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    América Latina

    Bombas imperialistas, petróleo e unidade na América Latina: o alerta de Fidel

    Texto histórico do líder cubano ganha atualidade diante dos ataques à Venezuela, do endurecimento do bloqueio contra Cuba e da escalada de intervenções no continente

    POR: Ana Prestes

    8 min de leitura

    Fidel Castro participa da Mesa Redonda em homenagem a José Martí, no Teatro Karl Marx, Havana, Cuba, em 19 de maio de 2005. Foto: Agencia de Información Nacional (AIN)
    Fidel Castro participa da Mesa Redonda em homenagem a José Martí, no Teatro Karl Marx, Havana, Cuba, em 19 de maio de 2005. Foto: Agencia de Información Nacional (AIN)

    Em 3 de março de 2008, dois dias após a chamada Operação Fênix, promovida pela Colômbia em território do Equador, Fidel Castro publicou um relato sobre seu primeiro encontro com o então futuro presidente equatoriano Rafael Correa, ocorrido em fevereiro de 2006, e cujas reflexões são totalmente oportunas para compreender os dilemas da América Latina e do Caribe nos dias de hoje, passados exatos 20 anos.

    A ação militar imperialista que motivou Fidel a publicar o texto foi realizada pelo governo da Colômbia, que bombardeou a região de Angostura, no território do Equador, matando mais de vinte integrantes das FARC e seu líder Raúl Reyes. As bombas utilizadas eram de fabricação norte-americana, guiadas por tecnologia dos Estados Unidos. A violação da soberania equatoriana pelo imperialismo via governo colombiano abria uma importante crise regional entre os dois países sul-americanos.

    Intitulado apenas como “Rafael Correa”, o artigo vai além da denúncia imediata do bombardeio. O encontro ocorreu meses antes da eleição de Correa à presidência do Equador. Na época, ambos discutiram temas como petróleo, soberania, energia, dívida externa e integração latino-americana e caribenha.

    Ao rememorar aquela conversa, Fidel articulou três dimensões inseparáveis para se compreender os dilemas de então e de outrora da América Latina: recursos naturais, independência política e unidade continental antiimperialista.

    Energia, soberania e integração como projeto continental

    A questão energética ocupou um lugar central do diálogo. Segundo Fidel, “como já estávamos em 2006 decididos a impulsionar a revolução energética, que fomos o primeiro país do planeta a proclamar como questão vital para a humanidade, abordei o tema com especial ênfase”. Em seguida, acrescentou:

    “Existem investimentos de risco extremamente elevados e de tecnologia sofisticada, que nenhum país pequeno como Cuba e o Equador poderia assumir.” 

    Foi quando relatou a Rafael o transcurso de uma conversa que havia estabelecido com o presidente da empresa espanhola Repsol sobre a perfuração de poços em águas profundas de mares jurisdicionais cubanos, a mais de dois mil metros, com altíssimo custo e tecnologia sofisticada. Fidel perguntou quanto custava um poço exploratório e afirmou que Cuba desejava participar, ainda que com apenas 1% do investimento. O ponto não era financeiro, mas político: saber o que fariam com o petróleo cubano. Tratava-se de afirmar soberania mesmo diante da dependência tecnológica.

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    Correa, por sua vez, relatou sua experiência como ministro da economia do governo de Alfredo Palacio e dirigente da Petroecuador. Denunciava que, de cada cem dólares extraídos pelas companhias estrangeiras, apenas vinte ficavam no país e nem sequer ingressavam plenamente no orçamento público. Recursos eram desviados para fundos paralelos, longe de investimentos sociais urgentes para o país. Sua proposta era revogar esses mecanismos e destinar 40% das receitas para educação, saúde, desenvolvimento tecnológico e infraestrutura, reservando o restante para a dívida ou investimentos estratégicos.

    A política petrolífera anterior, afirmou Correa, beirava a traição à pátria. Segundo ele, o caso da empresa Oxy era emblemático, pois, pela legislação equatoriana, no caso de  rompimento de contratos, previa-se a caducidade e a reversão do campo ao Estado. Mas pressões externas (EUA) impediam o cumprimento da lei. Quando um juiz declarou a caducidade, houve tentativa de destituí-lo. Rafael Correa conta a Fidel que recusou-se a participar da manobra e, ao ouvir esse relato, o líder cubano relata ter percebido que tinha subestimado o economista formado nos Estados Unidos, pois ali não havia apenas técnica, mas decisão política.

