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    Cultura

    Literatura como expressão social: de Flaubert a José Lins do Rego

    De romances franceses ao Nordeste brasileiro, texto examina como formas literárias traduzem experiências concretas de classe e de época

    POR: Carlos Lopes

    14 min de leitura

    Interior da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, em fotografia tirada entre 1910 e 1920. Foto: Marc Ferrez / Acervo da Biblioteca Nacional
    Interior da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, em fotografia tirada entre 1910 e 1920. Foto: Marc Ferrez / Acervo da Biblioteca Nacional

    Felicité, a personagem de Flaubert em Un Coeur Simple (Um coração simples), o primeiro dos Trois Contes (Três Contos), está quase no último degrau da escala social, sobretudo na época em que o livro foi publicado (1877), embora a história transcorra principalmente na primeira metade do século XIX, o que, nesse caso, somente enfatiza o seu lugar na sociedade francesa.

    Empregada no campo, acaba por emigrar para Pont-l’Évêque, na Normandia, onde torna-se a dedicada criada de Madame Aubain, uma viúva que tem dois filhos, com os nomes dos personagens da obra mais conhecida de Bernardin de Saint-Pierre (Paul e Virginie).

    Existem outras coincidências – inadvertidas ou propositais – em relação a Saint-Pierre, a começar pelo nome de sua esposa, que era, também, Felicité, e de seus filhos, que eram, também, Paul e Virginie.

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    Sentido social do realismo

    A maioria dos textos sobre Un Coeur Simple focaliza a maestria de Flaubert, ao escrever um conto sobre uma vida em que nada acontece. Lembro-me, especialmente, de um professor que conheci no Rio de Janeiro, francês radicado no Brasil, que, baseado nessa premissa, comparava esse conto com o extraordinário Uma Vida em Segredo (1964), do escritor mineiro Autran Dourado, e, portanto, Felicité com Biela, a personagem de Dourado.

    Entretanto, essa interpretação – e esse paralelo – é falsa, ou, pelo menos, duvidosa.

    Muita coisa acontece na vida de Felicité. Aliás, seu nome (“Felicidade”) é o primeiro choque da narrativa. Pois, se não é possível dizer que ela é feliz, ou que teve uma vida feliz, também não é possível dizer que ela foi infeliz.

    Mas sua capacidade de amar é a qualidade mais notável de sua vida. Ela ama Théodore, que a abandona por uma mulher rica. Ama Virginie, a filha da viúva Aubain, a quem acompanha até o túmulo. Ama seu sobrinho, que morre na América, de febre amarela. Ama a própria viúva Aubain, apesar da pouca expansividade desta. E, finalmente, ama Lulu, seu papagaio, a quem vê, magnífico, como um espírito em seu leito de morte.

    Todos – inclusive o papagaio – morrem antes dela. Mas essa capacidade de amar, em alguém tão pobre, tão desvalida, mostra uma vida plena de acontecimentos. É verdade, esses acontecimentos não são aventuras ao estilo de Dumas, porém seres que ela encontra – e que são, dentro da sociedade, seus referenciais, ainda que inconscientes, de classe.

    Felicité com o papagaio Loulou, em ilustração de Auguste Leroux para Un cœur simple (Trois Contes), de Flaubert. Crédito: Auguste Leroux / Domínio público

    Comparado ao conto seguinte do mesmo livro, La légende de Saint-Julien l’hospitalier (A lenda de São Julião o hospitaleiro) e ao outro, Hérodias (Herodias), Un Coeur Simple parece um monumento social. Mas é um engano a percepção de que nos dois contos restantes, Flaubert abandonou a pretensão de analisar literariamente a sociedade.

    Em “São Julião”, temos a reconstituição de como os homens da Idade Média sentiam a sua sociedade, uma reconstituição algo tenebrosa, do nosso ponto de vista atual.

    E, em “Herodias”, a narrativa do sacrifício de Iokanaan (São João Batista), pior ainda – pois é o retrato de uma nação esmagada pela invasão romana, pelos idumeus, etc., etc.

