Logo Grabois Logo Grabois

Leia a última edição Logo Grabois

Inscreva-se para receber nossa Newsletter

    Agricultura

    Revolução na precificação do gás natural que pode reindustrializar o Brasil

    Com a produção nacional em crescimento, o gás natural pode deixar de ser apenas combustível e voltar a impulsionar a indústria. Caminho passa por contratos baseados no modelo net back, que associam seu valor à produção de fertilizantes, amônia, ureia e petroquímicos

    POR: Carlos Alberto Lopes e Luís Eduardo Duque Dutra

    7 min de leitura

    Instalações de armazenamento e processamento de gás da Petrobras. Foto: Agência Petrobras/Divulgação.
    Instalações de armazenamento e processamento de gás da Petrobras. Foto: Agência Petrobras/Divulgação.

    Anunciado algumas vezes, o choque de oferta está em curso no mercado de gás natural. Até 2031, a produção nacional dobrará e haverá menor pressão sobre o preço. O valor atual inviabiliza seu uso como matéria-prima. Por isso, os fertilizantes nitrogenados, usados na agricultura, e o metanol, um petroquímico básico para produzir biodiesel e resinas para madeiras, foram integralmente importados em 2024; uma situação que perdura. A oportunidade para substituir as importações e reverter o declínio da indústria é única.

    A responsável pelo choque será a Petrobras. No momento, recupera posições estratégicas. Entre grandes petroleiras, até há pouco, só ela não operava ativos petroquímicos. Também diferente das demais, há quatro anos, não tem mais nada no transporte e distribuição de gás natural. A dependência em relação aos fertilizantes nitrogenados e seu custo não passaram despercebidos. É a ocasião para ganhar escopo, retornar à petroquímica, ao mesmo tempo em que dá destino mais proveitoso e diverso ao gás do pré-sal.

    No exterior, a guerra da Ucrânia, as tarifas de Trump e o fechamento de Ormuz anunciam incertezas futuras quanto ao gás natural, fertilizantes e outros petroquímicos. A complexidade da produção e da geopolítica global merece atenção. Vale revisar certas cadeias produtivas e a formação de seus preços para entender a lógica das petroleiras e não só delas. Brevemente e de trás para frente, a ureia granulada é um fertilizante nitrogenado derivado da ureia que provém da amônia que, por sua vez, é produzida pela transformação do metano contido no gás natural. Ele responde por 60% do custo da amônia.

    + Derrotados, EUA estabelecem com Irã primeiro acordo de multipolaridade, por Elias Jabbour
    + Especial Guerra no Irã, petróleo e crise energética: Energia cara, futuro incerto

    Além do preço do gás, os investimentos somam valores incomuns, até quando tomados isoladamente. A montante, contando com gás associado (a extração é paga pelo petróleo), será preciso US$ 1,5 bilhão para separá-lo e escoá-lo. A UPGN para tratá-lo está orçada em US$ 0,5 bilhão. As unidades para fabricar amônia, ureia e granulá-la, em conjunto, custariam entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões nos EUA. Na África, um projeto na Etiópia está em torno de US$ 4,5 bilhões. São fábricas de porte global com projetos elaborados por poucas empresas: Thyssen, Saipem e HoneywellUOP. Somando tudo, do poço ao fertilizante, a despesa fica entre US$ 5 bilhões e US$ 6 bilhões. Outrossim, no melhor cenário, o início das operações demandará entre 4 e 5 anos.

    As somas são descomunais e, por isso, sem fornecimento e preço garantidos por vinte anos, projetos do tipo nunca sairão do papel. Estimar o preço do gás no longo prazo é um desafio, tendo em vista a volatilidade e a inexistência de um mercado mundial. Fora as crises, os preços europeus são quatro vezes maiores que nos EUA e cinco a seis vezes na Ásia. No Brasil, a regra de aproximação é apreciá-lo a partir de um décimo do valor do petróleo em energia equivalente. Historicamente, o preço do gás foi atrelado ao óleo para competir com seus derivados. Isso reduz a desvantagem concorrencial, mas não mitiga a volatilidade.

