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    Sociedade

    A geração que se formou cantando: Watteau e a juventude da solidão algorítmica

    A morte do camarada Watteau Rodrigues (1962–2026) e a memória de uma juventude que aprendeu a sonhar de pé, no ginásio do Tarumã, quando a ditadura sentia a brisa virar viração

    POR: Percival Henriques de Souza Neto

    8 min de leitura

    Watteau Rodrigues (ao centro, de preto), em atividade da CTB, ao lado de Percival Henriques e Jô Oliveira, vereadora de Campina Grande. Militante do PCdoB, Watteau faleceu em 3 de junho de 2026, dias antes de completar 64 anos. Foto: Acervo pessoal de Percival Henriques.
    Watteau Rodrigues (ao centro, de preto), em atividade da CTB, ao lado de Percival Henriques e Jô Oliveira, vereadora de Campina Grande. Militante do PCdoB, Watteau faleceu em 3 de junho de 2026, dias antes de completar 64 anos. Foto: Acervo pessoal de Percival Henriques.

    Curitiba (PR), fevereiro de 1985. O ginásio do Tarumã fervia. Mais de novecentos jovens, vindos de todos os cantos do país, abriam ali o primeiro congresso da União da Juventude Socialista. O Brasil saía de vinte e um anos de chumbo. A emenda das Diretas fora derrotada no Congresso, o Tancredo havia sido eleito num colégio eleitoral, e mesmo assim pairava no ar uma certeza teimosa de que a democracia voltava. A Constituinte despontava no horizonte.

    E nós cantávamos.

    Cantávamos Bandiera Rossa, aquele hino italiano que atravessou o século e o oceano para nos lembrar que a bandeira vermelha haveria de triunfar e que o povo avançava. Cantávamos a Internacional. Cantávamos, sobretudo, a nossa Viração, que era o nome da corrente que nos batizava e era também a canção entoada de braços dados, porque viração, todo pescador sabe, é o vento que vira, a brisa do mar que muda de direção e refresca o sufoco. A ditadura sentia essa brisa. Nós queríamos que ela virasse vento.

    No meio daquele coro, com a bola de basquete debaixo do braço e o riso solto, estava o Watteau.

    A minha lembrança do Watteau é um quadro, e não um filme. Uma partida de basquete suspensa para sempre naquele ginásio, num tempo de sonhos e de esperanças. Ironia das boas, que ele carregasse no nome um pintor e terminasse, na memória de quem o amou, virando tela. Ao lado dele estavam o Ricardo Abreu, o Alemão, o Javier Alfaia, o Apolinário. E o Aldo Rebelo, jovem coordenador da entidade recém-nascida, que circulava por ali, do altos dos seus 29 anos, com a missão de transformar aquela algazarra em organização.

    Reparem na ironia maior. Morávamos em João Pessoa (PB). Vínhamos da mesma Viração. E foi preciso descer o Brasil inteiro, do Nordeste ao Sul, para que nos conhecêssemos. A juventude tem dessas geografias tortas. A gente atravessa um continente para encontrar o vizinho de rua.

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    A geração que se formou cantando

    Lenin, num discurso de 1920 à juventude comunista, resumiu numa palavra só a tarefa dos jovens. Aprender. Não decorar manuais, não repetir jargões, mas dominar criticamente tudo o que a humanidade acumulou.

    A minha geração aprendeu cantando.

    Aprendeu nos congressos, nas assembleias que varavam a madrugada, nas passeatas que a polícia dispersava e que se refaziam na esquina seguinte. Aprendeu lendo mal e porfiadamente os clássicos, discutindo Marx sem o ter lido inteiro, descobrindo o Gramsci aos poucos. Aprendeu, principalmente, no convívio. Ninguém se formava sozinho. A consciência vinha no atrito com o outro, na divergência, no coro.

    É isto que o feed não entende. A canção formava porque era coletiva.

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    Os que cantaram antes

    Não éramos os primeiros a cantar, e tínhamos a sensatez de saber disso.

    Cantávamos sobre os ombros de uma geração anterior, a que levou a tropicália e a porrada da ditadura no mesmo lote. O Caetano e o Gil, jovens como nós, tinham sido presos e empurrados para o exílio justamente por incomodar o regime que nós, agora, ajudávamos a desmontar. Quando a ditadura matou o Marighella, em 1969, os dois apareceram numa capa de revista para dizer que os mortos eram eles, e que o guerrilheiro estava mais vivo do que os dois. Levei anos para entender o tamanho daquela frase. O Caetano, esse, levou décadas, e só muito depois converteu a dívida em canção, Um Comunista, onde biografa o baiano que se recusava a viver sem utopia.

