No recém-lançado livro Quem tem medo da China: a construção da ameaça chinesa (Editora Cultura, 2026), os pesquisadores Diego Pautasso e Isis Paris Maia analisam criticamente as narrativas construídas para justificar estratégias de contenção do desenvolvimento chinês adotadas pelo Ocidente, com papel destacado dos Estados Unidos.
Termos como “ameaça chinesa” e narrativas sobre autoritarismo, “armadilha da dívida”, violações de direitos humanos, neoimperialismo e degradação ambiental integram o léxico analisado no livro como parte de um repertório discursivo que sustenta políticas antichinesas.
“Ao tecer essa radiografia das narrativas antichinesas, buscamos o ‘fio da meada’ dessa construção, analisando de que maneira o excepcionalismo da política externa americana, ao longo de sua história, baseou-se na construção de um inimigo como forma de legitimar a expansão imperial e a afirmação de sua hegemonia”, destaca o geógrafo e cientista político Diego Pautasso, diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach).
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A obra detalha a transição do poder mundial e as disputas tecnológicas atuais, expondo as fragilidades das potências tradicionais diante do socialismo do século XXI desenvolvido sob a liderança do Partido Comunista Chinês (PCCh). Por meio de uma perspectiva histórica, a publicação convida o público a superar visões etnocêntricas para entender a trajetória singular de desenvolvimento chinês. “O livro procura mostrar que essa dinâmica não pode ser compreendida apenas como um embate ideológico, mas como expressão das tensões geradas pela ascensão chinesa em um sistema internacional historicamente estruturado sob hegemonia ocidental”, destaca a historiadora Isis Paris Maia, professora colaboradora da Pós-Graduação em China Contemporânea da PUC-Minas.
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Com vasta experiência acadêmica, os pesquisadores oferecem ferramentas para decifrar a geopolítica contemporânea e a reconfiguração da imagem do gigante asiático no cenário internacional. O arcabouço teórico desenvolvido é abordado no livro em linguagem acessível, refletindo a atuação dos autores no projeto Fios da China, que tem por objetivo aproximar a produção acadêmica de um público mais amplo. “A principal contribuição do livro talvez seja justamente oferecer ferramentas para que o leitor brasileiro consiga analisar a China para além dos estereótipos, entendendo suas contradições, seus avanços e os desafios envolvidos em sua trajetória de desenvolvimento”, destaca Isis Paris Maia.
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Confira a entrevista com os autores
Portal Grabois: O livro propõe uma leitura crítica sobre como a China passou a ocupar o centro de narrativas de ameaça global. Como a obra ajuda o leitor a identificar e desmontar essa visão construída sobre a China?
Diego Pautasso: Apresentamos as narrativas que têm caracterizado a vilanização da China, como o Partido Comunista sendo tratado como uma ameaça existencial, as questões do autoritarismo e da ditadura, e a imagem da China como um grande poluidor e destruidor do meio ambiente. Abordamos também a narrativa de que o país desrespeita direitos humanos e minorias, além daquela que talvez seja a narrativa primordial: a de uma nação que utiliza mão de obra superexplorada para produzir produtos de baixa qualidade com base na pirataria e no desrespeito às normas de produção e de comércio. Mais recentemente, surgiu a ideia da China como um país imperialista ou neoimperialista, que utilizaria inclusive a “armadilha da dívida” para submeter outros países. Ao tecer essa radiografia das narrativas antichinesas, buscamos o “fio da meada” dessa construção, analisando de que maneira o excepcionalismo da política externa americana, ao longo de sua história, baseou-se na construção de um inimigo como forma de legitimar a expansão imperial e a afirmação de sua hegemonia. No caso da China, isso começa como uma formulação na virada do século XXI e se institucionaliza como política de Estado de contenção a partir de 2011, no governo Obama. Descrevemos no livro a construção dessa política de contenção por parte de Washington.
Isis Paris Maia: O primeiro capítulo da obra apresenta uma reconstituição histórica e teórica de como os Estados Unidos e seus aliados foram construindo, ao longo das últimas décadas, a narrativa da China como uma ameaça global. Buscamos demonstrar que essa percepção não surge espontaneamente, mas está vinculada às disputas por poder, tecnologia, comércio e liderança internacional em um contexto de transição sistêmica. Os capítulos seguintes analisam criticamente algumas das principais narrativas mobilizadas contra a China, como as acusações relacionadas ao autoritarismo, à tecnologia, à dívida, ao meio ambiente e à expansão geopolítica. A proposta não é idealizar a China ou negar contradições existentes, mas contextualizar essas questões historicamente e desmontar leituras simplificadoras e frequentemente marcadas por forte viés etnocêntrico. No último capítulo, procuramos responder justamente à pergunta “quem é a China hoje?”, apresentando o país como uma experiência histórica complexa, marcada por um processo singular de desenvolvimento, modernização e inserção internacional.
De que maneira a construção da ideia de uma “ameaça chinesa” tem sido mobilizada para legitimar políticas de contenção por parte dos Estados Unidos e de outras nações ocidentais no cenário de uma nova Guerra Fria?
