Trump foi humilhado em sua visita à China. Ele chegou ao país acompanhado pelos maiores magnatas dos Estados Unidos, que buscavam desesperadamente que a China retirasse restrições à entrada em seu mercado interno. Trump adotou um tom contido e elogioso com o objetivo claro de retomar negócios, impulsionado por uma crescente crise de popularidade interna e pelos problemas enfrentados pelo capitalismo americano em decorrência das contradições geradas pelas tarifas que ele mesmo impôs à China. A visita foi marcada pela tentativa de fechar grandes acordos e retornar aos Estados Unidos com uma agenda positiva, visando, por exemplo, a reabertura do mercado chinês de chips.
O ano de 2017 foi um marco, pois deu início ao “bullying tecnológico” promovido pelos Estados Unidos contra a China. Naquela época, foram impostas severas restrições ao acesso chinês a tecnologias de infraestrutura e semicondutores. No entanto, a China reagiu com um movimento de leapfrog (salto qualitativo), ultrapassando os Estados Unidos em diversas fronteiras tecnológicas sensíveis. O resultado foi o fracasso da estratégia americana: a Nvidia, que detinha 95% do mercado chinês em 2017, hoje tem participação nula e acumulou um prejuízo de 50 bilhões de dólares.
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Trump tentou reabrir mercados, mas saiu da China apenas com promessas incertas, como a compra de aviões da Boeing. A China adotou uma postura de espera, indicando que “veria” a possibilidade de reduzir tarifas ou barreiras para produtos de alta tecnologia, o que demonstra uma quebra de paradigma em relação às Guerras do Ópio. Naquele período histórico, a Inglaterra utilizou a força das armas para abrir o mercado chinês e reverter a balança comercial que, até então, era favorável à China.
Diferente do que ocorreu no passado, quando a balança pendeu para a Inglaterra, a China hoje adota uma postura de adiamento. Ao indicar que “avaliará” futuramente a redução de bloqueios de importação e de exigências de conteúdo local, a China efetivamente protelou as demandas americanas. Como resultado, Trump retornou aos Estados Unidos apenas com a abertura de mercados para produtos agrícolas, consolidando uma inversão da tradicional relação centro-periferia: agora, a China exporta manufaturados de alta tecnologia, enquanto os Estados Unidos exportam produtos de baixo valor agregado.
Essa humilhação transcende o campo comercial e atinge a esfera político-retórica. Enquanto Trump foca em demonstrações espalhafatosas em redes sociais, a liderança chinesa é composta por burocratas orientados por uma visão de Estado de longo prazo. Um exemplo marcante dessa postura foi o comportamento de Xi Jinping ao confrontar silenciosamente o responsável pela elaboração das leis americanas mais duras contra a China, encarando-o de forma incisiva durante a recepção.
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No diálogo bilateral, enquanto Trump fazia discursos atabalhoados e repletos de elogios, Xi Jinping foi direto ao ponto. Ele questionou como ambos poderiam superar a “Armadilha de Tucídides” — o conceito que descreve a guerra inevitável entre uma potência emergente e uma hegemonia estabelecida. Além disso, Xi estabeleceu uma linha vermelha clara sobre Taiwan, alertando que a má condução desse tema sensível poderia levar a um conflito militar entre as duas nações.
A questão de Taiwan é um ponto crítico que, se não for abordada com cautela, pode levar a um conflito militar entre a China e os Estados Unidos. Pela primeira vez em 40 anos, o lado chinês levantou explicitamente essa possibilidade, o que representa um marco disruptivo. Desde a administração de Jimmy Carter (1977–1981), os Estados Unidos mantiveram uma relação de “duplicidade estratégica”: embora reconheçam oficialmente a política de “Uma só China”, continuam fornecendo bilhões de dólares em pacotes de armas anualmente. Recentemente, essa postura escalou para um apoio político aberto a entidades separatistas, cruzando o que a China define como uma “linha vermelha”. Após décadas de tolerância, a liderança chinesa decidiu colocar um fim a essa ambiguidade.
