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    América Latina

    Vitórias na Colômbia e Peru aumentam cerco da extrema-direita sobre a América Latina

    Honduras, Chile, Argentina, Peru, Paraguai e Equador participam de uma articulação ultraconservadora na região; restam apenas Brasil e Uruguai com experiências progressistas

    POR: Elias Jabbour

    17 min de leitura

    Novo presidente da Colômbia, Abelardo de La Espriella (esq.) é recebido pelo vice-presidente da Corte Suprema de Justiça Hugo Quintero Bernate (centro). Foto: Corte Suprema de Justiça / Colômbia
    Novo presidente da Colômbia, Abelardo de La Espriella (esq.) é recebido pelo vice-presidente da Corte Suprema de Justiça Hugo Quintero Bernate (centro). Foto: Corte Suprema de Justiça / Colômbia

    A vitória da extrema-direita na Colômbia com a confirmação da eleiçõe de Abelardo de La Espriella para presidente, e no Peru, com a vitória de Keiko Fujimori, que está sendo questionada por supostas fraudes,  traz severas consequências para toda a América Latina. Países como Honduras, Chile, Argentina, Peru, Paraguai e Equador, participam de uma articulação ultraconservadora na região. Dessa articulação surgem estratégias e táticas para a insurgência pró-Estados Unidos, especialmente na América do Sul Atualmente, restam apenas Brasil e Uruguai como as chamadas experiências progressistas.

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    O Brasil terá eleições este ano que, segundo Marco Rubio, são as mais importantes do mundo em 2026, o que nos exige atenção. Há também o caso à parte da Venezuela, um Estado que se transformou em um protetorado estadunidense. O futuro venezuelano nos próximos anos depende tanto de fatores internos quanto da política dos Estados Unidos. A Venezuela continua sendo um caso a ser observado e estudado, sobre o qual prefiro não emitir maiores opiniões por não ter conhecimento aprofundado sobre o que está acontecendo no país.

    Outro fator histórico que molda o destino da nossa região é o cerco brutal e econômico a Cuba, que tem levado a situações trágicas em hospitais. Recentemente, Cuba anunciou profundas reformas econômicas em uma busca desesperada por oxigênio financeiro para um país que se encontra em uma situação de cerco. As reformas em Cuba são certamente feitas em uma situação de amplo cerco e de busca desesperada por oxigênio econômico para um país em condições extremas. O fato é que o país não tem condições de sair da situação em que se encontra sem essas reformas, mas, principalmente, sem o fim do bloqueio econômico. O caso de Cuba é interessante porque o cerco é incontornável. Cuba pode realizar reformas econômicas e, inclusive, não abro mão da possibilidade concreta e real de que elas tenham sido combinadas com os Estados Unidos em meio a negociações.

    Voltando à América do Sul, nossa região demanda uma análise mais conjuntural sobre a decadência relativa do império estadunidense. Essa decadência é marcada pelo aumento do uso da violência como instrumento de governança internacional. Naturalmente, essa utilização aberta da violência tem o seu preço. O Irã, por exemplo, é um caso em que os EUA pagaram um preço inesperado, pois o país acabou de retornar ao mercado de petróleo. Assim, o Irã sai desse conflito muito melhor do que entrou. Do ponto de vista da estratégia de disputa pelos destinos do Oriente Médio, a derrota americana foi muito maior do que imaginávamos.

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    Os Estados Unidos saem desmoralizados. Eles vêm de negociações comerciais com a China em que os chineses deram o tom e, recentemente, a China impôs controle sobre as exportações de minerais críticos para dez empresas estadunidenses. Existe um cenário internacional caracterizado pela decadência relativa dos Estados Unidos e por um crescente nacionalismo tecnológico. Cada país está buscando não apenas a chamada autossuficiência tecnológica, mas também internalizar cadeias de valor que foram rompidas desde o “bullying tecnológico” anunciado pelos Estados Unidos contra a China em 2017.

    Passando agora para as tarifas, existe um rompimento das cadeias de valor e os países buscam a internalização dessas cadeias, inclusive os Estados Unidos. Eles se movem em um mundo que também é hostil aos seus interesses e não são mais a potência unipolar que foram desde o fim da Guerra Fria; essa é a realidade que se impõe. O que colocamos na nossa chamada é que, primeiro, acreditamos na teoria do imperialismo e na ideia de que a América Latina é o elo frágil da cadeia imperialista. Por ser esse elo frágil, é certamente a região do mundo que mais sente, para o bem e para o mal, as mudanças nas políticas internas e externas dos Estados Unidos.

