O desenvolvimento histórico nos mostra com intensidade profunda uma dinâmica avassaladora: nações que conseguiram obter elevados graus de desenvolvimento econômico tornaram-se referências para outras nações. E não apenas na infraestrutura econômica, mas também em elementos fundamentais da superestrutura como seus sistemas políticos e elementos culturais, genericamente chamados nas últimas décadas de “soft power”, o poder para além da economia e da força militar. Como nos ensinaram Lênin e Gramsci, a hegemonia não brota da força bruta, da opressão, ou apenas delas, e nem se mantém por muito tempo apenas pela imposição das armas.
A relação entre capacidade produtiva, comercial, financeira e os aspectos culturais, subjetivos e de estrutura política, se retroalimentam dialeticamente. Parte significativa da predominância de uma nação sobre outras inclui também a conquista, ao menos parcial, de “corações e mentes” através de elementos culturais, que vão do uso – mesmo parcial – da língua, costumes, da arte e da própria presença econômica com a penetração de produtos, instalação de empresas e projeção de marcas de bens de consumo.
Apenas a título de ilustração, muitas das invasões dos povos germânicos aos territórios do Império Romano, conhecidas como “invasões bárbaras”, tiveram como consequência uma espécie de “romanização”, com a adoção das instituições romanas, suas leis e o cristianismo, tamanha havia sido a força daquela civilização que predominou por séculos em toda a área do Mediterrâneo e em boa parte da Europa. Mesmo na sua fase de decadência e desmantelamento, a força cultural romana ainda era muito intensa. O raciocínio vale para as demais nações que ao longo do tempo conseguiram proeminência produtiva e projeção de poder para além da força econômica e militar em si.
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A hegemonia nasce da força produtiva
Nesse rol de nações, a seu tempo, tivemos o predomínio ibérico de Portugal e Espanha nos séculos XV e XVI, formatando inicialmente o que se convencionou chamar de “Primeira Globalização”, na época da expansão comercial europeia. A partir dali, França, Inglaterra e Holanda, principalmente, seguiram o exemplo e se puseram a campo para estabelecer seus domínios pelo mundo.
O segundo grande movimento, puxado por uma nação, foi a Revolução Industrial Inglesa, a partir da segunda metade do século XVIII, que possibilitou, além da enorme intensificação produtiva da Inglaterra, sua expansão ainda mais intensa, que já vinha ocorrendo desde o século XVI. E, claro, o predomínio da burguesia industrial, porque sempre é importante entender que Estados, de modo geral, respondem aos interesses essenciais da classe dominante em cada período histórico.
O paradigma industrial foi tão poderoso que na sua esteira vieram um sem-número de elementos que foram progressivamente adotados por outras nações que também realizaram suas próprias revoluções industriais, especialmente Alemanha, Itália, França, EUA e Japão. E para além delas, industrialização passou a ser uma necessidade intrínseca da modernização econômica e de fortalecimento das soberanias nacionais, de unificações territoriais sob comando das burguesias industriais, como na Itália, Alemanha e inclusive nos EUA com a Guerra Civil vencida pelo norte do país industrializado contra o sul agrário.
Tendo a Inglaterra como epicentro, o comércio internacional, de modo geral, passou a adotar as regras inglesas, sua língua, seu padrão de pesos e medidas, modo de vestir e, mesmo já na sua fase decadente, pós-Segunda Guerra Mundial, a Inglaterra conseguiu exportar para o mundo ocidental uma onda cultural sem precedentes a bordo do fenômeno da Beatlemania. Novamente: o soft power tem essa característica de seguir influenciando por um certo tempo mesmo com a decadência econômica.
Um desdobramento da industrialização europeia foi o predomínio produtivo e cultural dos EUA sobre o mundo capitalista após a Segunda Guerra Mundial, processo que já vinha em desenvolvimento desde o início do século XIX a partir da adoção combinada das doutrinas Monroe – “América Para os Americanos” (1823) e Destino Manifesto (1845). Mas foi a partir da Guerra Civil (1861-1865) que consolidou o capitalismo como processo produtivo predominante, com a imposição ao conjunto do país da lógica industrial dos estados do norte sobre os estados agrários do sul, que as forças produtivas estadunidenses alcançaram uma escala intensa, passando a rivalizar com sua terra mãe, a Inglaterra, superando-a, e toda a Europa, após as hecatombes combinadas das I e II Guerras.
Em meados da década de 1950, já em intenso confronto em todos os campos com a União Soviética, na Guerra Fria, os EUA consolidavam sua posição como “oficina do mundo”. Metade de toda a produção industrial global era feita em solo estadunidense e a implementação do Plano Marshall na Europa, de recuperação econômica dos países que seguiram alinhados ao capitalismo, expandiu enormemente o poderio econômico.