Nesse contexto, Trump chegou à China vindo de uma percepção de vitória devido à intervenção na Venezuela. A prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro foi vista como um duro golpe no campo progressista, conferindo ao poder americano uma aura de invencibilidade que remonta à década de 1990 e fazendo o lema Make America Great Again (Faça a América Grande Novamente) parecer uma realidade. Paralelamente, os Estados Unidos intensificaram a asfixia econômica contra Cuba, promovendo um bloqueio financeiro brutal que resultou em crises de abastecimento de petróleo e falta de energia, afetando até mesmo o funcionamento de hospitais.
O bloqueio brutal a Cuba, embora possa não resultar na queda imediata do governo, representa mais um duro golpe para a América Latina. Paralelamente, os Estados Unidos envolveram-se diretamente em tensões com o Irã, expondo o que podem ser consideradas as “trapalhadas do Império”. Essa postura é fortemente ligada a Israel, que exerce uma influência desproporcional na política americana. Esse domínio é agravado pelas possíveis revelações do caso Epstein, que sugerem o envolvimento de elites políticas e financeiras — tanto democratas quanto republicanas — em redes de pedofilia, tornando o governo dos EUA vulnerável a pressões externas.
Os Estados Unidos entraram no conflito com o Irã acreditando em uma solução rápida, de no máximo três dias, que envolveria a eliminação da liderança iraniana. Contudo, após ataques a complexos e familiares de líderes, a contraofensiva do Irã foi inesperada e resultou na destruição de bases militares americanas no Oriente Médio. Esse cenário abalou a confiança dos países da região, que passam a ver a China como uma parceira estratégica mais confiável, pois ela não busca instalar bases militares nem interferir em assuntos internos.
A resiliência iraniana é sustentada pela retaguarda estratégica fornecida pela China, consolidada por um acordo de 25 anos que envolve a troca de petróleo por infraestrutura, armamentos e inteligência tecnológica. Com a mediação do Paquistão, a China alcançou uma posição de negociação inédita na história. Ao chegar para o encontro na China, Trump representava uma potência que, pela primeira vez em séculos, demonstrava um declínio relativo e a incapacidade de impor sua vontade a terceiros.
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Ao mencionar a “Armadilha de Tucídides”, Xi Jinping deixou claro que a China é a potência emergente, enquanto os EUA são a potência decadente. Embora Trump tenha percebido esse recado, a ideologia americana, baseada em conceitos como o “Destino Manifesto” e a ideia de ser uma “Nova Canaã”, impede que o país aceite oficialmente o fim de sua hegemonia. Pela primeira vez em séculos, os americanos não conseguem impor sua vontade a terceiros, como o Irã ou a própria China. Isso configura uma humilhação, especialmente porque Trump chegou a Pequim após reveses no Irã, país que conta com a retaguarda estratégica chinesa.
Sob uma perspectiva dinâmica, essa situação é fruto de um processo estratégico planejado. Ao abrir suas portas ao mundo, a China tinha o objetivo claro de obter acesso à tecnologia e a métodos modernos de administração para superar seu atraso em relação às potências capitalistas. Deng Xiaoping (1904-1997), ex-presidente da Comissão Militar Central da China, aconselhou que o país mantivesse um “baixo perfil” e escondesse seu sucesso para garantir as alianças necessárias com o Ocidente e consolidar sua revolução interna.
Esse histórico de confrontação remonta à Revolução Popular de 1949, que representou a primeira grande derrota imposta pela China aos Estados Unidos. Esse marco é simbolizado pelo texto de Mao Tsé-Tung, “Adeus, Leighton Stuart”, que narra a partida do embaixador americano. A vitória de um exército de camponeses no país mais populoso da Terra alterou permanentemente a correlação de forças mundial, um desfecho que as potências da época jamais imaginaram.