    Gustave Flaubert, desde Madame Bovary (1856), encontrou na sociedade a fonte de seu realismo, que moldaria a literatura no século XIX – e mesmo no século XX. Nisso, ele foi mais importante do que Balzac ou os romancistas ingleses, embora essas comparações padeçam de terrível relatividade. Mas, ler, além de “Bovary”, por exemplo, L’Éducation Sentimentale (A Educação Sentimental), de 1869, é conhecer profundamente a sociedade francesa do século XIX.

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    Un Coeur Simple, no entanto, parece a síntese desse conhecimento, talvez pelo pequeno tamanho do texto. Sua personagem, mais do que em outras obras, é o próprio povo francês, reduzido à miséria, mas nem por isso desprovido da capacidade de amar – ou desprovido da aspiração à felicidade, a partir do nome da protagonista.

    Existe algo, enfim, notável também, mas que, de certa forma, é externo ao conto em si: a própria capacidade de Flaubert, que não pertencia à camada mais desfavorecida daquela sociedade, de criar e se identificar, ternamente, com a criada Felicité.

    Reli os Trois Contes, de Flaubert, nos últimos dias. Mas acho que há observações, referentes a ele, que são inerentes também a outros livros.

    No entanto, nem toda sociedade é igual. Apesar do esforço de Flaubert, em “Herodias”, por expressar uma sociedade fraturada e ocupada, a França não era um país submetido a um imperialismo externo.

    Dependência nacional e forma literária

    O Brasil, entretanto, é uma nação dependente, uma nação subordinada – e, com um breve interregno após a Revolução de 1930, sempre foi assim até agora, antes e depois da independência política.

    O que não nos absolve de ter uma literatura própria, ainda que com um conteúdo específico.

    Machado e a anatomia da sociedade escravista

    Lembro que, quando reuni os artigos e ensaios que formam o meu livro Cultura e Identidade Nacional (2025, Fundação Maurício Grabois e Anita Garibaldi), detive-me longamente em Machado. Impressionava-me o número de jovens que tinham dificuldade em ler, compreender e abordar a obra do bruxo do Cosme Velho, em especial a sua segunda fase, iniciada com um romance esplêndido, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881).

    O que é difícil de entender neste livro é, precisamente, que algum dia tenha existido em nosso país a sociedade que ele expressa e retrata.

    Pois Brás Cubas é um senhor de escravos, nascido assim – e falecido assim. Em suma, um completo inútil, pois jamais trabalhou ou fez algum bem à coletividade, jamais estudou seriamente (seu curso em Coimbra foi uma farsa), e, durante o pouco tempo em que foi parlamentar, o máximo que fez foi um projeto ridículo para reduzir a barretina dos soldados da Guarda Nacional (v. capítulo CXXXVII).

    Aliás, Brás Cubas não sabe o que é coletividade. O máximo de relacionamento social a que chega são algumas transgressões sexuais, a mais longa delas, com Virgília, de caráter adulterino, sem qualquer inibição ou remorso. Numa sociedade em que a própria humanidade dos escravos é desrespeitada – aliás, nem é reconhecida – o adultério é, também, perfeitamente lícito.

    Brás Cubas é, assim, a condensação do escravagismo, no que ele tem de mais inútil, ou seja, em sua própria essência. E seu colega  e suposto amigo Quincas Borba, com sua exótica filosofia, o humanitismo (“Ao vencedor, as batatas!”), é a figura encarnada do vazio – e brutal – pensamento, ou falta de pensamento, daquela época.

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    Visto por esse prisma, Memórias Póstumas de Brás Cubas é um livro fascinante – ainda mais porque o autor é um defunto, como a representar toda a sociedade de que faz parte, e que já estava realmente morta, com o cadáver em decomposição à luz do dia, demandando apenas o seu sepultamento.