Acompanhando a pujança do capitalismo yankee, a burguesia de lá consolidou uma portentosa “indústria cultural” espalhando pelo ocidente o “modo de vida americano” por um lado. Por outro, tendo o contraponto do socialismo em franca expansão após a Segunda Guerra, disseminou o conceito de “defesa do Mundo Livre”, ou seja, do capitalismo, contra o “perigo comunista”.
Esse confronto foi imperioso para aos EUA e países capitalistas já que a União Soviética, também ancorada em um intenso projeto de desenvolvimento econômico e social tendo como base fundamental a produção industrial, havia conquistado intensos apoios populares graças às enormes transformações positivas dos povos que a compunham, em um tempo recorde, entre 1917 e o início dos anos 50, particularmente impressionante por ter saído dos escombros da Primeira Guerra (1914-1917), da Guerra Civil (1918-1921) e da brutal invasão nazista na Segunda Guerra. Em 30 anos, e passando por tudo isso, a URSS era a segunda economia do planeta, desenvolvia tecnologias de ponta e liderava pelo exemplo basicamente um terço dos povos do mundo, dentro e fora do Bloco Socialista. À época, existiam mais de 100 Partidos Comunistas nos diversos países do mundo, inspirados pelo desenvolvimento do socialismo soviético. Novamente: a força econômica e as transformações sociais consequentes estabeleciam parâmetros para parte significativa do mundo.
Cabe aqui um “parêntese”. Na carona dessa peleja, Japão e Coreia do Sul também conseguiram surfar por algum tempo na combinação entre crescimento econômico e exportação de aspectos da sua cultura. Atualmente, o K-pop coreano é uma manifestação disso. Mesmo o Brasil, com nossas limitações produtivas conhecidas, na época do Nacional Desenvolvimentismo, especialmente na segunda metade dos anos 1950 e atravessando a década de 1960, teve algum grau de soft power com o futebol e a música. O futebol, em especial, que se sagrou tricampeão mundial de futebol entre 1958 e 1970, ainda guarda reflexo importante daquela época.
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Novamente: sempre é mais fácil compreender o pensamento dominante em um determinado período histórico quando observamos a estrutura econômica predominante e como as ideias em defesa dessa estrutura (no caso, o capitalismo) se tornaram dominantes também. E como tudo na vida tem contradições, a consolidação do capitalismo trouxe profundas contradições, insolúveis, gerando ao mesmo tempo ideias de contraposição e defesa da sua extinção. Mas, ora, a ideia de transformar uma sociedade só existe porque ela, a sociedade, na sua forma tal ou qual, predomina e parte significativa de quem nela vive não se sente contemplada e exige mudanças. Sociedades estratificadas em classes sociais, como o capitalismo, produzem contradições intensas que tendem a eclodir conforme determinadas condições objetivas. Contradições internas, na relação entre classe que controla os meios de produção e a massa trabalhadora e externas, já que, apesar do soft power, o que predomina é a relação de imposição de submissão econômica das nações poderosas sobre as demais.
A hora e a vez da China Socialista
Nas últimas décadas, o mundo vivencia um processo combinando intenso declínio produtivo industrial nos países centrais do capitalismo, na Europa, EUA e Japão, e a arrancada fulminante da China Socialista, que se tornou não apenas uma potência comercial, mas, essencialmente produtiva, a nova “fábrica do mundo” através de uma produção industrial que criou as condições para a expansão comercial, com alto valor tecnológico agregado associado ao que provavelmente é a maior transformação social da história, com a promoção de mais de 800 milhões de pessoas para fora da pobreza absoluta.
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Não me detenho neste texto nas causas múltiplas e complexas desse intenso declínio produtivo ocidental, cantado em verso e prosa por analistas de vários espectros ideológicos, especialmente pelos que dominam o instrumental do materialismo histórico-dialético. Mas é necessário deixar estabelecido que esse declínio é seguido, progressivamente, da decadência da influência cultural, ideológica, política do “soft power” dessas nações ou blocos econômicos do Ocidente. Decadência é processo histórico e não um corte radical, rapto, abrupto. Inclusive porque o imperialismo, especialmente o estadunidense, tenta fazer movimentos objetivos e subjetivos para tentar reverter esse processo, porque é assim que as relações se dão.
Aponto, portanto, alguns elementos que nos mostram como tem sido esse avassalador processo de construção de uma economia intensamente potente e como a partir dela, combinando elementos fundamentais de planejamento geral sob a orientação do Partido Comunista da China (PCCh), a grande nação asiática assumiu o protagonismo produtivo e agora começa a deslanchar também uma crescente influência cultural especialmente no Ocidente, o que, dadas as diferenças culturais e linguísticas, vai se constituindo em um movimento ainda mais impressionante.