    Gramsci no ginásio

    Gramsci, na cela fascista, percebeu que toda relação de hegemonia é uma relação pedagógica. Que quem ensina forma consciências, e que quem forma consciências disputa o poder. Ensinava ele que a escola não é o único aparelho de formação. A família ensina. A igreja ensina. O jornal ensina. E, eu acrescento, a canção ensina.

    Quando novecentos jovens cantam juntos que a bandeira vermelha vai triunfar, não estão apenas fazendo barulho. Estão se formando. Estão internalizando uma visão de mundo, um nós, uma pertença. Estão aprendendo, no sentido fundo que Lenin dava à palavra, que a história não é destino e que pode ser virada como vira a viração.

    O Watteau saiu daquele ginásio se formando assim. E foi essa formação que o sustentou pelo resto da vida.

    A brisa que virou vento

    Falo de uma geração inteira, e não a encolho num parágrafo. Era a geração que reconstruiu a UNE em 1979, que reergueu a UBES, que encheu as ruas pelas Diretas, que cobrou da Constituinte aquilo que a Constituinte de fato entregou. Foi a UJS, recém-saída do Tarumã, que levantou a bandeira do voto aos dezesseis anos, hoje inscrita na Constituição de 1988 como se sempre lá tivesse estado. A brisa virou vento. O vento virou lei.

    Convém lembrar disso num tempo que prefere imaginar que a juventude nunca serviu para nada. Serviu. Mudou o país.

    O feed não tem coro

    Hoje um jovem brasileiro passa mais de sete horas por dia diante de telas. Mais do que na escola, mais do que com a família. E o que ele aprende ali?

    Aprende que o sucesso é individual. Que a precariedade é liberdade. Que ele não é trabalhador, é marca. Que não precisa de camaradas, precisa de seguidores. O algoritmo formou, em silêncio, uma geração inteira, e formou-a um a um, cada qual sozinho no seu quarto, com o fone no ouvido.

    Eis a diferença que a morte do Watteau me obriga a enxergar. A minha geração se formou num coro. A geração do feed se forma na solidão. Nós cantávamos a viração de braços dados. O jovem de hoje rola o dedo na tela, calado, e chamam a isso de liberdade.

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    Não escrevo para condenar a técnica. Seria tolice. Escrevo para lembrar que a canção também é técnica, e que a técnica do coletivo nós deixamos enferrujar. Há nisso uma tarefa para quem fica.

    O camarada

    De lá para cá, o Watteau fez muita estrada. Foi advogado, foi vereador de João Pessoa, foi dirigente do PCdoB na Paraíba, trabalhou no Ministério do Esporte. Presidiu o Auto Esporte, o Clube do Povo, e tratou o futebol com a mesma seriedade com que tratava a política, o que no fundo é quase a mesma coisa por outros meios. Teve filhos. Guardou, por quatro décadas, o espírito daquele ginásio.

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    Era um dos poucos com quem ainda se podia, de fato, conversar. Divergir sem rancor. Acertar as ideias. Reacender numa noite só a chama que o cotidiano teima em apagar. Sobre a mesa, uma vodca da Rússia, uma cachaça da Paraíba, um rum do Caribe, um charuto de Cuba, uma geografia afetiva do socialismo reunida ali sem visto e sem alfândega. Discutíamos Stálin com o fervor de quem discute futebol, contra e a favor na mesma frase, porque a verdade, o Watteau sabia, raramente se acomoda num lado só. E, no fim de tudo, ainda sonhávamos.

    Marx escreveu que a tradição das gerações mortas pesa como um pesadelo sobre o cérebro dos vivos. Com a devida licença ao velho mouro, discordo nesta noite. O Watteau não pesa. O Watteau sustenta.

    Porque uma geração é uma colcha de retalhos que o tempo costura e transforma. Hoje a colcha amanheceu com um pedaço a menos, e dói, como dói toda costura desfeita. Mas o pano que ele foi não desaparece. Vira trama, vira chão, vira parte do tecido que as próximas mãos hão de continuar. Os clássicos não se citam para enfeitar congresso. Citam-se para serem usados. O Watteau foi um clássico da nossa juventude, e a melhor forma de não o perder é entregar à juventude de agora aquilo que ele jamais largou. A certeza de que a brisa pôde virar UJS.


    Percival Henriques de Souza Neto é físico, jurista, conselheiro do CGI.br há 14 anos, presidente da ANID e membro do Comitê Nacional de Cibersegurança. Autor de Direito à Realidade: Por um Constitucionalismo Digital para o Brasil (Editora Publius, 2025).

    *Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pelo autor não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.