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    Fidel Castro conversa com Rafael Correa em encontro realizado em Havana, em 2009.

    Fidel Castro se encontraria com Rafael Correa em outros momentos. Esta imagem foi publicada no jornal cubano Juventud Rebelde em 23 de agosto de 2009. Foto: Foto: Juventud Rebelde. Fonte: Ministerio de Salud Pública de Cuba (divulgação via Facebook)

    O encontro avançou madrugada adentro. Fidel abordou temas que iam do mercúrio despejado nos mares ao custo do quilowatt-hora das termelétricas; do consumismo ao trilhão gasto em publicidade, repassado aos povos no preço das mercadorias; das diferenças entre socialismo e comunismo ao papel do dinheiro. Falou da universalização do ensino superior em Cuba e dos estudos que identificaram idosos vivendo sozinhos em Havana. Convidou Correa para assistir a uma despedida de brigadas médicas que seguiam para a Bolívia: cooperação gratuita, dezenas de hospitais, milhares de cirurgias oftalmológicas por ano. A integração latino-americana, ali, não era retórica, era prática concreta.

    Imperialismo, guerra preventiva e o limite da beligerância

    Dois anos após esse encontro, bombas romperam a madrugada equatoriana e Fidel foi categórico em seu texto: ninguém tem o direito de matar a sangue frio. Se aceitarmos o método imperial de guerra preventiva, qualquer grupo de latino-americanos pode ser alvo de bombas guiadas por satélites, em qualquer território.

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    Ao mesmo tempo, Fidel afirmou que Cuba não era inimiga da Colômbia. A crítica dirigia-se ao imperialismo e à lógica que naturaliza a violação de fronteiras em nome da segurança. É nesse ponto que surge a frase que sintetiza sua posição e é a pérola do texto:

    “Hoje, quando tudo está em risco, isso não nos torna beligerantes.”

    A firmeza na defesa da soberania não implica culto à guerra, mas compromisso com a unidade entre os povos americanos de Nossa América, como chamou Martí.

    Sobre o episódio, Fidel escreveu:

    “Querem sentar no banco dos réus o nosso amigo, o economista e presidente do Equador Rafael Correa, algo que não podíamos sequer conceber naquela madrugada de 9 de fevereiro de 2006. Parecia então que minha imaginação era capaz de abarcar sonhos e riscos de todo tipo, menos algo parecido com o que ocorreu na madrugada de sábado, 1º de março de 2008.”

    Será que Fidel poderia imaginar que algo como o 3 de janeiro de 2026 na Venezuela poderia ocorrer? Fidel inscreveu o episódio numa tradição histórica mais longa. Recordou Antônio José de Sucre e, sobretudo, Simón Bolívar. Citou José Martí, para quem o que Bolívar não conseguiu fazer nas Américas ainda está por fazer, e evocou Pablo Neruda, que escreveu que o Libertador desperta a cada cem anos.

    América Latina em 2026 e o chamado à unidade

    Hoje, quando a região enfrenta um dos mais graves ataques do imperialismo estadunidense de sua história, com o bombardeio a Caracas e o sequestro de Maduro e Cília no último 3 de janeiro, o avanço voraz sobre recursos estratégicos como petróleo, lítio e terras raras, e o agravamento do bloqueio sobre Cuba, com um verdadeiro genocídio econômico, aquele texto de 2008 sobre Rafael Correa é assustadoramente atual.

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    Bombas podem cair na madrugada. Satélites podem guiar artefatos letais. Mas a resposta proposta por Fidel não foi o isolamento nem a guerra indiscriminada. Foi a construção paciente de alianças, a cooperação solidária, o controle soberano dos recursos e a memória histórica de Bolívar e Martí.

    Em tempos de risco, a América Latina não precisa tornar-se beligerante para ser digna. Precisa, sobretudo, estar unida para construir soberania.

    + Leia a íntegra do artigo “Rafael Correa”, de Fidel Castro, em espanhol

     


    Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.

    *Texto publicado originalmente no Opera Mundi, em 25 de fevereiro de 2026, com o título Crise energética, bombas imperialistas e urgência de unidade: o cenário que Fidel previu.

    **Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da Grabois.

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