É necessário reafirmar que a própria infraestrutura produtiva, que permite grande geração de excedente de bens de consumo, bens de capital e capitais voltados para a exportação, é parte integrante e indissociável do soft power. Quando uma nação se torna exportadora de produtos em larga escala, não se trata “apenas” de venda de produtos, mas também de venda de “marcas”, estilos de vida e propaganda embutida sobre o próprio processo de produção e o sistema econômico que possibilita tal produção. Isso se dá também por um pesado processo de investimentos em propaganda e marketing nos diversos meios de comunicação e, a depender da extensão desse investimento, tendencialmente, esses instrumentos de comunicação de massas tornam-se progressivamente mais simpáticos às nações que pagam pesadas contas para impulsionar suas vendas. Grandes veículos de comunicação, grosso modo falando, são montados principalmente para servirem como intermediários entre a produção industrial/capital financeiro/comércio e os consumidores, e estão a serviço deles. Quem paga a banda exige a música. Aqui no Brasil, começamos a sentir os primeiros efeitos dessa relação a partir do principal órgão de comunicação de massas, que tem promovido reportagens bastante simpáticas à China.
Um processo que tem disparado nos últimos anos, pela combinação de múltiplos fatores, é o “Chinamaxxing”. Uma crescente onda de jovens de países ocidentais, especialmente nos EUA, tem adotado práticas tipicamente chinesas no seu cotidiano, manifestando intenção de visitar ou fixar residência naquele país. Do hábito de tomar água quente ao uso de vestimentas em estilo chinês, passando pela adoção de exercícios físicos e visitas em larga escala à China, em especial a juventude, profundamente desiludida com a estagnação ou decadência econômica e cenário político conturbado nos EUA e outras nações, encaram a nação socialista asiática como um novo paradigma de sucesso, bem-estar social, progresso econômico e estabilidade geral. Essa incorporação de hábitos chineses tem se dado pelo consumo em larga escala de romances online, apelidados de “C-dramas”, microsséries, videogames e mesmo longas metragens, além da divulgação literária. Nos enredos estão elementos da tradicional cultura chinesa alinhados ao desenvolvimento socialista.
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O fluxo de turistas estrangeiros para a China atingiu um recorde histórico de quase 43 milhões de pessoas em 2017, contra apenas 10 milhões no ano 2000, processo interrompido pela COVID iniciada em 2020. Com a recuperação do fluxo de viagens, em 2025 mais de 35 milhões de pessoas visitaram a China e a tendência é uma expansão ainda maior para os próximos anos, mas aqui entra em cena um elemento de grande importância: o uso das redes sociais cada vez mais intenso para divulgar os locais visitados, características da sociedade, pujança econômica, aspectos do cotidiano, por turistas, influencers e mesmo empresários(as) que estabelecem conexões entre países ocidentais e a nação socialista.
Está em curso uma mudança estratégica no desenvolvimento da propaganda chinesa em relação ao Ocidente. Segundo o professor Wang Yiwei, vice-presidente da Academia do Pensamento Xi Jinping da Universidade Renmin, após passar décadas utilizando o “modelo explicativo”, pelo qual os chineses produziam conteúdos para contar a história da China e da revolução para tentar corrigir percepções equivocadas, passou a adotar o “modelo atrativo” através da elaboração de produtos culturais e digitais com elevado padrão estético com alto apelo comercial, projetando suas riquezas naturais e os principais aspectos da vida do país sem maiores detalhamentos, digamos, didáticos. É a substituição do mecanismo de “empurrar” a versão chinesa dos fatos para “puxar” o público em geral para dentro da realidade em curso. Wang Yiwei chama esses novos mecanismos de “soft power 2.0”. O que antes parecia ser simplesmente uma propaganda do Estado Socialista, torna-se um instrumento de absorção dos diversos aspectos da cultura e da construção do socialismo com características chinesas.
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Tudo isso alicerçado principalmente nesse elemento central que é o “Socialismo de Mercado”, ou “Socialismo com Características Chinesas”, que tem como base essencial uma intensa economia produtiva, com amplo planejamento estatal, tendo os planos quinquenais aprovados pelo Partido Comunista da China como bússola essencial, o que posiciona a China hoje como o polo dinâmico da economia mundial. Sendo a principal parceira comercial de mais de 120 nações em todos os continentes, através da iniciativa “Cinturão e Rota”, desenvolve não apenas relações comerciais, mas pesados investimentos em infraestrutura nessas nações, gerando emprego e renda. Dissemina uma proposta de “Futuro Compartilhado Para a Humanidade”, enquanto o imperialismo estadunidense segue distribuindo ameaças, bombas, instabilidade, arrogância e prepotência. Em linhas gerais, enquanto a China ergue ainda mais alto o ideal socialista para além das proclamações ideológicas, mas com exemplos objetivos de desenvolvimento, estabilidade, crescimento do bem-estar de modo amplo, sem ingerências nos assuntos internos das nações, o imperialismo oferece a lógica da “submissão ou guerra”.
Altair Freitas é historiador, professor aposentado e secretário nacional de Organização do PCdoB.
Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião da Fundação Maurício Grabois.