    Nos últimos trinta anos, ocorreu uma transformação profunda dos mercados com o gradual descolamento do gás em relação ao petróleo. Três fatores se combinaram: a penetração na geração elétrica, o transporte de GNL por metaneiros e o gás não convencional nos EUA. Em 2024, apenas 18,5% dos negócios foram indexados ao óleo, segundo a União Internacional do Gás (IGU). Praticamente metade, ou 49% dos negócios, teve como referência preços de mercados do próprio gás (HH, TTF e JKM). Os novos contratos e as vendas de GNL a preço spot demonstram a notável liquidez e envergadura deste comércio.

    + Ronaldo Bicalho: sem Estado, transição energética é ameaça ao Brasil

    O preço que pode destravar os investimentos

    Fora a indexação ao petróleo e os índices próprios ao gás, boa parte do volume restante, um quarto, foi negociado a preços regulados, em geral baseados no custo de serviço e nos impactos sociais de seu uso. Por fim, e é o que interessa, talvez 5%, ou até menos, deste volume foi vendido seguindo uma fórmula denominada net back price. O preço do gás é combinado entre comprador e vendedor de forma a dividirem riscos e margens ao final da cadeia produtiva.

    Em vez de ser indexado ao barril, ou aos mercados regionais do gás, ou ainda regulado, ou fixo, seu valor será função do preço da amônia, da ureia ou do metanol. Como mais de 60% do custo depende do gás, o produtor desiste de estabelecer seu valor a priori, em troca de participar do valor agregado em sua transformação. Trata-se da mesma lógica que empurra as petroleiras a verticalizar as atividades petroquímicas, ou das empresas químicas, na direção oposta, de incorporarem à produção de gás.

    A fórmula do preço net back é uma alternativa à verticalização. A modelagem é feita sob medida para o uso do gás como matéria-prima. Para a petroleira, uma vantagem adicional à participação no valor a jusante repousa na diversificação com um consumo-âncora: volumoso, regular e localizado. Ele permite alavancar a procura por gás. Para grande petroquímica, ela controla mais da metade do seu custo. Considerando a volatilidade do preço, tem-se também alguma previsibilidade orçamentária. Além de tudo, assegura-se o retorno das inversões nas diferentes unidades produtivas, o que facilita a complexa engenharia financeira e faz o negócio viável.

    No Brasil, um tal mecanismo contratual seria uma revolução nos costumes. Por aqui, os preços sempre foram indexados ao óleo e, recentemente, alguns à paridade de importação do GNL, quando não aos preços nos EUA, o Henry Hub. Sem um mercado mundial a servir de referência, qualquer indexação do tipo está distante da realidade brasileira. Pior, trata-se de um gargalo estrutural na formação do preço que impede gerar mais valor.

    A iminência de um choque de oferta, com a duplicação do volume de gás doméstico, faz antever uma mudança estrutural. Seguindo uma lógica puramente comercial, a implementação de um preço net back está alinhada à realidade da petroquímica. No Brasil, a quebra do paradigma, com a adoção de um modelo contratual baseado no net back, será uma inovação maior, pois permite superar os entraves que, historicamente, impediram investimentos greenfield em plantas de metanol, amônia e ureia.

    O aproveitamento do gás natural, a autonomia nos fertilizantes e a produção de metanol podem reverter o declínio da indústria química. Não faltam modelos de negócios, mecanismos de preço e contratos bilaterais para construir parcerias duradouras entre detentoras de reservas e firmas petroquímicas.

    Os métodos para fixar o preço, indexados ao óleo ou referenciados ao próprio gás em mercados no exterior, não correspondem à situação brasileira e não viabilizam alianças entre as empresas. Ao contrário, adotando um preço do gás calculado de trás para frente, elas fariam uma revolução em termos da correta apreciação do seu valor como matéria-prima.


    Carlos Alberto Lopes é economista e diretor da Consultoria ChemVision.

    Luís Eduardo Duque Dutra é doutor em Ciências Econômicas pela Universidade de Paris-Nord e professor da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ.

    *Texto publicado originalmente no Valor Econômico, em 15 de junho de 2026, com o título A revolução na precificação do gás natural.

    **Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a opinião da Fundação Maurício Grabois.

    Notícias Relacionadas