    Desintegração regional

    Durante os anos 2000, por exemplo, na medida em que os Estados Unidos desviaram seu foco para o Oriente Médio com as invasões ao Iraque e ao Afeganistão, a América Latina teve um respiro e conseguiu se sobressair regionalmente por meio de uma maior articulação. Atualmente, porém, a região está em um processo que costumo chamar, em conversas privadas, de desintegração regional. Isso ocorre enquanto os Estados Unidos fazem um movimento lento de retração internacional — sem abandonar a ideia de uma hegemonia global baseada no dólar —, mas intensificando o seu domínio pleno sobre a América Latina, nossos recursos naturais e ativos estratégicos.

    A região sofre as consequências diretas dessa decadência estadunidense e também da possibilidade de a China se transformar na maior e mais influente economia do mundo, o que deve ocorrer nos próximos dez anos. Sob o meu ponto de vista, a América Latina passa por um processo de desintegração. É fundamental entender o resultado eleitoral da Colômbia, a situação no Peru e na Bolívia — que está em ebulição social —, além da vitória de candidatos ultraliberais no Chile e de Milei na Argentina, que se mantém de pé apesar do imenso sofrimento daquele povo.

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    É o desmonte nacional completo. Vemos a Argentina desmoronando com Milei e o Equador com Noboa. Explicar esse giro à direita na América Latina exige uma leitura mais estrutural do que está acontecendo. Precisamos tratar de um assunto fundamental: o desmonte dos elementos institucionais de integração sul-americana que ocorre desde 2010. Nesse período, a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) passou por um processo de desmonte, inclusive o seu braço voltado para infraestruturas. Instituições que objetivavam a integração energética e de transporte na América do Sul desapareceram, assim como os instrumentos de gás na própria Unasul e organismos como o Conselho de Defesa Sul-Americano.

    Tudo isso vem sendo desmantelado desde 2010, de forma que a integração produtiva e logística, que estava em vias de se concretizar, foi interrompida. Lembro-me da imagem, até emocionante, de Hugo Chávez mostrando o projeto de um imenso gasoduto que partiria da Venezuela, passaria pelo Brasil e pela Bolívia, integrando a América do Sul do ponto de vista energético. Infelizmente, tudo isso foi lentamente abandonado em favor de estratégias nacionais concorrentes entre si, que buscam e resultam na maior fragmentação da América do Sul. Esse é um ponto fundamental para a análise do que está ocorrendo hoje. Mais do que isso, temos o exemplo do Brasil.

    A partir de 2010, nossas exportações para a região caíram 35%, o que demonstra que o Brasil, o dínamo da região, virou as costas para a América do Sul. Essa desintegração produtiva favorece elites locais ligadas ao agronegócio e ao extrativismo. O golpe de 2016 no Brasil foi levado a cabo, inclusive, pelo agronegócio, impedindo que o país seguisse rumo a um processo de industrialização mais claro. Foi uma reação dos setores extrativistas contra um projeto nacional soberano e independente, algo que ocorreu em toda a América do Sul.

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    O Peru, por exemplo, cresceu economicamente nos últimos 30 anos baseado no extrativismo, assim como o Brasil cresceu, em certa medida, baseado no agronegócio. No entanto, no caso peruano, esse crescimento não criou base territorial, gerando imensa instabilidade política e “ilhas de prosperidade”, como em Lima, onde o extrativismo é mais forte. O Peru vive a contradição de ser um país que prosperava economicamente, apesar do aumento das desigualdades, mas que está altamente abalado institucionalmente, com uma crise política permanente.

    A Operação Lava Jato foi peça-chave nesse serviço de total desintegração política e institucional, tanto no Peru quanto no Brasil, ao desmontar grandes investimentos que buscavam a própria integração da América do Sul. Em nome do combate à corrupção, a operação desmantelou os instrumentos logísticos necessários para uma integração física regional. No Peru, a Lava Jato implodiu o país por completo do ponto de vista institucional.