A vitória da Revolução de 1949 alterou profundamente a correlação de forças na Ásia e as relações com o Japão, a Coreia do Sul e Taiwan. Para conter a crescente influência de movimentos populares marxistas vindos da China, Vietnã, Laos, Camboja e Coreia, os Estados Unidos mudaram sua abordagem na região, transformando o Japão em um símbolo de desenvolvimento industrial.
A segunda derrota americana ocorreu na Guerra da Coreia, quando a China interveio com mais de um milhão de voluntários. Apesar das pesadas baixas, o exército chinês forçou o recuo das tropas americanas até a fronteira original entre as Coreias, impedindo que os Estados Unidos impusessem sua vontade, como a proposta do General MacArthur de utilizar bombas atômicas contra áreas industriais chinesas. Esse conflito mudou a geografia econômica da China: o receio de ataques fez com que as indústrias, antes concentradas no litoral, fossem deslocadas para o interior, o que serviu de base para a bem-sucedida estratégia de desenvolvimento do oeste iniciada no final da década de 1990.
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Apesar das tentativas americanas de isolamento na década de 1960 — exemplificadas pelo plano de tornar a China dependente de importações agrícolas —, o país resistiu. Foi Mao Tsé-Tung, e não Deng Xiaoping, quem iniciou a aproximação com os EUA ao receber Richard Nixon em 1971, uma aliança estratégica motivada pela rivalidade comum com a União Soviética. Esse processo culminou na normalização das relações, com a China assumindo seu lugar no Conselho de Segurança da ONU em 1971 e a abertura formal de embaixadas em 1978.
Desde então, a China concentrou-se na construção de capacidades industriais, financeiras e militares para tornar-se uma potência intransponível. Mesmo diante de provocações e do envolvimento comprovado dos EUA nos eventos da Praça da Paz Celestial em 1989, os chineses demonstraram uma paciência estratégica absurda, evitando conflitos diretos para garantir seu objetivo maior: a autonomia tecnológica e financeira que desfrutam hoje.
A iniciativa de buscar o diálogo partiu da China, movida pelo interesse estratégico de normalizar as relações com os Estados Unidos. A liderança chinesa suportou décadas de provocações e demonstrações de força por compreender que seu objetivo fundamental era alcançar a autonomia financeira e tecnológica. Para qualquer país da periferia, essas duas condições são os pilares indispensáveis para o exercício de uma independência real.
A visita de Trump à China deve ser interpretada como uma aula de estratégia política. Esse processo, iniciado por Mao Tsé-Tung em 1971 ao receber Richard Nixon, foi continuado por Deng Xiaoping e pelas lideranças subsequentes, que entenderam a necessidade vital de absorver tecnologia e métodos de administração ocidentais para superar o atraso em relação aos países capitalistas. Após o “bullying tecnológico” de 2017, a China aprofundou a transformação de sua base material e hoje atingiu um patamar de autossuficiência que remete à sua posição histórica no início do século XIX, podendo afirmar que não depende mais do Ocidente para seu desenvolvimento.
Historicamente, os Estados Unidos subestimaram a capacidade chinesa, presos a teses que condicionam o sucesso econômico à adoção da democracia liberal e da economia de mercado. Analistas ocidentais acreditaram que o sistema chinês implodiria, mas a governança do país adaptou-se com eficácia, inaugurando em 2017 uma “Nova Era” — sucessora dos marcos da Revolução de 1949 e da Reforma de 1978.
Nesse percurso, a China deu uma lição de pragmatismo ao mundo: manteve-se focada em seus objetivos internos sem buscar protagonismo em bandeiras ideológicas alheias ou conflitos externos. Essa postura incluiu abstenções estratégicas em votações cruciais, como no caso da Guerra do Iraque, evitando o uso do poder de veto no Conselho de Segurança da ONU para não desviar o foco de sua meta soberana. Dessa forma, a China consolidou uma humilhação estratégica sobre os Estados Unidos, tanto na análise do momento atual quanto na dinâmica histórica de longo prazo.
Assista a íntegra do programa Meia Noite em Pequim com Elias Jabbour
Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.
*Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 20/05/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.