O livro é “Reforma ou revolução”, 1900. Pode ser lido em português de Portugal, grátis, em http://www.marxists.org/portugues/luxemburgo/1900/ref_rev/index.htm. É leitura muito oportuna, nesses tempos em que tanto se fala de “controle social” sobre tudo – até sobre a imprensa-empresa! – como se fosse solução para todos os males. Em discussão com alguém que bem poderia ser qquer dos ‘ongo-éticos’ da ‘democratização da cumunicação’, Rosa Luxemburgo escreve: “Nessa perspectiva, o "controlo social", tal como é apresentado por CL, aparece sobre outra focagem. O que hoje é a acção de "controlo social" – a legislação sindical, o controlo das sociedades por acções etc., – não tem, de facto, nenhuma relação com uma participação no direito de propriedade, com uma "propriedade suprema" da sociedade. A sua função não é limitar a propriedade capitalista, mas, pelo contrário, protegê-la. Ou ainda – economicamente falando – não constitui um ataque à exploração capitalista, mas uma tentativa de a normalizar. Quando B. põe a questão de saber se esta ou aquela lei de protecção aos operários é mais ou menos socialista, podemos responder-lhe que a melhor das leis de protecção operária tem mais ou menos tanto socialismo como as disposições municipais de limpeza das ruas e o acendimento dos bicos de gás – que também revelam o “controlo social” [NTs].

[4] Nascidos entre 1946 e 1964. Literalmente, os nascidos no período da explosão demográfica que o mundo conheceu depois da II Guerra Mundial [NTs].

[5] Cairo blues, 1929, pode ser ouvida, cantada pelo autor Henry Spalding, em http://www.youtube.com/watch?v=6dRqI34wYzQ. A Cairo da música é Cairo, Illinois, EUA [NTs].

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Fonte:  Asia Times Online

http://www.atimes.com/atimes/Global_Economy/ME25Dj02.html

Traduzido pela Vila Vudu