Ney Teles de Paula já publicou vários trabalhos nos campos do jornalismo literário e do ensaio. Homem de pensamento, transporta em seu texto inquietantes indagações sobre o esvair do tempo e a eternidade. Contempla a natureza mutante, a viagem transitória, aclarando paisagens e tempos convertidos em lugares de memória. A partir dos títulos seus trabalhos, revelam na névoa os objetos construídos pelo discurso. São referências a esse viático que se dirige às profundas esperanças de permanência num universo fluido e heraclitiano. São sempre vozes do simbólico, do enigma, da metáfora que desvela possibilidades mal suspeitadas no desafiante efêmero. Neste Memorial Ney Teles encontra o discurso adequado, o poema, para resgatar instantes e lugares que existiram, foram vividos ou contemplados e guardados permanentes na memória. Os sítios revisitados são aqueles da infância. A consciência lírica recupera e compartilha vivências: “O efêmero encontra o futuro em cada curva”. Ou: “Vai longe, muito longe, /o encanto das tardes chuvosas”. E ainda: “Os caminhos da noite convergem para o efêmero”. O efêmero, o fugaz não marca a mera transitoriedade das coisas, mas estabelece ligação permanente entre os tempos, clamando por sua apreensão e desfrute. Embora sugira um fim paradisíaco, eterno, Ney concentra seu olhar no tempo presente e naqueles presentificados pela evocação. Embora contemple o vário, o múltiplo humanos, seus instrumentos de abordagem partem de uma lucidez enclausurada, expressa em vocábulos como: noite, muros, sombra, solidão, silêncio, etc. Assume o canto elegíaco claramente endossado por leituras e reflexões rilqueanas. E o lócus para a atualização é o da infância vivida, revisitada: “Silente,/a cidade dorme a sua existência,/impassível e alheia ao drama da memória”. Pois ali, o menino solitário, debruçado sobre livros, palmilha sombras, escala torres, entrevendo janelas que inauguram fronteiras e horizontes: “Muito cedo a luz da estrela surgiu, / entreabriu sua beleza para o menino inquieto”. O mundo visto dessas janelas é concentrado no olhar provisório: “Os caminhos da noite convergem para o efêmero.” Aí a esperança de que pela captação do precário tempo e espaço sejam os salvados do barco existencial. O discurso poético das rotas e das bagagens flutuantes sobre o dorso contínuo da história. Ney teles, ao acolher o encantamento da poesia e da infância exibe um lado pouco conhecido de seu labor. Assinala a sobrevivência do lírico, da superação do cotidiano árduo e racional de sua faina judicante. Entre autos, códigos e acórdãos caminha o poeta, salvo das formas e fórmulas, preservado na capacidade de espanto, de encantamento e afeto que denuncia a estima humana. O olhar do menino, que é o do poeta, fará do leitor cúmplice de seus passos e insights. Quem já procurava descerrar arcanos em seus ensaios, abertos os portais da poesia, trará outras esperadas contribuições de lirismo e transcendente encantamento em versos de poderosa e convincente apreensão da permanência, que seduz e move o ser humano.
Ney Teles de Paula, o encantamento do efêmero
Ney Teles de Paula já publicou vários trabalhos nos campos do jornalismo literário e do ensaio. Homem de pensamento, transporta em seu texto inquietantes indagações sobre o esvair do tempo e a eternidade. Contempla a natureza mutante, a viagem transitória, aclarando paisagens e tempos convertidos em lugares de memória. A partir dos títulos seus […]
POR: Aidenor Aires
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