    O Brasil também sofre com essa interferência externa via Operação Lava Jato, enfrentando uma desindustrialização que aprofunda a quebra do tecido social brasileiro. Vivemos atolados em crises institucionais permanentes porque existe uma reversão de papéis entre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário que precisa ser solucionada para que o país recupere seu rumo.

    Essa polarização atinge os países de forma multifacetada, tanto interna quanto externamente. O Equador, por exemplo, foi usado pelos Estados Unidos para provocar a Colômbia com a intenção de interferir em suas eleições; já a Colômbia, sob um governo de extrema-direita, vivia provocando a Venezuela. Essa rivalidade entre e dentro das nações se ampliou com as guerras híbridas e as guerras de quinta e sexta geração. As sociedades se polarizaram a partir da propagação massiva de fake news. As eleições de 2018 no Brasil foram marcadas por um projeto que a direita conseguiu incutir na cabeça da população — como a pauta do “kit gay” nas escolas. Esse foi o nível do debate público: o mais rebaixado possível, devido ao papel das redes sociais e das notícias falsas disparadas via WhatsApp, muitas vezes originadas nos Estados Unidos.

    O caso da Colômbia é muito interessante nesse aspecto. Quem visitou o país antes das eleições percebia a esquerda ocupando as ruas, o que passava a confiança de uma vitória talvez até no primeiro turno. Muitos analistas previram isso, mas a abertura das urnas trouxe uma surpresa geral, semelhante ao que ocorreu com Jair Bolsonaro em 2022, quando acreditávamos na vitória no primeiro turno e quase perdemos no segundo.

    Acredito que as esquerdas na região ainda não perceberam o papel fundamental das redes sociais. Nossas redes são fraquíssimas em comparação às da direita e à sua capacidade de mobilizar “corações e mentes”. Enquanto a extrema-direita elege parlamentares e transforma influência digital em votos há mais de 15 anos, a esquerda ainda se perde em discussões anacrônicas, quase do século XVIII, sobre se a rede social de fato gera votos.

    É muito comum observar em ciclos de esquerda essa dúvida, o que revela uma visão ainda aferrada a um modelo tradicional de eleições. Enquanto isso, a extrema-direita já percebeu que o mundo virtual e o mundo real se fundiram há muito tempo. Basta ver as pessoas no ônibus ou no metrô: todas estão olhando para o celular. Na Colômbia, o impacto das redes sociais e das fake news nesse processo eleitoral ficou muito evidente.

    Na medida em que a esquerda não trabalha com categorias como o imperialismo, ela perde a noção e a capacidade de analisar a realidade como ela de fato se apresenta. Ao observar as eleições apenas como uma “grande festa democrática”, em detrimento de enxergá-las como o momento crucial da luta de classes e da contradição entre o projeto nacional e o fascismo — alimentado pelo imperialismo —, a esquerda acaba se perdendo e perde a capacidade de se situar no debate.

    Além disso, ocorre na América do Sul, e no Brasil em particular, um processo de desindustrialização que se conecta à desintegração regional e aos resultados eleitorais recentes. Embora os governos de esquerda na região tenham sido eficazes na construção de programas distributivos de renda, aumentando a sensação de redução da desigualdade, fomos incapazes de construir as bases materiais necessárias para sustentar e ampliar essa distribuição. Ironicamente, esses mesmos governos também presenciaram ondas de desindustrialização.

    Não há como falar em desintegração da América do Sul e de seu tecido social sem abordar a desindustrialização. Diferente da China, que focou por 40 anos no adensamento de suas forças produtivas, as esquerdas sul-americanas priorizaram medidas de distribuição de renda em detrimento do desenvolvimento produtivo. O resultado é que, quando um governo de extrema-direita assume e altera instituições — impondo o teto de gastos ou limites ao BPC —, as conquistas sociais se perdem rapidamente. Isso acontece porque tais avanços não foram baseados na inclusão das pessoas via processo produtivo, mas sim pelo consumo.

