O ano de 2015 abriu as portas para uma tragédia da democracia brasileira: o golpe que resultou na deposição de Dilma Rousseff no ano seguinte. Tudo começou com as acusações de corrupção contra o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, à época deputado pelo PMDB-RJ. Cunha pretendia contar com o apoio do governo Dilma para barrar as investigações que o atingiam. Como esse apoio não veio, passou a conduzir uma agenda de pautas-bomba que comprometeram o orçamento federal e deram início ao processo de impeachment da presidenta. O restante da história é bem conhecido.
Passados dez anos daquele golpe, a história parece se repetir, desta vez no Senado Federal. Presidente da Casa, Davi Alcolumbre tem sido alvo de uma série de denúncias e investigações sobre o escândalo do Banco Master. Sem receber do governo federal o apoio que desejava, passou a respaldar agendas contrárias ao Executivo: dificultou a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal e abriu caminho para a votação de novas pautas-bomba que aumentam as despesas obrigatórias do governo.
Agora, em seu mais recente movimento, Alcolumbre optou por atrasar ao máximo a tramitação da PEC 221/2019, aprovada pela Câmara dos Deputados, que reduz a jornada de trabalho e põe fim à chamada escala 6×1. A proposta chegou ao Senado em 28 de maio de 2026 e, até o momento, sequer foi despachada pelo presidente do Senado.
+ Nas redes: Deputada Daiana Santos (PCdoB-RS) contesta posicionamento de Alcolumbre:
Em discurso, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre deixou bem claro que não presente pautar tão cedo a PEC do fim da escala 6×1! Ele disse que ou coloca em pauta “todas as PECs” ou na coloca nenhuma. Ou seja, um projeto que mudará a vida de 34 milhões de pessoas está sendo… pic.twitter.com/QsFhgLgRVK
— Daiana Santos (@daianasantospoa) June 9, 2026
Não se trata de um tema secundário nem corporativo. A proposta dialoga diretamente com a vida cotidiana de milhões de trabalhadores e trabalhadoras que enfrentam jornadas exaustivas e dispõem de pouco tempo para a convivência familiar, para os estudos, para o lazer e até mesmo para o descanso. Além de atrasar o andamento dessa iniciativa, Alcolumbre acelerou a apreciação da proposta da oposição (PEC 12/2026) que permite a contratação por hora trabalhada sem alterar a escala de trabalho no país.
+ “Trabalho liberta”? A escala 6×1 e o espírito do capitalismo, por Carolina Ruy e Igor Pereira
Em Nota Técnica publicada pela Fundação Maurício Grabois, tive a oportunidade de demonstrar alguns dos benefícios econômicos e sociais do fim da escala 6×1, entre eles a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores, o aumento da produtividade e a geração de novos postos de trabalho. Em uma sociedade marcada por profundas desigualdades, a redução da jornada representa um avanço comparável a outras conquistas históricas do mundo do trabalho. Ao bloquear esse debate, o presidente do Senado não apenas dificulta a tramitação de uma demanda amplamente apoiada pela população, mas também se coloca ao lado daqueles que insistem em preservar relações de trabalho cada vez mais precárias em nome de interesses econômicos de curto prazo.
Leia outros artigos do autor:
+ Mais-valia e rumos distintos da jornada de trabalho na América Latina
+ Redução da jornada de trabalho: uma exigência do século XXI
Em seu livro O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, publicado em 1852, Marx observou que os grandes acontecimentos da história tendem a ocorrer duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Se o golpe conduzido por Cunha representou uma tragédia para a democracia brasileira, a tentativa de Alcolumbre de impor sua agenda particular contra os interesses da maioria não passará de uma farsa.
Theófilo Rodrigues é professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política do Iuperj/UCAM e coordenador do Grupo de Pesquisa da FMG sobre a Sociedade Brasileira. Também é diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach).
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.