Vândalos do Apocalypso

O vetusto livro da revelação do avatar messiânico, originalmente hindu incorporado ao pensamento judaico pelos caminhos da diáspora e, finalmente, encarnado na pessoa de Jesus Cristo no dogma cristão da trindade – mais conhecido como o “Apocalipse”, em seu nome greco-romano –; quer talvez com fundamento do realismo mágico que Erich Fromm explica, por meio duma linguagem psicodélica belo-horrível, que nem a erupção dum vulcão; mostrar o que a alma angustiada dos mártires sonha: o fim dos tempos de iniqüidade e começo da consolação dos aflitos.

Já o estúrdio Apocalypso – última presepada modernista na periferia da Periferia: a Amazônia caboca –, sob manto diáfano da folia e batuque festivo de São Benedito da Praia esconde a arca da velha matriarca do sincretismo no fim do arco íris, depois do estirão na terceira margem do rio das Almazonas. Ele anuncia pela voz da Floresta Amazônica através de seu intérprete Curupira e o grito da Matinta Perera o apito final do fim da história dos impérios deste mundo de explorações do lobo do homem. Falando certo por linhas tortas, o deus de Espinosa ri por último…

Debaixo do vento geral que vem do mar varrer a feira do Ver O Peso o velho circum Caribe canta e dança ao som tecnobrega nas travessuras das noites eternas dos subúrbios da cidade morena, a mina imaterial de searas, terreiros e casas de Mina Belém do grão Pará. Casa do pão da terra onde viça o dito grão do realismo mágico: semente da Terra sem males. Nossa roça cultural cultivada por pajés e babalorixás pra tratamento e cura da loucura industrial do planeta cansado de tontas guerras e confusão sem pé nem cabeça.

Nós tiramos o chapéu aos hermanos mexicanos que no Dia dos Mortos cantam, dançam, comem e bebem pra festejar a memória dos mortos da nossa felicidade pan-americana. Nós temos o segredo da ressurreição no Kuarup, dentre outros mistérios do Xingu profundo velados pelo mito de Cobra Norato e Maria Caninana… Mas o Brasil civilizado não sabe que Raul Bopp foi nosso confrade entre “Vândalos do Apocalipse” ou na famigerada Academia do Peixe Frito inventada pelo poeta Bruno de Menezes com seus discípulos da revista “Belém Nova”…

Salve a negritude brasileira além da melanina! Salve a brava gente ribeirinha debaixo da bandeira de nossa senhora do Rosário dos homens pretos! Salve o ecumenismo. O movimento holístico. A hipótese de Gaia. A ocupação de Wall Street. Viva a Crise civilizacional…

São Benedito é santo grande no altar popular da humanidade à margem da História. Ele é o orixá Ossain patrono das vendedoras de ervas do Ver O Peso. Santo da Marujada bragantina e padroeiro de Gurupá… Amazônia e Caribe aquele abraço que o profeta canibal Oswald de Andrade, rei da vela de jupati, mandou desde Paris à paulicéia desvairada de Mário de Andrade, “Semana de Arte Moderna” de 1922; que bebeu das fontes amazônicas de Macunaíma, mas ainda não viu o peso da Academia do Peixe Frito, na memória lá do canto do mercado de ferro espiando a feira e a baía do Guajará ao aguardo do porvir.

Oh Ossain, meu são Benedito! Desta antiga praia à boca do igarapé extinto escutai o grito das matas virgens e da gente aflita delas lá tiradas na marra pra dar lugar ao negócio doido e ao desastre ambiental. Ensina a esta gente panema a não ter medo do Outro. Revela a todo mundo o segredo das florestas tropicais com suas árvores folheadas de pássaros encantados e folhas da fortuna. Não causes mais ciúmes aos demais deuses e ícones da santidade. A tua paz com Xangô pode acalmar Iansã e amansar o vento sobre as matas a fim de espalhar ao chão e trazer à feira as folhas de remédio aos males da Terra. Canta, oh Ossain tua eterna canção! Ewé O! Ewé O! As folhas das plantas curativas se voltam para ti, até aquelas em poder de outros orixás. Compartilha com outras santidades o poder da cura, meu são Benedito da praia; embora contigo fique sempre fechado o segredo natural da conservação da vida.
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Ossain tu conhecer o segredo das ervas e das plantas, com elas tu poder realizar curas e prodígios. Tu curaste o rei que quis te pagar uma fortuna em recompensa, mas tu lhe ensinaste somente podias aceitar o pagamento ordinário de dado aos médicos e curadores em geral. Depois da volta ao mundo tu retornaste a casa de sua mãe, achando-a doente e outra vez com o poder das folhas tu lhe devolveste a saúde. Agora nossa mãe Terra está enferma, mas tu a podes salvar ainda, oh Ossain são Benedito. Será justo que aqueles que causaram infinitos males à humanidade e ao planeta paguem aos filhos e filhas de tua Tradição o preço do remédio e salvação deste mundo.

Eis então, que aquilo que o pavor do fim do mundo que o Apocalipse revela; os ritmos quentes do Apocalypso cifram sob as sete chaves do sincretismo. Enquantos anjos com guitarras elétricas e dançarinas angelicais namoram o perigo na fronteira de culturas dissonantes em busca da harmonia perfeita. Seja feita louvação da vida infinita neste dia consagrado aos finados.

 José Varella, Belém-PA (1937), autor dos ensaios “Novíssima Viagem Filosófica”, “Amazônia Latina e a terra sem mal” e “Breve história da amazônia marajoara”.

autor dos ensaios “Novíssima Viagem Filosófica” e “Amazônia latina e a terra sem mal”, blog http://gentemarajoara.blogspot.com