    Existem diversas explicações para esse avanço da extrema-direita na América do Sul. No Brasil, não devemos esperar uma “festa da democracia”, mas sim um palco onde a luta de classes se dará de forma acirrada, em uma eleição extremamente difícil. Para nossa sorte, a extrema-direita brasileira perdeu o monopólio de discursos como o da família e da anticorrupção. Hoje, o bolsonarismo está no centro de escândalos financeiros que envolvem o que chamo de “caixa do fascismo”, que passa necessariamente pelo Banco Master. Além disso, o suposto patriotismo cai por terra quando vemos políticos como Flávio Bolsonaro indo a Dallas para falar abertamente sobre a entrega de recursos naturais aos Estados Unidos — algo que seria impensável até para círculos conservadores de 50 anos atrás. É isso que está em jogo no Brasil.

    Uma variável crucial que envolve toda a América Latina e explica nossas derrotas é o fato de a nossa região ser a mais insegura do mundo. Morre-se mais aqui do que na Síria durante a sua guerra civil. Essa realidade alimenta uma subjetividade marcada pelo medo, muito semelhante à da Guerra Fria. Naquela época, filmes de terror como A Profecia e O Exorcista usavam o “diabo” como metáfora para a União Soviética; hoje, esse medo é utilizado para o controle das mentes em torno da questão da segurança pública.

    A esquerda precisa modular seu discurso para enfrentar essa questão. O modelo de Bukele tem sido apresentado como um exemplo para demonstrar que políticas que desconsideram o Estado de Direito e os direitos humanos seriam mais eficazes para trazer a paz social imediata do que políticas pautadas por princípios democráticos. Precisamos ser objetivos: a transformação da América do Sul na região mais violenta do mundo tem relação direta com a implantação do neoliberalismo, com seus ajustes fiscais e estruturais que levaram à quebra do tecido social. A diminuição do papel do Estado na economia permitiu que ele fosse substituído pelo crime organizado.

    Teremos que enfrentar a questão do domínio territorial no Brasil, pois o conflito com o crime organizado é quase inevitável. Para isso, necessitamos de inteligência militar de alto nível e, fundamentalmente, do fim do atual arcabouço fiscal. Somente assim teremos condições de financiar a vigilância efetiva de nossas fronteiras, por mar e por terra. O limite fiscal atual nos impede de ter uma política de segurança eficiente que vá além de operações policiais pontuais, permitindo um investimento real em inteligência e controle de fronteiras.

    Necessitamos multiplicar a capacidade da inteligência civil e militar para controlar as operações de milícias e traficantes, além de ampliar a repressão financeira contra esses grupos. Só então poderemos pensar em operações militares no território, desde que sejam pontuais e baseadas estritamente em inteligência, e não voltadas para projetos eleitorais, como vemos no Rio de Janeiro.

    A esquerda precisa refletir sobre isso, pois esse fator foi fundamental para a eleição desse modelo na Colômbia. Assim como no Brasil e no México, a Colômbia assiste ao avanço de facções criminosas que dominam territórios em grandes cidades. O que havia regredido no passado volta agora com força: o domínio territorial de facções em países como Venezuela e Colômbia gera um sentimento de terror na população, que exige respostas imediatas.

    O chamado “modelo Bukele” é vendido como solução para a população, mas omite-se que há farta documentação demonstrando suas ligações e acordos com o crime organizado em El Salvador. Quando esses acordos são rompidos e o crime organizado promove massacres, o governo parte para uma repressão brutal que ignora o Estado de Direito e os direitos humanos. É um modelo altamente contestável que precisamos enfrentar pelo conjunto da obra.

    Devemos mostrar que somos capazes de enfrentar a segurança pública admitindo a necessidade inevitável do controle territorial. Contudo, no médio e longo prazo, o Brasil precisa focar na reindustrialização para deixar de entregar mão de obra barata e precarizada ao crime organizado; precisamos criar empregos de qualidade para nossos jovens. A solução imediata, entretanto, exige inteligência militar, o fim do arcabouço fiscal e o aumento da capacidade do Estado em vigiar fronteiras e mares.

    As eleições no Brasil serão marcadas pelo embate entre um projeto de autonomia e as forças democráticas e populares. O futuro do país e da América do Sul depende desse resultado em outubro. Trump e Marco Rubio investirão pesado aqui, mas, felizmente, eles costumam errar muito em suas avaliações sobre o Brasil. Precisamos estar atentos.

    Assista à íntegra do programa Meia Noite em Pequim com Elias Jabbour

    Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.

    *Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 25/06/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.

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