Chegamos a mais uma Copa do Mundo. Desta vez, sediada pelos Estados Unidos, México e Canadá. Nos últimos dias, porém, multiplicaram-se os comentários sobre como seria melhor se a Copa de 2026 fosse realizada apenas no México, permitindo que o país abrisse suas portas ao mundo com alegria, afeto, carinho e respeito. Infelizmente, não é o que estamos vendo no tratamento dispensado pelos EUA às delegações de jogadores e torcedores que chegam de todas as partes do mundo.
Quando essa Copa foi anunciada, foi apresentada como a maior de todas. No entanto, o discurso da Fifa sobre “unir o mundo” está demonstrando justamente o contrário. Jogadores, árbitros e torcedores — principalmente os do Sul Global, latino-americanos e africanos — estão sendo tratados de forma hostil, degradante e desumana em sua tentativa de participar da competição.
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Alguns casos que talvez vocês já estejam acompanhando: o árbitro da Somália, Omar Artan, foi barrado. Ele foi eleito o melhor árbitro africano em 2025 e seria o primeiro somali a atuar em uma Copa do Mundo. Mesmo possuindo visto diplomático válido, foi barrado em Miami sob alegações vagas de “preocupações de segurança” e supostas associações com organizações terroristas. A Federação Somali afirma não ter recebido nenhuma justificativa clara.
Um jogador iraquiano também foi barrado. O atacante Ayman, nome importante da seleção do Iraque, foi interrogado por quase sete horas ao chegar nos Estados Unidos, tendo seu celular inspecionado. O fotógrafo da delegação iraquiana, Salah, passou por mais de dez horas de vistorias e interrogatórios no aeroporto e acabou impedido de entrar no país. É dessa forma que as delegações estão sendo recebidas.
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O caso do Irã é um capítulo à parte. Devido à situação de tensão e ataques recentes, houve uma polêmica interna, mas eles decidiram participar. Contudo, eles praticamente não poderão ficar nos Estados Unidos: ficarão baseados em Tijuana, no México, na fronteira com a Califórnia, e terão que entrar e sair dos EUA no mesmo dia, enfrentando várias restrições. Alguns membros da delegação nem sequer receberam visto.
Os torcedores iranianos também não poderão entrar nos Estados Unidos. A federação iraniana informou que sua cota de ingressos foi retirada pela Fifa poucos dias antes do início da Copa. Isso tem afetado torcedores de cerca de 39 países que sofrem restrições totais ou parciais, como Haiti, Senegal e Costa do Marfim.
Além disso, houve casos de pessoas que, para participar, precisaram pagar cerca de 15 mil dólares de caução para obter uma permissão de estadia. Somam-se a isso as revistas ultrajantes a que estão sendo submetidos jogadores do Senegal, Uzbequistão e até da Bélgica, especialmente quando são atletas latino-americanos ou africanos.
Há um racismo e uma discriminação abjetos por parte dos Estados Unidos contra essas nacionalidades. Os fatos refletem o momento histórico dos Estados Unidos no mundo. O que vemos é um comportamento de desespero pela perda de sua hegemonia, revelando um perfil ultra-racista, xenófobo e discriminatório, como se fossem os regentes do mundo ameaçados por todos. Tratam os demais povos como se todos fossem terroristas ou criminosos tentando acessar a “terra prometida”.
Assista a íntegra do Conexão Sul Global na TV Grabois
Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.
*Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 10/06/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.