    Literatura brasileira e identidade nacional

    Mas, em Cultura e Identidade Nacional, omiti propositalmente alguns autores, para tornar mais fácil a demonstração da tese central do livro, isto é, a das relações entre cultura e nacionalidade. Referi-me rapidamente a essa omissão, no início, prometendo saná-las depois. Até hoje não tive tempo de fazê-lo e essas lacunas (por exemplo, Érico Veríssimo, José Américo de Almeida, Dyonélio Machado, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Amando Fontes, Guimarães Rosa, etc.) continuam me pesando bastante.

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    Destes, acredito que a principal omissão – até porque teria sido fácil evitá-la – seja a de José Lins do Rego (1901-1957). Exceto por Graciliano Ramos e Jorge Amado, a obra do escritor paraibano é a mais representativa do “romance da década de 1930”. E, a julgar por um depoimento de Ariano Suassuna sobre Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953), até em relação ao romance que sucedeu o romance de 1930.

    É verdade que não ignorei José Lins do Rego, mas o citei principalmente como crítico e historiador literário. Não examinei, portanto, sua obra de ficcionista.

    Agora, na atual releitura – a que já me referi acima – deparei-me com Fogo Morto (1943), que não lia há muitos e muitos anos.

    José Lins do Rego e o ciclo da decadência dos engenhos

    O livro é uma obra-prima, como poucas existem em nossa literatura.

    Após Menino de Engenho (1932), Doidinho (1933), Banguê (1934), O Moleque Ricardo (1935) e Usina (1936), José Lins do Rego dera por encerrada a série de romances que ele próprio denominara “Ciclo da Cana de Açúcar”.

    Casa do Engenho Corredor, em Pilar (PB), onde nasceu José Lins do Rego. O ambiente dos engenhos nordestinos marcou profundamente a obra do autor. Foto: Arquivo Nacional / Fundo Correio da Manhã / Domínio público

    Casa do Engenho Corredor, em Pilar (PB), local de nascimento do escritor José Lins do Rego. Foto: Arquivo Nacional / Fundo Correio da Manhã / Domínio público

    Mas, em 1943, com Fogo Morto, ele voltaria ao ciclo e ao seu ambiente rural – desta vez inteiramente desvinculado do personagem Carlos Melo, que atravessa os romances citados acima, mas não de seu avô, o coronel José Paulino, dono do engenho Santa Rosa, que aparece, ainda que perifericamente, no último romance.

    O livro gira – como um planeta gira em torno de uma estrela – em torno de três personagens: o seleiro José Amaro; o dono do engenho Santa Fé, Lula de Holanda; e o tresloucado capitão Vitorino Carneiro da Cunha, conhecido como Vitorino Papa-Rabo.

    A cada um corresponde uma parte do livro.

    Todos – o mestre José Amaro, o coronel Lula de Holanda e Vitorino – estão à beira da loucura, e, além dela, estão a filha do seleiro e a cunhada do coronel, já inteiramente loucas.

    O mundo em que se passa a narrativa é a zona da mata da Paraíba, um lugar miserável, onde os engenhos estão em franca decadência, transformando-se em “fogo morto”, ou seja, em engenhos que já não fabricam açúcar, apenas fornecem cana para as usinas.

    São engenhos que já não são engenhos. No entanto, os seus donos, antigos senhores de escravos, ou sucessores desses senhores, não se conformam em ser apenas plantadores de cana.

    Há muitos livros de História do Brasil, principalmente no sul e sudeste do nosso país, onde a Revolução de 1930 aparece como uma mudança apenas em uma parte do nosso território – ao mesmo tempo em que o Nordeste e o seu latifúndio permaneceram intocados.

    Essa versão é, em uma palavra, fantasiosa.

    Uma das razões para a própria Revolução de 1930 foi a decadência das atrasadíssimas relações de produção nordestinas – essa foi a chave para a explosão que arrastou aquela região, depois do assassinato de João Pessoa, para o levante contra a República Velha.

