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    América Latina

    Protestos na Bolívia: por que Rodrigo Paz enfrenta pressão nas ruas

    Divisão interna do MAS abriu caminho para uma crise política que se aprofundou com mudanças nos combustíveis e na política fundiária, mobilizando indígenas, mineiros, trabalhadores e movimentos populares

    POR: Ana Prestes

    8 min de leitura

    Protestos na Bolívia exigem renúncia do presidente Rodrigo Paz. Foto: Central Obrera Boliviana
    Protestos na Bolívia exigem renúncia do presidente Rodrigo Paz. Foto: Central Obrera Boliviana

    A Bolívia vive uma sucessão de fatos e eventos muito particulares deste momento histórico da América Latina. Após o golpe de 2019 e o governo ditatorial de Jeanine Áñez, o Movimento ao Socialismo (MAS) — partido de Evo Morales e Luis Arce — venceu as eleições e retornou ao poder. O governo de Luis Arce iniciou com o apoio de Evo e da maioria do MAS. O partido é descrito como um instrumento de ação social: uma frente ampla, plural e composta por diversos movimentos internos. No entanto, ao longo do mandato de Arce, o MAS enfrentou um processo de deterioração interna e uma conflagração entre suas lideranças políticas, incluindo o vice-presidente David Choquehuanca, o próprio Arce, Evo Morales e o jovem promissor Andrônico Rodriguez, que compartilha a mesma base social de Evo.

    O choque, principalmente entre Arce e Evo Morales, comprometeu a capacidade histórica de mobilização e organização popular do MAS. Essa força une o movimento indígena a um espectro mais amplo de trabalhadores, como mineiros, professores e estudantes — setores que foram vítimas do golpe de 2019 articulado pela elite de Santa Cruz. Esse ambiente de divisão interna acabou implodindo a viabilidade de uma sucessão unificada, fosse com Arce ou Evo, para as eleições do ano passado. Foi nesse cenário que Rodrigo Paz, que inicialmente registrava apenas 3% nas pesquisas eleitorais, emergiu como o atual presidente.

    Paz pertence ao Partido Democrata Cristão, uma legenda histórica consolidada na Bolívia desde os anos 1950. Seu vice-presidente, Edman Lara, é do mesmo partido e possui um perfil curioso: é um ex-policial que ganhou grande projeção e popularidade nas redes sociais, especialmente no TikTok, combatendo a corrupção no meio policial. Para vencer as eleições, eles adotaram um discurso que se provou falso logo no primeiro dia de posse. A estratégia foi dialogar com um setor da população que não aderiu ao voto nulo — posição que foi defendida por Evo Morales e alcançou mais de 20% dos eleitores. Esse setor plurinacionalista, embora apoiador das bases do MAS e da Constituição, apostou em Rodrigo Paz como uma solução de centro que não desmontaria as estruturas sociais e o sistema erguido pelos governos anteriores.

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    Contudo, essa expectativa não se confirmou. Com apenas seis meses de mandato, a renúncia de Rodrigo Paz já é exigida em manifestações de rua. Desde o primeiro dia, o presidente fechou as portas para o diálogo com movimentos populares, sociais e sindicatos. O ministério foi composto por uma elite branca e racista, sem conexão com os setores populares, o que contribuiu para conflagrar o país contra a gestão. Já em dezembro, o governo implementou medidas sensíveis, como o aumento do preço dos combustíveis e a introdução da “gasolina basura”, um combustível de baixíssima qualidade que gerou revolta imediata ao danificar veículos e maquinário agrícola – o que aumentou a indignação da população. Esse cenário resultou em uma segunda onda de protestos contra o governo entre dezembro e janeiro.

    Quem é Rodrigo Paz?

    Rodrigo Paz provém de uma linhagem de ex-presidentes da Bolívia: seu pai, Jaime Paz, e seu tio-avô, Víctor Paz. Educado no exterior, com formação nos Estados Unidos e na Europa, ele foi apresentado como uma promessa de modernização, assemelhando-se a figuras como Daniel Noboa (Equador) ou Juan Guaidó (Venezuela). Nas eleições, ele conseguiu se diferenciar da extrema-direita de Tuto Quiroga e Samuel Medina, vencendo o segundo turno contra Quiroga. Atualmente, diante da crise, essas elites de direita e extrema-direita estão se unindo para tentar conter o levante popular.

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    O levante nasce principalmente na região da capital boliviana La Paz. A Bolívia possui organizações populares muito regionalizadas: Cochabamba é vinculada à liderança de Evo Morales, enquanto em La Paz existem tradições e divisões baseadas nas identidades indígenas Quechua e Aymara. Já Santa Cruz abriga uma elite agrária violenta e racista, com forte base religiosa evangélica, que foi a face do golpe de 2019. A Bolívia possui uma organização popular muito forte, profundamente ligada ao campo.

    Comercialização da terra

    Diante desse cenário, a aprovação da Lei 1720 pelo Parlamento tornou-se um ponto de ruptura, pois abriu caminho, pela primeira vez no país, para a comercialização da propriedade da terra e sua inserção em um sistema financeiro de crédito. Essa medida gerou uma desconfiança generalizada na população.

    Historicamente, a Bolívia realiza reformas agrárias desde 1953, consolidando um modelo de gestão de terra comunitária e popular. Esse modelo é predominante em regiões de base indígena e entre pequenos proprietários, como os produtores de coca, que compõem uma base agrícola nacional muito robusta. Por mexer nessa estrutura, a nova lei foi o principal detonador do levante atual. A mobilização acontece através de múltiplas marchas, incluindo uma manifestação massiva que partiu de Cochabamba em direção a La Paz. Vale ressaltar que essas regiões possuem um histórico de resistência marcado por tragédias, como o massacre de Senkata em 2019, ocorrido durante o período em que Jeanine Áñez e Fernando Camacho ascenderam ao poder por meio de um golpe.

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    Figuras como Jeanine Áñez e Arturo Murillo serviram aos propósitos dos Estados Unidos, algo que se provou posteriormente. O próprio Elon Musk afirmou que a busca pelo lítio boliviano — um dos maiores ativos do país ao lado do gás e de outros minerais — esteve na base do golpe na Bolívia. O chamado “triângulo do lítio”, que abrange Bolívia, Chile e Argentina, é cobiçado mundialmente, inclusive o chanceler alemão Olaf Scholz visitou a região buscando garantir o acesso de empresas alemãs a esse recurso.

    Em 20 de maio, o governo de Rodrigo Paz encontra-se “nas cordas”, enfrentando a pressão de um movimento popular e social robusto, composto por trabalhadores urbanos, do campo, mineiros e indígenas. Historicamente, na América do Sul, intervenções em temas sensíveis como combustível e terra costumam gerar grandes levantes, como visto anteriormente no Equador. A distribuição da “gasolina basura” afetou diretamente a produção agrícola ao danificar equipamentos e materiais, agravando a insatisfação popular.

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    Apesar do cerco interno, Rodrigo Paz conta com o apoio da Casa Branca e de figuras como Donald Trump e Marco Rubio. Esses setores tentam deslegitimar as mobilizações associando os movimentos sociais ao crime organizado e ao narcotráfico, alegando falsamente que o presidente enfrenta um golpe articulado pela criminalidade. É lamentável que as disputas internas no MAS entre Evo Morales, Luis Arce e outras lideranças tenham fragmentado o partido, permitindo que a direita vencesse as eleições e impusesse um governo que não reflete os interesses do povo boliviano.

    Assista a íntegra do Conexão Sul Global com Ana Prestes

    Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.

    *Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 20/05/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.

    **Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.