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    América Latina

    Hondurasgate: como extrema-direita tenta desestabilizar América Latina

    Operação funciona como uma central de manipulação de informações para moldar a opinião pública, com financiamento devidamente documentado

    POR: Ana Prestes

    6 min de leitura

    Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, realizam uma coletiva de imprensa na Casa Branca, em 04/02/2025.
Foto: Divulgação - Casa Branca via X
    Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, realizam uma coletiva de imprensa na Casa Branca, em 04/02/2025. Foto: Divulgação - Casa Branca via X

    O que é o Hondurasgate? Se você acompanha a conjuntura internacional, provavelmente já ouviu falar desse tema, que envolve Honduras, a extrema direita internacional e a disputa de poder na América Latina. Esta história, que ganha grande repercussão em nossa região, envolve a atuação dos Estados Unidos e de Israel em países como Honduras, México e Colômbia. O canal espanhol Diário Rede revelou uma série de áudios que comprovam não se tratar de uma mera teoria ou suposição, mas de fatos documentados.

    As gravações expõem autoridades como Donald Trump, Benjamin Netanyahu e Javier Milei em diálogos sobre as últimas eleições hondurenhas. Esse processo eleitoral, extremamente conturbado e sob suspeita, serviu como um estopim ou epicentro para uma estratégia maior na região. Durante as primárias partidárias de março de 2025, houve evidências claras de que o pleito não seria tranquilo: urnas desapareceram e outras foram encontradas abandonadas em vias públicas, confirmando as previsões de instabilidade no processo. Já prevíamos o que ocorreria. Após os eventos de março de 2025, as eleições em Honduras foram realizadas no final do ano, entre novembro e dezembro. Poucos dias antes do pleito propriamente dito, o ex-presidente Juan Orlando Hernández foi libertado da prisão nos Estados Unidos, onde cumpria pena por envolvimento com o tráfico de drogas.

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    Sua soltura foi uma manobra de reta final de campanha para favorecer Nasry Asfura, do Partido Nacional, que concorria contra Rixi Moncada, do partido Libre. Moncada representava a continuidade do governo de Xiomara Castro e do grupo político liderado por Manuel Zelaya. Vale recordar que Zelaya, eleito em 2006, sofreu em 2009 o primeiro de uma série de golpes de Estado na região, marcando o início de uma onda de restauração conservadora para derrotar os governos progressistas na América Latina.

    As revelações do Diário Rede expõem uma articulação entre governos que alegam trabalhar para “atacar e extrair o câncer da esquerda”. As transcrições dos áudios seguem um enredo comum: a destruição de governos progressistas na América Latina, iniciando pelo caso de Honduras. Dentro dessa estratégia, destaca-se o papel de Juan Orlando Hernández. Condenado a 45 anos por tráfico de drogas, ele foi perdoado por Trump poucos dias antes das eleições. Após ser libertado, Hernández assumiu a coordenação de uma unidade digital patrocinada pelos Estados Unidos, com o objetivo de disseminar notícias falsas para desestabilizar governos progressistas, especificamente os de Gustavo Petro, na Colômbia, e de Claudia Sheinbaum, no México.

    Esta operação funciona como uma central de manipulação de informações para moldar a opinião pública, com financiamento devidamente documentado. O governo da Argentina, liderado por Javier Milei, já investiu mais de 150 mil dólares no projeto e prometeu enviar outros 300 mil dólares para financiar a desestabilização de governos progressistas na nossa região, apesar da severa crise econômica enfrentada pelo país.

    Os áudios revelam que um dos alvos principais é Gustavo Petro, na Colômbia, por meio de tentativas de incriminá-lo por envolvimento com o tráfico internacional. Essa estratégia utiliza a narrativa norte-americana de “narcoestado” e “narcoterrorismo” para justificar ingerências e intervenções, método que também tem sido aplicado contra o governo de Claudia Sheinbaum, no México, alegando sua incapacidade de enfrentar o tráfico de drogas no país.

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    Este é o fio condutor da investigação sobre o Hondurasgate. Na Colômbia, em pleno período eleitoral, o noticiário fala sobre a Operação Júpiter, que consiste na compra de influenciadores e na montagem de um sistema digital de produção de conteúdo para destruir reputações. O objetivo é criar “espantalhos políticos” contra Iván Cepeda, candidato à presidência, e outras lideranças do Pacto Histórico (PH) –  aliança governista de esquerda do presidente Gustavo Petro. Embora essa trama possa parecer conspiratória ou excessivamente especulativa, ela se fundamenta em fatos e eventos concretos: as eleições conturbadas em Honduras e a libertação altamente incomum do ex-presidente Juan Orlando Hernández.

    Os áudios entre Juan Orlando Hernández e Nasry Asfura sugerem que este último prestava contas ao ex-presidente como se fosse seu subordinado. A operação conta com o aporte de recursos da Argentina e de Israel para financiar a referida unidade digital. Embora o termo Hondurasgate remeta ao estopim do escândalo, a trama abrange toda a região por meio de denúncias explosivas e vazamentos que acusam políticos de esquerda de associação com o narcotráfico. Figuras como Donald Trump e Marco Rubio utilizam essa abordagem, inclusive em relação ao Brasil, para justificar ingerências e criar um clima de desestabilização durante períodos eleitorais.

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    Em Honduras, os eventos ocorridos na reta final impediram que o processo fosse considerado tranquilo ou normal. Essa dificuldade em manter a normalidade democrática é recorrente na América Latina, como exemplificado pela recente prisão preventiva de um candidato de esquerda no Peru. Na atual gestão Trump, marcada por uma nova estratégia de segurança nacional e pela influência de Marco Rubio no Departamento de Estado, o Hondurasgate ajuda a compreender como se materializam as tramas dessa megaoperação digital contra governos de esquerda na região. Espero que este conteúdo tenha contribuído para o debate sobre os desafios atuais da nossa América Latina.

    Assista a íntegra programa Conexão Sul Global na TV Grabois

    Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.

    *Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 12/02/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.

    **Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.

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