    Fogo Morto é o romance dessa decadência, exposta inclusive no ensandecimento dos personagens, isto é, em sua decadência mental. E, mesmo no limite, eles se recusam a sair, como Vitorino e sinhá Adriana, ainda que instados pelo filho, Luís, suboficial da Marinha.

    A raiz desse estado de coisas é vista no flashback da segunda parte, que retroage ao tempo da escravidão e à crueldade dos senhores de escravos.

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    Porém, o tempo presente da narrativa é a República Velha, com alguns monarquistas inconformados e com as oligarquias extorquindo o povo. Ou seja, o tempo em que as sementes da revolução começaram a eclodir pelo Brasil, inclusive no Nordeste.

    Mestre José Amaro tem sua casa de taipa na margem da estrada, dentro das terras de Lula de Holanda, no Santa Fé. É um homem insubmisso, daquele tipo em que, no Nordeste, se diz que ninguém põe a canga. Essa, e sua inevitável ignorância, é toda a sua desgraça. Ele não paga ao senhor de engenho pelo local de moradia, ou pela própria moradia, que, antes, foi de seu pai. Mas quando o coronel exige que saia de suas terras, não lhe resta o que fazer – exceto aceitar a proteção do cangaceiro Antônio Silvino.

    E aqui temos um dos aspectos mais significativos de Fogo Morto: ninguém – exceto Vitorino, que vive completamente imerso em ilusões – espera proteção do Estado, ninguém espera que seus direitos sejam legalmente reconhecidos. Pelo contrário, o Estado, representado pela polícia, é uma violenta ameaça a todos. Sobretudo para cegos, negros e pobres, embora não para os donos de engenho, que são a base do poder oligárquico.

    É de Antônio Silvino que todos – mesmo os que não gostam dele ou do cangaço – esperam acolhida e respeito.

    Como sabemos, o verdadeiro Antônio Silvino foi preso em 1914 e indultado, pelo presidente Getúlio Vargas, mais de 20 anos depois, em 1937. O que nos dá uma ideia do tempo suposto em que transcorre o romance de José Lins do Rego.

    Tudo, no romance, corre em direção ao fim do reino dos engenhos – isto é, em direção ao “fogo morto”, que já é uma realidade no Santa Fé, e logo chegará aos outros engenhos, inclusive ao mais poderoso deles, o Santa Rosa.

    A oligarquia dos engenhos, portanto, está com os dias contados.

    O fim de mestre José Amaro, o único trabalhador entre os personagens principais, é, a esse respeito, como dizem alguns, emblemático. Apesar de toda a sua revolta, ele não consegue se desvencilhar do domínio senhorial – com seus passeios noturnos, o que consegue é ser tratado pelo povo como um lobisomem. Em conflito com o coronel, naquela sociedade, ele não é mais visto como um ser humano. Portanto, resta-lhe morrer com o engenho onde sempre viveu.

    Além do realismo, a base social da literatura

    A tentativa implícita nas notas acima não é a de ressaltar o realismo como escola literária, desde o século XIX. É verdade que elas acabam levando a isso, mas a questão fundamental é como a literatura é sempre uma expressão da sociedade em que foi desenvolvida. Mesmo aquela que se afasta de maneira mais ou menos intencional do realismo – como, por exemplo, o grande romance de Marcel Proust, À la Recherche du Temps Perdu, ou os romances de James Joyce, em especial Finnegans Wake (1939), ou os contos e romances de Franz Kafka.

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    Ou, para citar um outro exemplo, este brasileiro, Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa. Mas, sobre este, não se pode dizer que seja afastado do realismo.

    Também não é nossa intenção negar ou ignorar as outras dimensões da obra literária – de qualquer obra literária – em especial o seu aspecto estético. Apenas, nem este nem os outros aspectos existiriam sem que houvesse algum suporte social que os sustentassem.


    Carlos Lopes é redator-chefe do jornal Hora do Povo, vice-presidente nacional do PCdoB e membro do Grupo de Pesquisa sobre Problemas e desafios contemporâneos da teoria marxista.

    Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião da FMG.