Isis Paris Maia: A construção da ideia de uma “ameaça chinesa” cumpre um papel estratégico semelhante ao que outras figuras de inimigo exerceram em diferentes momentos históricos. A existência de um adversário externo ajuda a justificar políticas de contenção econômica, tecnológica, militar e diplomática, além de reforçar alianças geopolíticas lideradas pelos Estados Unidos.
No contexto atual, essa narrativa tem sido utilizada para legitimar sanções, barreiras comerciais, restrições tecnológicas, disputas em torno das cadeias produtivas e o fortalecimento de mecanismos de segurança e defesa no Indo-Pacífico. Ao mesmo tempo, contribui para reorganizar o imaginário político do Ocidente em torno da ideia de uma nova Guerra Fria. O livro procura mostrar que essa dinâmica não pode ser compreendida apenas como um embate ideológico, mas como expressão das tensões geradas pela ascensão chinesa em um sistema internacional historicamente estruturado sob hegemonia ocidental.
Diego Pautasso: Mostramos no livro que essas narrativas operam para facilitar a imposição de políticas como a guerra comercial, a guerra tecnológica e o apoio a movimentos separatistas em Xinjiang, no Tibete e em Taiwan. Expomos também a criação de alianças voltadas a conter a China na bacia do Pacífico. Por trás da construção da “ameaça chinesa” desdobram-se políticas nos âmbitos comercial, econômico, securitário e diplomático, todas destinadas a isolar e evitar que a China se afirme como uma liderança global — uma estratégia que, nitidamente, tem falhado.
Essas narrativas baseiam-se, inicialmente, em uma tentativa de invisibilizar o desenvolvimento chinês e, posteriormente, em distorcer as causas de seu sucesso. Rejeitamos a explicação simplória de que o crescimento chinês decorra apenas de uma liberalização completa ou exclusivamente de pirataria e violação de normas. Na verdade, trata-se da reafirmação de um projeto nacional de desenvolvimento e da herança da Revolução de 1949. Estamos diante de um socialismo do século XXI que, ao mesmo tempo em que rejeitou o pensamento único neoliberal, soube realizar uma leitura crítica das disfunções e contradições do socialismo real. Fizemos essa análise para mostrar como o país evitou replicar erros do passado, adaptando-se às realidades históricas, geográficas, tecnológicas e sistêmicas do século atual.
Além de analisar as disputas contemporâneas, o livro convida o leitor a ir além de idealizações. Como a trajetória acadêmica de vocês e o projeto Fios da China contribuíram para oferecer ferramentas que permitam ao público brasileiro compreender o percurso singular de desenvolvimento da China sem as lentes do etnocentrismo?
Diego Pautasso: Além de nossa produção propriamente acadêmica, composta por artigos e livros como este que estamos lançando, entendemos que existe uma disputa de ideias e de entendimentos, uma tentativa de romper com as leituras hegemônicas sobre a China. Para tanto, desenvolvemos há alguns anos o projeto Fios de China, voltado à difusão científica sob uma perspectiva crítica. Nosso propósito é oferecer uma visão que escape às leituras etnocêntricas que hoje são dominantes no Ocidente.
Isis Paris Maia: O projeto Fios de China nasce justamente da preocupação em aproximar a produção acadêmica do público mais amplo, tornando a ciência mais acessível. Ao longo dos últimos anos, buscamos apresentar dados, processos históricos, transformações econômicas e debates políticos sobre a China de maneira contextualizada, evitando tanto caricaturas negativas quanto idealizações acríticas. A principal contribuição do livro talvez seja justamente oferecer ferramentas para que o leitor brasileiro consiga analisar a China para além dos estereótipos, entendendo suas contradições, seus avanços e os desafios envolvidos em sua trajetória de desenvolvimento.
Serviço
Quem tem medo da China? A construção da ameaça chinesa
Autores: Diego Pautasso e Isis Paris Maia
Editora: Editora Cultura
ISBN: 9786557480878
Edição: 1ª edição (2026)
Páginas: 184
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Sobre os autores

Diego Pautasso e Isis Paris Maia. Foto: Arquivo Pessoal
Diego Pautasso é doutor e mestre em Ciência Política e graduado em Geografia pela UFRGS. É professor do Colégio Militar de Porto Alegre, co-criador do projeto de difusão científica @fiosdechina (Instagram) e diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach). Autor dos livros Imperialismo – ainda faz sentido na Era da Globalização?; A China Atual No Legado De Mao Tsé-tung; e China e Rússia no Pós-Guerra Fria, bem como co-autor de A China e a Nova Rota da Seda; Teoria das Relações Internacionais: contribuições marxistas; e de Domenico Losurdo: crítico do nosso tempo. E-mail: [email protected]
Isis Paris Maia é historiadora, mestre e doutoranda em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É professora colaboradora da Pós-Graduação em China Contemporânea da PUC-Minas e cofundadora do projeto de difusão científica no Instagram @fiosdechina. Atualmente pesquisa instituições na China, com ênfase em governança digital e tecnologias em políticas públicas. E-mail: [email protected]